quinta-feira, 2 de setembro de 2010

outros ensaios de MEU CÂNONE OCIDENTAL




Meu Cânone Ocidental

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Sobre “O Médico e o Monstro”, de Stevenson
http://leoleituraescrita.blogspot.com/2010/03/sobre-o-medico-e-o-monstro-dr-jekyll-mr.html
boa leitura!!

Leonardo de Magalhaens




quarta-feira, 25 de agosto de 2010

sobre a obra do Marquês de Sade







Sobre a obra do Marquês de Sade (1740-1814)
pensador e autor licencioso francês

Quando a Literatura revela o irracional e o perverso

O autor maldito Marquês de Sade (Donatien Alphonse François de Sade, 1740-1814, autor licencioso do século 18) é uma das figuras mais controvertidas de qualquer Cânone. Seria ele um mero pornógrafo ou um autor a frente da própria época? Um louco desvairado ou um precursor da 'liberação sexual' que vivenciamos no século 20?

Suas obras “Justine”, “A filosofia na alcova” e “Os 120 dias de Sodoma” apresentam uma linguagem alegórica e realista, psicológica e debochada, demasiadamente humana e satírica, onde as paixões mais sórdidas e os pensamentos mais cínicos são explicitados, entre uma luxúria e outro, uma sacanagem e outra.

Sacanagem em todos os sentidos. O sexo é mais um dos tantos modos de dominação do Outro. Usar e abusar do Outro enquanto Coisa, enquanto Corpo. A racionalidade não mais é que um 'verniz' sobre o animal cheio de desejos, que se diz Humano e Racional. A insanidade é um bem-comum compartilhado por todos, sejam ricos sejam pobres, sejam nobres sejam plebeus.

O duelo Razão X Loucura, ou Moderação X Luxúria, é o leitmotiv da obra de Sade, a partir de então relacionado a todo tipo de Excessos, Exageros, Alegorias Sexuais, Pornografia, Sadomasoquismo, Surrealismo, em suma, todo o lado 'perverso' que a Racionalidade Instrumental procura dominar/ abafar.

Por este desvelar a 'nossa natureza sombria' (que a Sociedade doma, ao contrário de perverter, como dizia o filósofo Rousseau, defensor do 'bom selvagem') o Marquês de Sade seria merecedor de figurar no Cânone? De ser um precursor do psiquismo (a 'dissecação psíquica') de Freud, então criador da Psicanálise? Até onde podemos 'reabilitar' Sade sem caírmos na 'perversidade'?
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A Sexualidade perversa

Uma das questões levantadas pelos leitores de Marquês de Sade é se a Sexualidade é violência. Ou melhor, se a sexualidade é uma violência consentida. Consentida por uma das partes – a saber, a mulher.

Considerando-seque a fêmea passa a tolerar o desejo do macho e se submeter aos desejos deste. Isso ao escolher um dentre os machos disponíveis e entregando-se a ele, desde que este a proteja da potencial ameaça física dos outros. Ou seja, aceita a violência de um só, evitando assim a violência possível sob o capricho dos outros. A sexualidade feminina, assim, seria co-ordenada de fora- e a partir do desejo masculino- e fruto de um medo ancestral- o de ser violentada.

Uma vez que a carga de violência no ato sexual é permitida pela fêmea, tal fardo é transmutado em prazer, e até ternura, A mulher consente, tolera, com sutil condescendência, os impulsos lúbricos do homem, desde que este a proteja e conceda atenção. A mulher, assim, dispensa um ‘favor sexual’ ao homem, sendo permissiva até um limite de dignidade – que é flexível.

Até porque, para o Marquês, o ato sexual é uma relação de dominação. Sade traz para o plano sexual as relações de poder mestre-escravo, num momento de turbulência política, quando os nobres se percebiam ameaçados pelos burgueses, agora assumindo a dominância política, além da econômica.

Sendo o ato sexual, sutilmente até, um ato de dominação, a característica perversa é salientada. Perversa no sentido de não-convencional, não-aprovada, desviada de um objetivo reprodutivo. Sexo enquanto afirmação, busca de prazer, troca de fluidos. Em gradação até o sexo enquanto humilhação do outro. Pois no sadismo o prazer do Eu é mais importante que o prazer do Outro, e até além, o eu sente prazer justamente com o desprazer (dor) do Outro. O Eu domina e o Outro se submete. Um é o mestre, e o Outro é o escravo. (A mesma dialética estudada pelo filósofo alemão Hegel, em “A Fenomenologia do Espírito”, 1807)
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'Perverso' é então todo desvio de um padrão, podendo ser uma posição excêntrica de coito até uma modalidade de tortura física e psíquica. E Sade sabia que para cada mestre, um potencial torturador, havia vários servos, os potenciais torturados. Ou como se diz, os sádicos e masoquistas que se entendam.
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Alegorias da Dominação

Em suas alegorias, sutilmente desmascarando a hipocrisia, Sade causou polêmica, e a sociedade logo prontificou-se a rotulá-lo, visando sua anulação. Nada de retirar o véu sobre as convenções, diziam. O Marquês que vá se entender com os loucos. Mas todos entendiam que as alcovas de seus escritos estavam as representações de várias alcovas reais.

Assim como Ovídio é considerado o ‘imoral’, acima de depravados como Petrônio e Apuleio, por desafiar os padrões da época (que era realmente perversa e imoral) ao revelar o que se ocultava sob o verniz. Nunca denuncie o que todos desejam ocultar, eis um conselho de amigo. “O Asno de Ouro” seria queimado ao lado de “Dias de Sodoma”, tudo para resguardar a 'etiqueta social' e os 'bons costumes'.

Aquela concepção de jovens ingênuas e, ao mesmo tempo, lúbricas, traz a imagem da mulher-menina, da potencial senhora dentro de cada donzela seduzida. Um temor masculino de que a senhora ali adormecida desperte para dominar o dominador. E as figuras do sedutor se mostram as mesmas, ora um sacerdote (possuindo a pupila, ou uma freira juvenil), ora um nobre (seduzindo uma serva, ou a filha de um vassalo), ora um cavaleiro (possuindo donzelas em suas andanças). Todas as encarnações do desejo patriarcal de dominação, onde o homem manda e a mulher obedece.

A mocinha Justine é essa imagem da mulher dominada, sempre na ignorância, e sempre abusada, vitimada pelos desejos e perversões masculinas. A obra “Justine ou os Infortúnios da Virtude" (Justine ou Les Malheurs de la Virtu)”, publicada em 1791, tem algo daquele estilo panfletário, alegóricos, das obras de Rousseau e Voltaire – numa tradição satírica que remota a Rabelais e Swift. Onde as voltas e revoltas da linguagem – e do estilo - estão à serviço de algum 'pensamento', algum ensino moral. Assim o Cândido tem como título alternativo “O Otimismo”, enquanto apresenta justamente uma série de desgraças (naufrágios, terremotos, traições...).

Que sofrimentos atingem Justine? A própria condição de mulher é o portal para o sofrer – ser um corpo a servir às lascívias masculinas, sendo possuída como 'coisa', não entendida como 'pessoa'. Se o jovem Werther (aquele que também sucumbe de 'sofrimentos', na obra de Goethe, “Sofrimentos do Jovem Werther”, 1774) O leitor ouve a narração da jovem, que não poupa imagens de humilhação e denúncias de crueldades. O desejo masculino sendo movido – e excitado – pelo sofrer da mulher.

A jovem Justine é abusada por aqueles que deveriam zelar por sua educação e bem-estar. Assim muitas crianças abusadas por familiares e parentes que aparentemente são dignos de confiança – e usam justamente esta confiança para humilhar e abusar sexualmente das crianças. Assim os educadores, os padres, os diretores de orfanatos, as autoridades - que aparentemente são inofensivas – mostram que a perversidade está dentro – quando menos se espera a Razão é vencida pelo Desejo desvairado e eis o crime – o fim da Virtude.

Entre cada abuso, a Narradora-vítima descreve os tipos masculinos que abusam de sua juventude, assim como nas obras de Narrador (não-personagem) temos verdadeiras digressões filosóficas sobre a 'natureza humana' que a 'civilização' cristã e repressora não conseguiu destruir – no máximo abafar. Agora os desejos abafados ressurgem ainda mais exagerados e letais. Represado antes, agora pervertido. A sexualidade não é mais um 'encontro' com o Outro – mas a dominação do Outro. (Destaca-se “La Philosophie dans le boudoir” com toda uma estética não-ética, imoral, do Outro enquanto objeto do Desejo – o Outro a ser instrumentalizado para se conquistar o Prazer. E toda uma 'filosofia' para justificar o prazer que resulta da dominação...!)

A própria condição da mulher – imagem-mor da 'passividade' – é percebida pela jovem Justine ao observar o comportamento das demais jovens submetidas igualmente aos abusos. Elas reagem com um 'comportamento de ovelhas' como cúmplices diante do sofrer das outras. A 'miséria ama companhia' diz o ditado, e é verdade aqui. Eu sou abusada, mas não é apenas eu, devem pensar as ninfetas violentadas. E a coletividade das abusadas-vitimadas são conduzidas como ovelhas pelos pastores (sim, o que não faltam são sacerdotes abusadores!) rumo ao sacrilégio da Virtude. (Claro, o Sexo é sempre visto como Pecado...)

As jovens inclusive debatem os papéis sociais – derivados dos 'sexuais' – da mulher enquanto 'sexo frágil', inferior ao homem, e de como é possível serem 'companheiras' e fiéis esposas aos seus maridos. Aliás, o que pode fazer uma esposa para agradar ao marido? (Marido que muitas vezes a moça não escolhia – era tudo negociado pelas famílias, com acordos pré-nupciais, etc) Quais os deveres e direitos das mulheres? E dos maridos? Como 'disciplinar' uma união basicamente 'sexual'? (Visto que assim que o homem se entediasse com a esposa, poderia seduzir outras, as amantes, as concubinas, geralmente humildes, servas, pobres, e mantendo a hipocrisia de sempre.)
A Narradora-vítima re-vivencia o sofrimento ao narrar, e ainda mostra um aspecto de 'torpor' diante do carrasco – o estar dominado precisa ser 'aceito' para o 'jogo sexual'. Diante do sádico o melhor a fazer é ser masoquista. Ela roga por piedade, mas precisa se submeter. Assim, como a vítima que se percebe lubrificada quando do ataque do violador, a jovem descobre que o 'jogo sexual' é o medo do passivo a excitar o desejo de dominação do ativo. Quando mais a jovem grita por piedade – mais o agressor se excita, se animaliza!

Dizemos 'ativo' e 'passivo' para não ficarmos apenas no 'macho' e 'fêmea' quando o assunto é sexualidade. Assim, no caso da sodomia, temos o fato de um macho dominar sexualmente outro macho. O primeiro é dito 'ativo' e o segundo, 'passivo'. E O 'passivo' pode ser, ao mesmo tempo, 'ativo' em relação ao uma mulher. É justamente essa confusão de 'papéis sexuais' que tumultua as orgias sádicas – não há mais fronteiras, 'ninguém é de ninguém', tudo é válido. Atividade e passividade se tornam um grande 'jogo' de ganha-perde. A violência sofrida pelo Eu - quando se é passivo – pode ser repassada ao outro – quando o Eu se torna ativo.

O escândalo advém de se mostrar a realidade, e isso Sade causou mesmo. Apresentou a mulher como um brinquedo perigoso para uma sociedade hedonista que desabaria numa revolução sangrenta. (Qualquer comparação com a Roma de Ovídio e Apuleio é mera coincidência?)

Assim a perversão não é a de Sade (que apenas deu livre vazão as suas fantasias), mas de todo um sistema de dominação que vicejou e ainda não se desfez. Vivemos nutrindo sonhos eróticos e temendo realiza-los. A mulher quer ser independente, mas ainda se submete aos desejos masculinos. O homem ainda se sente inseguro quando a mulher quer realizar as fantasias dela. Os casais ainda jogam o mesmo jogo de dominação que o Marquês apresentou alegoricamente tão escandaloso.

O mesmo Marquês de Sade que não acreditava muito nos slogans da Revolução burguesa - “Liberté, Egalité, Fraternité” - e que desprezava qualquer reforma política – que não desfaria a 'natureza humana' egoísta e perversa. Aliás, 'perverso' nem seria o termo aqui – o que se considera 'pervertido', para o Marquês é a pura essência do ser humano.

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sobre o Marquês de Sade
http://pt.wikipedia.org/wiki/Sade
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link para obras de Sade (en français)
http://www.sade-ecrivain.com/
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contextualização histórica de Sade
http://www.klepsidra.net/klepsidra8/sade.html
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a peça Marat / Sade do autor alemão Peter Weiss
http://il.youtube.com/watch?v=aur-t-RtOJM&feature=related
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sábado, 14 de agosto de 2010

sobre ' Germinal ' de Émile Zola




Sobre o romance GERMINAL (1885)
do escritor francês Émile Zola (1840-1902)


Germinal: a Arte politizada enquanto Arte crítica


A Arte é o olhar crítico - não só arte engajada, mas um mostrador dos descontentamentos do povo. Ser um artista engajado é um prejuízo para a arte? Sim, subordinar a expressão artística a uma dada ideologia, jogo político. Não o dizer sobre a ideologia e a política. Mas a arte é antes de tudo EXPRESSAR algo de alguma FORMA, em som, palavra, música, objeto, formato, gestos,

Dizem que o Comunismo sufocou Maiakóvski. O Estalinismo certamente. Pois não houve sequer socialismo na URSS, como vai haver 'comunismo'? O socialismo nem o comunismo ou o anarquismo são sistemas perfeitos. São sistemas idealmente igualitários. Melhores que o capitalismo. (O socialismo teoricamente viável, e o comunismo e o anarquismo demasiado utópicos, onde tanto Marx quanto Bakhunin são sonhadores)

Mesmo num mundo socialista a arte deve ser autônoma e crítica. 'Arte pela arte' não existe: existe arte feita por alguém para um público. Um público que será crítico e parâmetro. Um público que poderá ser despertado ou hostilizado. A simples escolha de uma temática já é política. Pode-se falar sobre borboletas, mas se falarmos de a extinção de borboletas por causa do desmatamento, surgem as perguntas: quem está derrubando as árvores? Quem vende e quem compra os troncos? Quem tem o direito de explora um meio ambiente?

Pois bem, um tema que poucos escritores abordavam com profundidade, em pleno século 19, com as raras exceções de Victor Hugo, Dickens, Dostoiévski, é a condição da classe trabalhadora. Os romances descreviam ambientes burgueses, festas de debutantes, heróis aristocratas, generais em cavalos brancos, e nada a dizer sobre a vida das copeiras, dos mordomos, dos escudeiros. E falar da classe proletária, era falar de exploração, lei da oferta e da procura, lei do salário, o conflito entre o trabalho e o capital, descrever a miséria. Ou seja, abrir mão do 'glamour', dos salões sociais, criar uma escrita um tanto quanto crítica e indigesta, como fazia Dostoiévski com seus "Crime e Castigo" e "Os Possessos", e depois Górki e Émile Zola.

Quando Émile Zola entendeu a pretensão de Balzac com suas obras em recortes verticais na sociedade francesa, com personagens de todas as classes sociais e regiões, e sentiu a complexidade das descrições de Stendhal, contudo mais 'enxutas' que as longas inserções e líricas passagens românticas de Victor-Hugo (nos clássicos "Les Miserables"/Os Miseráveis, e "Notre Dame du Paris"), ele elaborou uma nova linha de escrita, um estilo profundo, mas sem rebuscamentos, explicando mais sem ser didático, deixando as personagens interpretarem os conceitos, sem precisarem ficar expondo tudo em longos diálogos.



(O estilo de Zola : no século 20 temos um Truman Capote. Cru e curto. Frases laminares. Sem frescuras. Será que Capote era leitor de Zola?)

A fala popular foi utilizada, mostrando o cotidiano das classes menos educadas, que eram invisíveis aos burgueses de Paris, que viviam num mundo de luxo e gastança, indiferentes às vidas dos mineiros que extraiam o carvão e o gás que aqueciam e iluminavam as belas mansons dos boulevards!

Germinal faz parte da série de vinte romances Les Rougon-Macquart (escrita de 1871 a 1893), com o subtítulo "História natural e social de uma família no Segundo Império", no período até a derrota francesa para os prussianos-germânicos em 1870, onde as condições do meio e a fisiologia determinam as ações humanas, seus conflitos familiares e sociais.

Da série de romances destacam-se três, "L'Assomoir" (1877) onde são retratados os pais de Étienne Lantier, o protagonista de "Germinal", além da brutalidade de seu irmão Jacques, descrita em "A Besta Humana/La Bête humaine" (1890), onde as condições internas naturais se somam as condições externas do ambiente físico e social para determinarem as ações das personagens. ( "O homem é o que ele come", escreveu Feuerbach, num radical materialismo.)
Pouco espaço para abstrações e viagens existenciais (ou existencialistas) : as personagens estão em ação, pouco pensam. Reagem aos instintos, lutam pela sobrevivência. Não há lacunas para a metafísica dos intelectuais de torres de marfim. O retrato é cru e áspero. Deglutimos sem vinho o pão duro e escuro da existência.

Em Germinal há o povo faminto das minas e os burgueses indiferentes nas mansões. Assim um povo da superfície e um povo do subterrâneo. O povo de cima que explora o povo de baixo.(o que lembra algumas 'distopias', tais como "A Máquina do Tempo/The Time Machine", 1895, romance de H. G. Wells, onde há um povo evoluído, os Eloi, e um povo bárbaro, os Morlocks, e também o filme "Demolition Man", 1993, do diretor Marco Brambilla, com Stallone, Snipes e Sandra Bullock, onde no futuro a cidade de Los Angeles (San Angeles, em 2032) tem um povo de educados cidadãos numa maquilagem fascista, mantendo a distância, nos subsolos, uma turma de marginais, punks, desabrigados, todos os excluídos do submundo. Em ambas as distopias (e também em "Brave New World", um pouco diferente) existe a beleza porque existe a pobreza mantida oculta - alguém precisa fazer o trabalho sujo: os miseráveis sem opção. Ou trabalham, ou morrem de fome.

(Na utopia de Marx e Engels, é diferente. Não há uma divisão de trabalho. Exceção talvez para os médicos, um serviço altamente especializado. Todos os outros trabalhos podem ser coletivizados em rodízio. Um dia o cidadão é professor, no outro dia é policial, e noutro é gari. Sem problemas. Ele não será nem professor, nem policial, nem gari. Será um cidadão que executa em rodízio as funções de ensinar, vigiar e limpar. Não terá uma personalidade ligada a uma função. Será um ser humano capaz de executar várias funções para o bem coletivo.)


Para retratar (e não ficar explicando), Zola ressalta características nas personagens, que passam agir por seus condicionamentos, ou guiados por idealismos. Assim o velho mineiro Boa Morte (Bonnemort) é o resignado, o cético, acha que a exploração nunca acaba, "do jeito que sempre foi, sempre será". Enquanto o taverneiro (ex-operário) é um reformista, fazendo pressão para que os patrões concordem em melhorar as condições do povo, sem acreditar que o povo possa chegar ao poder. Mas o maquinista russo Suvarin é o anarquista, seguidor de Bukharin, profeta da luta contra os poderosos, "destruir tudo para mudar tudo", enquanto o retórico Pluchart é o representante da Internacional Socialista, tentando organizar a revolução (mas a Internacional se destrói internamente com as querelas entre socialistas e anarquistas.)


Meio a todos esses obcecados surge um Étienne Lantier, em busca de trabalho, sem pão e sem abrigo. Trabalha por necessidade e logo percebe a exploração descarada que suga a saúde e a dignidade dos mineiros. Passa a ser um revolucionário, que tenta entender Marx, e também Proudhon, Lassalle, de forma a conquistar a liderança dos explorados, no sentido de enfrentar os patrões. Estes são mostrados em suas mansões, em suas vidas frívolas, em infidelidades e caprichos, em caridades pseudo-religiosas, em concorrências, enquanto o povo não tem outra opção senão ser explorado.

Zola escreve fazendo um 'recorte na sociedade', de cima para baixo, de baixo para cima, as ações que determinam outras ações, a 'luta de classes' sem abstrações! Ricos, classe média, pobres, todos interligados num jogo onde poucos ganham, e muitos perdem. O mesmo que Balzac ousou, o mesmo que Flaubert provocou, causando incômodos em muitos 'fidalgos'. Aqui no Brasil tal Literatura também causou polêmica. São exemplos Graciliano Ramos, Jorge Amado, Érico Veríssimo (a fase "O Tempo e o Vento"), Cyro dos Anjos (com o famoso "Montanha"), onde os entrelaçamentos entre exploração e política, pobreza e hipocrisia, ficam claramente expostos. Chagas à mostra.

Os patrões igualmente são representantes dos 'estilos patronais'. Deneulin (da mina Jean-Bart) é o patrão 'paternal', que coloca a culpa sobre a concorrência, enquanto Hennebeau (da mina Voreaux, junto a Montsou) é o 'técnico', que diz nada decidir, também 'recebe ordens'. Enquanto Deneulin tenta 'emocionar' os empregados com a sombria ameaça de 'falência', outros patrões empregam a tática da 'cooptação': atrair o líder grevista, transformar o revoltado num 'pelego', na figura premonitória do 'sindicalista', como é caso do mineiro Chaval, miserável igual aos outros, mas devido a uma rivalidade com Étienne (pois ambos amam a mesma mocinha, a Catherine), não hesita em manobrar os mineiros segundo os desejos dos patrões.

Mas o ápice do romance é quando a greve se espalha na região mineradora. Os operários inflamados pela revolta se voltam contra os que insistem em trabalhar (os 'traidores') e percorrem as minas em atos de vandalismo, quando a violência da revolução escapa ao controle dos próprios revolucionários - subitamente Étienne percebe esta verdade. Pressionado pelo moderado Rasseneuer e pelo exaltado Suvarin, o líder Étienne precisa lutar contra as divisões dentro do próprio movimento operário. Principalmente contra os operários que seguem cegamente as ordens dos patrões (o exemplo é Quandieu, da mina Mirou), que fragilizam a luta em prol da coletividade.

A greve dura mais de 2 meses. As provisões dos mineiros se esgotam, o dinheiro no caixa coletivo acaba, a fome e a miséria se mostram vergonhosamente, os operários afundam no rancor. Enquanto Étienne luta para manter o movimento, luta consigo mesmo para garantir a liderança - acha que o povo não está preparado, que o povo é violento, é atrasado. Em conversas com Rasseneuer e Suvarin, o jovem Étienne vai percebendo que a edificação do socialismo só é possível com a educação dos empregados, no sentido de eles mesmo assumirem a produção, serem os patrões de si mesmos, os administradores do coletivo.

Étienne medita, ainda acreditando que "a resistência era possível, que o capital iria destruir a si próprio diante do heróico suicídio do trabalho", enquanto se esconde devido a forte repressão das forças militares, vendo nos soldados "os homens do povo lutando contra o povo", e em como atrair os soldados para a luta proletária, "Como seria fácil a revolução triunfar se o exército passasse para o lado do povo! Bastava que o operário e o camponês, nas casernas, se lembrassem da sua origem." Uma união de soldados, operários e camponeses que foi vitoriosa na Revolução Russa - com a força dos Sovietes - até ser sufocada pela contra-revolução burocrática estalinista.

Aí sim certamente, a Revolução devorou Maiakóvski, inevitavelmente. Escrever para as massas seria 'escrever igual às massas' ou procurar aumentar o nível cognitivo-simbólico do povo? Maiakóvski era difícil para o povo? Zola queria ser compreendido pelo povo? A Literatura enquanto espelho - o naturalismo enquanto 'retrato da crua realidade' - sempre sofreu com a incompreensão do próprio povo (enquanto os burgueses, os consumidores de livros, passam de um estilo a outro), uma vez que - como provam as novelas 'globais' das oito horas - o povo prefere a 'água com açúcar' da mesmice.

Sem educação dos cidadãos para a responsabilidade e para autonomia não haverá sequer o 'eleitor' das ditas democracias liberais, mas um mero 'aplicador de impressões digitais em cédulas eleitorais', um autômato guiado pela programação televisiva e pela propaganda oficial.

O interessante em Germinal é que Zola deixa um final onde ainda viceja, mesmo a brotar no rancor, uma pálida esperança: o povo está consciente da luta.


Jan/09



Por Leonardo de Magalhaens
Escritor, tradutor

http://leoleituraescrita.blogspot.com/

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sábado, 7 de agosto de 2010

Les Misérables / Os Miseráveis - de Victor Hugo - Parte 5




Sobre Os Miseráveis (Les Misérables, 1862)
do escritor francês Victor Hugo (1802-1885)
As Obras Clássicas (ensaio 3)
O Romance Burguês enquanto Epopeia moderna
Parte V – Jean Valjean

As grandes barricadas de junho de 1832 são ainda tão-somente o 'prelúdio' das barricadas de 1848. a resistência popular contra as 1forças governamentais'. O tumulto da massa contra as elites. É assim quando as barricadas estendem seus tentáculos sobre 'paz social' burguesa.

“Dezesseis anos se contam na educação subterrânea da revolta, e junho de 1848 sabia-se mais longa que junho de 1832. assim a barricada da rue de la Chanvrerie não era mais que um esboço e que um embrião, comparada às duas barricadas colossais que nós vamos descrever; mas, para a época, ela era medonha.” (“Seize ans comptent dans la souterraine éducation de lémeute, et juin 1848 em savait plus long que juin 1832. aussi la barricade de la rue de la Chanvrerie n'était-elle qu'une ébauche et qu'un embryon, comparée aux deux barricades colosses que nous venons d'esquisser; mais, pour l'époque, elle était redoutble.” II, p. 1253)

Eis o heroísmo – e auto-sacrifício – dos jovens republicanos: Enjolras, Combeferre, Courfeyrac, Bossute, Grantaire, Marius... Mas será necessário que todos os restantes 'se deixem matar'? Que ao menos se livrem os 'pais de família' ... Mas ali não há egoístas nem covardes – recusavam-se a 'abandonar seus postos'.

Enquanto decidem quem deve ficar e quem deve abandonar a resistência, surge um 'oficial' da Guarda Nacional – é o Sr. Fauchelevent, segundo reconhece o jovem Marius. Assim, Valjean consegue 'unir-se ' a barricada. Lá está o prisioneiro Javert, que reconhece o seu velho 'forçado' foragido, Jean Valjean. Os velhos antagonistas se encontram neste ápice dos livros IV e V: as barricadas.

O ataque então começa – por coincidência, pouco antes do retorno do menino Gavroche – quando os revolucionários enfrentam os canhões militares. (Marius pensa: q quem Gavroche entregou a carta endereçada a Cosette? Como se explica a presença do Sr. Fauchelevent?) Os insurgentes observam os jovens oficiais – que morrem para manter o poder dos reis e da nobreza. Ou seja, o poder joga jovens contra jovens, povo contra povo.

Enquanto Valjean ajuda os jovens republicanos lá na barricada, Cosette desperta lá na mansão. O sempre indiscreto Narrador leva o/a Leitor/a ao quarto da jovem. Como bons voyeurs, que todos somos, não hesitamos em acompanhá-lo. “Pode-se, à rigor, introduzir o leitor num quarto nupcial, não num aposento virginal. O verso o ousaria com esforço, a prosa não o deveria.” (“On peut à la rigueur introduire le lecteur dans une chambre nuptiale, non dans une chambre virginale. Les vers l'oserait à peine, la prose ne le doit pas.” X, p. 1288)

Há toda uma descrição detalhista e romântica do quarto, sem esquecer do 'estado de espírito', a sensibilidade, da senhorita. (O Narrador mostra a mulher voltada para os próprios sentimentos, sem nada saber do mundo exterior. Do mundo além da mansão somente os homens se ocupam – em revoltas, motins, guerras...)

Enquanto isso, para economizar munição, os insurgentes não respondem aos ataques da artilharia. Então o Narrador se entrega a uma digressão sobre as atuações da 'guarde nationale' – numa tentativa de mostrar o 'outro lado da colina': quem são aqueles dos batalhões, guarnições, companhias que metralham os insurgentes? As diferenças (e semelhanças!) entre militares e insurgentes, entre repressão e revolta.

A reconstrução textual, da 'batalha' entre exército e revoltas, mescla elementos de cenário com retratos de sentimentos e 'posições ideológicas'.

Na manhã do dia 06 de junho, ainda a resistência dos revolucionários, mas “a esperança dura pouco, o clarão se eclipsa rápido” (“L' espoir dura peu; la lueur s'éclipsa vite.” Livro I, XIII, p. 1299) Os insurgentes sofrem sem munição, sem víveres sem água. Morrem de tiro, de fome ou de sede. Enquanto uns se enraivecem, outros se resignam, um fica impassível: Enjolras. A barricada sofre os golpes de quatro canhões (!) instalados no perímetro.

Quando as munições são escassas, um vulto é percebido fora da barricada – a catar cartuchos dos guardas mortos! É o pequeno Gavroche que se arrisca! Será este o grand finale reservado ao moleque de rua ? O Narrador resolve que a vida de penúria merece ser redimida por uma morte heróica. Entre dramático e charmoso, o menino é baleado.

Presente em toda parte, o Narrador mostra os meninos de rua (“enfants abandonnés”) que se abrigavam na morada de Gavroche, lá no 'Elefante' da praça da Bastilha.

É Marius quem carrega o corpo de Gavroche. Marius, enquanto isso, é ferido. Na pausa, os feridos são medicados, os fuzis recarregados. O Narrador prolonga a narrativa em digressões, descrições, deslocamentos, flashbacks, explicações – enquanto a narrativa 'moderna' se concentra em si-mesma: auto-referente e auto-explicativa. São os editores – e os tradutores – aqueles obrigados a encherem os textos de notas explicativas...

“Há o apocalipse na guerra civil, todas as brumas do desconhecido se mesclam a esses brilhos ferozes, as revoluções são esfinges, e qualquer um que tenha atravessado uma barricada crê ter atravessado um sonho.” (“Il y a de l'apocalypse dans la guerre civile, toutes les brumes de l'inconnu se mèlent à ces flamboiements farouches, les révolutions sont sphinx, et quiconque a traversé une barricade croit avoir traversé un songe.” XVIII, p. 1310)

Registram-se os últimos momentos da barricada da rue de la Chanvrerie. O impassível Enjolras distribui as 'últimas ordens de combate'. Mas impassível que Enjolras só mesmo o inspector Javert. Que sabe ser 'condenado à morte' – e entregue à vigilância de ... Valjean! Javert limita-se a um “É justo.” O agente imagina que Valjean se 'deliciará' com a vingança – mas o que o ex-forçado faz? - Liberta o policial. E revela o próprio endereço! Aos insurgentes, Valjean simula ter eliminado o espião. Segue-se a agonia da barricada.

Em nome do Progresso, a História segue. Os governos caem. Os jovens republicanos morrem. O que é, aliás, o Progresso? O suceder de gerações? O despertar dos povos? A vontade de viver – mesmo que não tenha sentido? “O que é então o progresso? Nós acabamos de dizer. A vida permanente dos povos. Ou acontece que às vezes a vida momentânea dos indivíduos faça resistência à vida eternal da espécie humana.” (“Qu'est-ce donc que le Progrès? Nous venons de le dire. La vie permanente des peuples. / Or, il arive quelquefois que la vie momentanée des individus fait résistance à la vie éternelle du genre humaine” XX, p. 1320)

O ideal seria a 'solução pacífica' – mas o parto do progresso é doloroso – por mais que tenha 'boas intenções'. Em longa digressão, mostra-se o protagonismo francês (ou pós-iluminista) no mundo moderno. (1)

Não falta epopeia na descrição épica – até os “muros de Troia” (da 'Ilíada' de Homero) são evocados (exagero tipicamente romântico que perdoamos em Goethe e Byron, e vamos perdoar em Victor Hugo)

Em suma, os heróis tombam no campo de batalha, e Marius é carregado no instante derradeiro. Prisioneiro de quem? Do sempre heróico Valjean – que desce aos esgotos.

Livro II – os esgotos parisienses

A fuga de Valjean, para as entranhas do esgoto, leva o Narrador a uma longa digressão, a um estudo sociológico – e escatológico – sobre os esgotos da capital francesa. Aqui também algo de irônico e até cínico.

Enquanto “observador social” o escritor declara que a “história passa pelo esgoto” (“l'histoire passe par l'égout”) ou que “a história dos homens se reflete na história dos sanitários” (“l'histoire des hommes se reflète dans l'histoire des cloaques”). Assim, este “observador social” - um proto-sociólogo – vem se emparelhar com um Balzac a documentar em caráter literário – Commédie Humaine – a França do século 19.

O esgoto: digressões escatológicas sobre tipos de estrumes e a produção agrícola! (A lembrar certos trechos sátiros do clássico de Swift, “Viagens de Gulliver”.) Sob a bela e luminosa Paris, uma outra Paris, uma Paris dos esgotos...

O esgoto enquanto abrigo para marginais e revoltosos. E lembramos de uma famosa vítima dos esgotos de Paris: o líder revolucionário Marat (Jean-Paul Marat, 1743-1793), que sofria de doença de pele, devido a constantemente se esconder nos esgotos quando fugia dos soldados monarquistas. Marat vivia dentro de uma banheira – onde, aliás, foi assassinado por uma jovem, Charlotte Corday, adversária política.

Uma das características do Narrador do Autor Victor Hugo, em Os Miseráveis, é o 'enciclopedismo', a obsessão por explicar tudo, contextualizar a Narrativa. Assim, se há uma cena num convento (onde Valjean se refugia com a menina Cosette), há todo um capítulo (ou livro) a esclarecer a história do monastério e a vida monástica. Aqui, no ápice da 'batalha' das barricadas, Valjean se refugia nos esgotos, ao salvar o jovem Marius, ferido em combate. Então há todo um livro a resgatar a história do esgoto de Paris. As origens, a extensão, as ramificações, o labirinto de dejetos sob a metrópole francesa. Só depois voltará a narrativa propriamente dita.

O estilo 'enciclopédico' é usado pelos lusitanos Alexandre Herculano e Almeida Garrett, além do norte-americano Edgar A Poe e do francês Jules Verne. (Outro recurso é utilizar o diálogo, onde as personagens, ao conversarem, 'contextualizam' os fatos narrados – sem uso constante da voz narrativa. Tal método está presente em obra de Dostoiévski, Hemingway e Simone de Beauvoir, por exemplo. Já mesclado ao diálogo, temos os exemplos em obras de Jean-Paul Sartre, Conrad e Umberto Eco, onde o enciclopedismo é 'diluído'.

Sob a vida de 'progresso', há o despejo de dejetos. Há uma “maravilhosa formação histórica chamada Paris” e logo abaixo um labirinto de tuneis, catacumbas, canalizações dando escoamento aos restos fisiológicos de burgueses e miseráveis.

É nesse labirinto – Livro III – que se encontra Valjean. Tenta se localizar, encontrar uma direção, uma saída. A carregar o ferido Marius – que nem geme mais – em passos incertos, a sentir-se cego, assim o herói prossegue. A tropeçar, a afundar em lama, o herói enfrenta o labirinto fétido, sob as ruas em batalha, tal um Ulisses numa odisseia no Mundo dos Mortos, os Infernos. (Para entender estes capítulos é necessário, no mínimo, um mapa da Paris da primeira metade do século 19...) Com uma noção minima de direção, e muito 'sangue-frio', Valjean enfrenta os desafios no mundo das trevas. “As sombras que o envolviam entravam em seu espírito. Ele marchava num enigma.” (“L'ombre qui l'enveloppait entrait dans son esprit. Il marchait dans une énigme.” I, p. 1368) Como escapar dessa fossa tentacular, antes de Marius sangrar até a morte?

Até nos esgotos, os policiais (exploradores de esgotos, com armas e lanternas) a procura de subversivos. Valjean percebe um brilho de lanterna e, prontamente, se oculta no escuro, enquanto a patrulha se desvia para outra ala do labirinto. Valjean, num moneto de pausa e descanso, revira os bolsos de Marius, e encontra o bilhete com o nome do jovem, além do nome do avô e o endereço. Com a claridade a descer de alguma sarjeta, ele pode ler. Depois continua a marcha no labirinto.

A genialidade do Autor se derrama na prolixidade do Narrador ao descrever as dificuldades em cena tão dantesca. É mesmo de causar claustrofobia e desespero. O horror de morrer meio a imundície – enterrado vivo no sepulcro profundo da cloaca parisiense.

Afundado na água, na lama, no fedor, Valjean prossegue, preocupado com a fraqueza e palidez de Marius. Ao final do túnel, uma grade. Hermeticamente fechada. Será o fim? Não há saída... Os penamentos de Valjean não se ligam ao momento - “não pensa em si-mesmo, nem em Marius. Ele pensava em Cosette.” (VII)

Mas ainda não é fim. Temos ainda 150 páginas pela frente, logo um 'deus ex-machina' deve surgir. Mas não será um deus ou anjo ou super-herói a salvar o herói, mas ninguém menos que um bandido, aqui, o velhaco Thénardier! O bandido pensa que o grandalhão assaltou e matou o jovem, e quer metade da 'grana' para então abrir a grade. “Esta providência aparecia horrível, e o bom anjo sai da terra na forma de Thénardier.” (VIII)

O bandido loquaz negocia com o 'assassino' emudecido. Thénardier revista os bolsos a procura de moedas e leva tudo (inclusive um pedaço da roupa de Marius, sem que Valjean perceba) A grade do esgoto é aberta e depois fechada. Sem rangidos – os bandidos cuidam bem dos portais para o 'subterrâneo'...

Ao sair do 'submundo', Valjean respira o ar benéfico e ajuda o desmaiado Marius. Mas outro vulto se aproxima. Valjean o percebe. Novamente entra em cena o inspector Javert, que seguia os bandidos. Javert não reconhece o enlameado ex-forçado, e ex-prefeito provinciano. Mas Valjean não hesita em 'se apresentar', e se entregar ao policial. Apenas, deseja antes, entregar o jovem feridos aos cuidados dos familiares. É assim que o jovem 'pródigo' volta ao lar – um corpo ensanguentado, enlameado, agonizante, sobrevivente das barricadas.

Livros III e IV

Depois de deixarem o jovem desmaiado lá na mansão do avô, o inspector Javert e o protagonista Valjean, seguem para a casa da rue l'Homme Armé. Javert diz esperar à entrada. Mas quando Valjean sobe e olha à janela, ninguém mais está à porta.

Enquanto o avô transtornado observa o que julga ser o cadáver do neto, que “se fez matar nas barricadas”, o inspector Javert vive o profundo dilema entre o dever , a rigidez da lei e a gratidão para com Valjean, a quem o inspector não despreza. Na verdade, Javert reconhece os méritos de Valjean!

A luta entre o dever e a gratidão – após trocar favores com um 'criminoso'.

“Entregar Jean Valjean, era mal; deixar Jean Valjean livre, era mal. No primeiro caso, o homem da lei caía abaixo do homem do crime; no segundo, um forçado subia acima da lei e a calcava aos pés. Nos dois casos, desonra para ele Javert.” (“Livrer Jean Valjean, c'était mal; laisser Jean Valjean libre, c'était mal. Dans le premier cas, l'homme de l'autorité tombait plus bas que l'homme du bagne; dans le second, un forçat montait plus haut que la loi et mettait le pied dessus. Dans les deux cas, déshonneur pour lui Javert.” IV, p. 1415)

Em tal dilema, o inspector perde sua fleuma, perde a si-mesmo, não é mais 'irreprovável', agora que falhou, seu último gesto é atirar-se ao rio Sena.

A narrativa do Livro IV com belas passagens de 'sondagem psicológica', com o dilema de Javert, a reconhecer que ele falhou, e não poderá viver com o próprio fracasso, tem algo de 'existencialismo', o melhor estilo de um Dostoiévski, de um Sartre, de um Camus. O Narrador usa a narrativa densa para 'dissecar' as profundezas psíquicas da personagem – tal percebemos na inglesa Virginia Woolf e na brasileira Clarice Lispector.

Livro V

Marius entre a vida e a morte. Os cuidados do avô junto ao leito do neto. Quando o neto se restabelece, é o avô que se extasia. Os delírios de Marius têm apenas um foco: Cosette. O primeiro desejo do jovem é casar-se. Agora, até o velho aceita.

O avô menciona as visitas do 'senhor idoso' que vem em busca de notícia, a mando da jovem Cosette. O casamento em comum acordo: eis a reconciliação. Há o reencontro de Marius e Cosette (ao estilo romântico) e conhecemos o valor do dinheiro nos 'casamentos burgueses'. Diz Valjean (ou Sr. Fauchelevent): “a Srta Euphrasie Fauchevelent tem 600 mil francos” Melhor argumento que esse não há para o velho Gillenormand!

É que Valjean foi ao bosque junto a Montfermeil buscar o 'tesouro' enterrado. Pois o dinheiro fala: a fortuna da Srta acaba por 'conquistar' a simpatia da família tradicional burguesa, os Gillernormands. O Narrador reforça constantemente – o que cria um 'efeito irônico' – os valores monetários envolvidos no 'matrimônio'. O elemento financeiro se mescla ao elemento afetivo – o idílio amoroso tem o seu lado mesquinho, mercenário. “um dos interessados tinha os olhos vedados por amor, os outros pelos 600 mil francos”. (2)

Cosette é declarada 'órfã de pai e mãe', enquanto o Sr. Fauchelevent é seu tutor (não é o seu 'pai' como ela imaginava...)

Pois bem , eis o final feliz. Cosette rica e casada com um jovem burguês, agora advogado. Pois se engana o leitor, a leitora. Falta algo: a identidade de Valjean. O passado golpeia de volta. Marius não tem certeza se o “Sr. Fauchelevent” foi o seu 'salvador' na fuga da barricada da rue de la Chanvrerie. Nem Valjean esclarece o episódio...

Assim, Marius, o advogado, que sobreviveu à pobreza, à miséria, ele desconhece a 'verdadeira cena' do 'salvamento' de seu pai Pontmercy, quando Thénardier foi roubá-lo no campo de batalha em Waterloo. Marius quer, portanto, encontrar dois homens: o tal Thénardier e o desconhecido que o carregou das barricadas até a mansão do avô. Marius tenta entender como foi levadas das barricadas até a beira do rio Sena – pelo esgoto?! - mas por quem? Seria um outro insurgente? Um agente policial? Um bandido? O homem não voltou em busca de recompensa... terá morrido? Ou preso?

Livro VI a VIII

Estamos em fevereiro de 1833, momento do casamento de Marius e Cosette. Na ausência do Sr. Fauchelevent (ferido na mão direita, num pequeno acidente), o Sr. Gillenormand assume como 'subrogé tuteur' de Cosette.

Valjean, então, sofre uma 'sondagem psíquica' por parte do narrador – em muito semelhante àquela de Javert. Diante de um dilema, o ex-forçado se vê obrigado a revelar-se ao jovem casal. Diante de Marius, o abatido Valjean diz, “Senhor, tenho algo a dizer-te. Sou um antigo forçado”. E revela não ter ferimento algum na mão direita (tudo não passou de um truque para não precisar ir ao casamento e precisar assinar documentos...)

“Eis o que quero dizer-te, que eu já estive nas galés”. E revela-se 'foragido da justiça'. É assustador para Marius: ele, burguês, casado com a filha de um bandido! Mas o Sr. Fauchelevent, ou melhor, Valjean, jura não ser parente de Cosette. E explica o que nós, os leitores, sabemos. A fortuna de Cosette é a devolução de um empréstimo, diz Valjean. Sempre guiado pela honestidade.

Quando tudo parecia resolvido: um drama nas 100 páginas finais! Nada de conciliação e vida em família! Uma incômoda verdade do passado é aqui exumada. Valjean desabafa, “não estou em família, não tenho família”, mas é acima de tudo um “homem honesto”, não pode sustentar uma mentira, uma farsa.

Para a justiça, Valjean está morto, e é assim que ele quer e deve continuar. Pois bem, Marius permite as visitas de Valjean a Sra Pontmercy, mas o próprio visitante se percebe não exatamente 'bem-vindo'. E Cosette não deve conhecer o 'segredo'... É a sinceridade de Valjean que atrai a confiança de Marius, ou Sr. Pontmercy. Mas, Marius acha que Valjean foi a barricada apenas para ter a oportunidade de vingar-se de Javert.

Livro IX

Investigações de Marius. Valjrean afasta-se de Cosette. Surge um carta de um tal Thénard, sobre 'segredos' de família. A visita do tal Thénard (que só pode ser mesmo o velhaco Thénardier). Tudo o que o trapaceiro diz, Marius já sabe. É o momento de desmascarar o velhaco. Mas é este que 'sabe mais', “Valjean não matou o Sr. Madeleine – era Madeleine. E não matou o inspector Javert – o policial se matou.”, diz o despeitado Thénardier. E revela que encontrou um homem a carregar um cadáver na saída do esgoto – mas, é claro, o 'cadáver' era o desmaiado Marius! Este percebe que está diante do 'elo' final para esclarecer tudo!

Pronto, eis a imagem do 'salvador': Valjean foi até a barricada, livrou Javert e carregou Marius pelos esgotos!

E Thénardier é insultado e simplesmente expulso da narrativa. Agora que outro vilão foi expulso – pois o outro (Javert) se expulsou – os elementos desarmônicos são vencidos, e a 'harmonia' pode ser restaurada.

Mas o Narrador não é tão otimista. Quando Marius e Cosette correm para visitar Valjean – que agora sabem ser o salvador do jovem 'barão' – encontram o velho no leito de morte.

Aqui também se encerra este ensaio – que não pretende tecer comentários sobre as emoções finais deste colossal Romance francês denso e enciclopédico chamado “Os Miseráveis”, obra hercúlea do Autor Victor Hugo, ao ousar registrar sua época para a posteridade. (3)

Jul/10
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por Leonardo de Magalhaens
http://leoleituraescrita.blogspot.com/
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Notas

(1)“O romantismo político manifesta-se muitas vezes com tendências sociais contraditórias, sendo, portanto, impossível determinar-se qual a ligação direta do socialismo da época com todas as direções que o Romantismo tomou em termos políticos. Podemos até diferenciar entre o romantismo político alemão, nitidamente conservador, e o italiano, em sua maioria liberal, o inglês apresentando as duas tendências em vários de seus representantes, como poderíamos exemplificar em Byron e Coleridge.

Na França, várias foram as fases do romantismo político, não se encontrando nenhuma linha uniforme que permita fazer uma caracterização precisa. Se, de um lado, o saudosismo sentimental para com a antiga França impera nos primeiros românticos, já em Chateaubriand e Lamartine se visualiza uma concepção inteiramente monárquica. Na Revolução de 1830 contra a monarquia dos Bourbons, os revolucionários parecem ao mesmo tempo querer derrubar o romantismo difundido nos meios intelectuais franceses. Mais tarde, com Victor Hugo, que se identifica com as ideias de progresso, fraternidade e democracia do povo, deparemos com uma nova tendência do romantismo político.” (FALBEL, Nachman, in: GUINSBURG, J. “O Romantismo”, SP, Ed. Perspectiva, 2002. 4a ed. p. 36)


(2)Exemplos semelhantes temos no romance “Eugene Grandet”, de Balzac, ou em “Orgulho e Preconceito” (Pride and Prejudice) da inglesa Jane Austen, ou, no Brasil, “Senhora”, de José de Alencar.

(3)Interessante a apreciação do crítico norte-americano Harold Bloom, em seu Gênios (trad. J. R. O'Shea, 2003), na p. 471, “Victor Hugo talvez tenha sido o último dos autores universais, na linha de Cervantes, Shakespeare e Dickens. Não encontro similar no século XX, e duvido que surja algum no século XXI. Les Misérables, para nós um musical, foi lido por toda pessoa alfabetizada, quando lançado na França (1862). aos 71 anos, pergunto-me o que não será transformado em musical. Ainda veremos um Hamlet: o Musical , ou ainda melhor, Rei Lear: um Espetáculo Musical? Na verdade, Victor Hugo adoraria o musical feito a partir da sua obra de vez que pretendia tocar o número mais elevado possível de seres humanos (especialmente as mulheres).” e na p. 479, “O gênio de Victor Hugo, conforme Les Misérables demonstra tão bem, é estranhamente, tão gentil quanto tempestuoso. Tal afirmação parece improvável, mas Victor Hugo foi sempre improvável.”
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sexta-feira, 30 de julho de 2010

Os Miseráveis - Parte 4 (2/2)




Sobre Os Miseráveis (Les Misérables, 1862)
do escritor francês Victor Hugo (1802-1885)

As Obras Clássicas (ensaio 3)

O Romance Burguês enquanto Epopeia moderna


Parte IV – O Idílio da Rua Plumet e a Epopeia da Rua Saint-Denis
(2/2)

Livro VI – O pequeno Gavroche

O menino das ruas que fala em dialeto coloquial dos marginais (um dialeto devidamente 'traduzido' pelo Narrador ) como escrevemos na introdução desta série de ensaios, aqui Gavroche é o “Oliver Twist”, é o “capitão da areia”, o arquétipo do menino marginal.

Gavroche é também outra vítima da decadência dos decadentes Thénardier. A velha Thénardier que cuida das filhas e despreza os filhos. E Gavroche é um destes filhos, que acaba por ir viver nas ruas, junto aos marginais.

Temos aqui cenas parisienses vista na perspectiva de um menino pobre e muito esperto (ou o Narrador o faz ser esperto...). É possível encontrar as mesmas figuras dos poemas de Baudelaire e dos romances de Balzac. Até porque o Narrador não hesita em diluir aqui nessa narrativa as várias leituras do Autor – temos (só no início da Parte IV) referências à Dante, João Evangelista (do Apocalipse), Machiavel, La Fontaine, Racine, Shakespeare, Goethe, Walter Scott, etc!

Destaque para os diálogos breves, diretos e cubistas. Várias personas, vários ângulos para captar o ir e vir da fauna urbana. É um capítulo difícil de ler – requer um estudo da época retratada – para entender, p.ex., “Ulisses” o leitor é obrigado a estudar a Dublin do fim do século 19 e do início do século 20. Assim, “Os Miseráveis” requer um conhecimento sobre a Paris da época pós-Revolução.

O Autor tenta recriar (em 1860) uma época (de 30 anos antes) através de um Narrador onisciente, enciclopédico, detalhista, digressivo. Dedica muito tempo e espaço a florear a moldura do quadro – a ponto de desfocar a pintura, a cena retratada. Há um verdadeiro histórico dos monumentos parisienses, a moda da época, tudo retratado em 'fotos literárias'.

Vemos um menino que mora dentro de um monumento público em forma de elefante (!), um monumento da época napoleônica, de causar sensação, “uma criança surpreendida escondida dentro do elefante da Bastilha” (p. 1007), afinal, para quê há de servir um tal excêntrico monumento? Pelo menos pode dar abrigo a um menino das ruas. “Esse monumento desmensurado que contera um pensamento de imperador tornara-se morada de um vadio” (“Ce monument démesuré qui avait contenu une pensée de l'empereur était devenu la boîte d'un gamin.” II, p. 1009). Há uma ironia, uma 'desconstrução' do 'monumento público', do 'bem público', a forma como a miséria de apropria dos 'espaços públicos'. A pompa e elegância vazia da cidade que ignora a sua multidão de pobres e miseráveis.

Os miseráveis que se tornam bandidos, de batedores de carteiras até assassinos em série. Vemos estes bandidos em fuga, na noite escura, lá os vultos de Thénardier, Brujon, Babet, Gueulemer. A fuga de Thénardier que terá importante função no ápice da narrativa da rebelião. É também interessante o registro das gírias e coloquialismos, aqui 'devidamente traduzidos'.

Tanto que o Livro IV é todo dedicado às gírias (L'argot), numa longa digressão sobre bases etimológicas, semânticas e sociais. O Narrador problematiza: em história tão grave e séria pode-se introduzir a gíria de ladrões? Sim! E justifica: por que o horror de dedicar-se a tal estudo? “O pensador que se desvia da gíria se assemelharia a um cirurgião que se desvia de uma úlcera ou de uma verruga. Seria um filólogo hesitando em examinar um fato da língua, um filósofo hesitando em pesquisar um fato da humanidade.” ( “Le penseur qui se détournerait de l'argot ressemblerait à un chirurgien qui se détournerait d'un ulcère ou d'une verrue. Ce serait un philologue hésitant à examiner un fait de la langue, un philosophe hésitant à scruter un fait de l'humanité.” I, pp. 1036-37)

A digressão do Autor se aproxima do decadentismo: o belo ao lado do feio, o escuro ao lado do claro; o escritor, o artista não deve ignorar o horrendo, e preferir o formoso. (Assim entendemos Victor Hugo, o autor de “Notre Dame du Paris” onde o protagonista é o disforme corcunda Quasímodo.) E ele diz mais: “a gíria não é nada mais que um vestiário onde a língua, tendo alguma má ação a fazer, ser disfarça. Ela se reveste ali de frases-máscaras e metáforas-farrapos. Às vezes, torna-se horrível.” (“L'argot n'est autre chose qu'un vestiaire où la langue, ayant quelque mauvaise action à faire, se déguise. Elle s'y revêt de mots masques et de métaphores haillons. / de la sorte elle devient horrible.” p. 1041)

Pois o Estudo, a Literatura deve ter um objetivo: fazer a luz superar as trevas: “A verdadeira divisão humana é esta: os luminosos e os tenebrosos. // diminuir o número de tenebrosos, aumentar o número de luminosos, eis o objetivo. Eis porque clamamos: educação! ciência! Aprender a ler, é acender o fogo; toda sílaba soletrada é faísca.” (“La vraie division humaine est celle-ci: les lumineux et les ténébreux. // Diminuer le nombre des ténébreux, augmenter le nombre des lumineux, voilà le but. C'est pourquoi nous crions: enseignement! science! Apprendre à lire, c'est allumer du feu; toute syllabe épellé étincelle.” p. 1042)

Segue-se uma longa digressão – interessante aos eruditos em linguística francesa. É para eles que o Narrador exercita o seu papel de pedagogo. A Literatura enquanto 'ensinamento' para iluminar as trevas da ignorância. Assim o Autor Victor Hugo cria sua imagem de “Iluminista”.

As relações entre linguagem e classe social (as raízes da Sociolinguística?) A importância da educação para iluminar os revolucionários. A Revolução de pobres armados que tanto traz o bem quanto o mal. Assim foram (e são!) as revoltas camponesas (as 'jacqueries') dos séculos 16 e 18, e as que ocorrem depois na América Latina. E então? Diante do 'perigo social', o dever do burguês é 'vigiar e esperar', pois, afinal de contas, a sucessão de 'grandes civilizações' a desaparecerem uma após a outra: a História em movimento. Os benefícios e malefícios da civilização moderna (“nossa civilização, obra de vinte séculos”) entre a monstruosidade e o prodígio.

Livro VIII

Após a digressão erudita-semiótica, voltamos a narrativa propriamente dita. Voltemos ao amor romântico (e romantizado) de Marius e Cosette, que certamente inspirou muitos dos prosadores românticos brasileiros (Alencar, e o primeiro Machado). Enquanto fora do jardim, onde se abrigam os amantes, as forças revolucionárias se erguem para o confronto contra o 'rei-cidadão', no plano individual o drama é a pobreza de Marius e a vida burguesa de Cosette.

Os amantes acreditam que 'o amor os conduz', que o amor leva à perfeição, mas faz esquecer o lado perverso. Os jovens em seu idílico jardim ignoram as 'forças sociais' – logo as barricadas se erguerão entre eles. Marius fala de política; Cosette fala sobre adornos. Enquanto isso, Éponine impede que os bandidos (entre eles, o próprio pai Thénardier) roubem a casa de Cosette...

Com a revolta, Valjean acha oportuno deixar Paris, e fazer uma excursão à Inglaterra. Marius, atordoado, precisa tomar uma decisão. Ir para a Inglaterra? Como, se ele vive na pobreza? Marius decide procurar o avô Gillenormand, após 5 anos do desentendimento entre eles. Decide se casar, e para isso ele precisa da aprovação do avô. Mas é impossível. O avô conservador não aceita a rebeldia do neto – que vive na pobreza – o neto que pede perdão – mas o avô mostra firmeza – não aceita o casamento com a tal 'Mademoiselle Fauchelevent'. Humilhado, e vendo humilhada a sua 'noiva', Marius afasta-se do avô, que então percebe que a separação agora é definitiva – não há mais perdão.

Livro IX

Erguem-se as barricadas. Enterro do general Lamarque. Valjean vê um aviso em seu quintal – escrito por Éponine, sabemos – dizendo 'Mude-se' ('Déménagez') Marius arrasado após o fracasso diante do avô. Numa esquina, ele ouve uma voz, 'seus amigos o esperam na barricada!' Pois as barricadas esperam os heróis e os desesperados. A decadência do Sr. Mabeuf – quem poderá ajudá-lo?

“A miséria de uma criança interessa à uma mãe, a miséria de um homem jovem interessa à uma moça, a miséria de um velho interessa a ninguém.” (“La misère d'un enfant intéresse une mère, la misère d'un jeune homme intéresse une jeune fille, la misére d'un vieillard n'intéresse personne.” III, p. 1109)

Em miséria, o Sr. Mabeuf passa a vender os seus livros raros – é a ruína de um pequeno-burguês. É justamente quando começam os motins de 5 de junho de 1832, narrados no livro X.

Mais digressões sobre as revoltas, as tormentas sociais, num eco das considerações do capítulo III do Livro VII. As desordens dos motins correspondem às desordens da vida social, com privilegiados e excluídos, com milionários e miseráveis. Para outros as revoltas apenas reforçam o 'sistema', ao unir os burgueses na defesa de seus interesses.

Por viver num época de instabilidade política – a França do século 19 – o Narrador faz ecoar a fala do Autor, que inclusive exilou-se numa das muitas reviravoltas de governos e desgovernos.
É justa a revolta? Pode ser democrática, ou levar à democracia? Mas sem revolta nada mais existiria que inércia social, pois as elites se perpetuariam no poder – ou lutariam entre si. Motins, revoltas, insurreições, revoluções: um tratado enciclopédico sobre as variações de 'resistência'. Despotismos, tirania, bonapartismo, golpes de estado, quarteladas, rodízio de elites, nada que as ciências sociais do século 20 já não tenham catalogado e conceituado.

Mas para a época, o tratado de Victor Hugo se justifica pela antecedência diante da 'profissionalização' do chamado cientista social (ou sociólogo). Afinal, o que determina a legitimidade de uma 'revolução'? O progresso? O acesso das 'massas' ao poder político? A mudança de governos corruptos? Para o Narrador, a revolta de 1832 continua o processo de 1830 (e, podemos dizer mais, tem seu ápice em 1848) Depois da digressão historiográfica, o Narrador volta à narrativa (o 'récit')

Estopim: a morte do general Lamarque. Um enterro: ocasião de renascer. As jornadas de 5 e 6 de junho de 1832. as forças governamentais de prontidão nas principais ruas de Paris. Enquanto o cortejo fúnebre congrega militares, estudantes, refugiados, todos de aspiração republicana num regime de monarquia liberal.

A hostilidade entre os 'dragões' da guarda e os simpatizantes republicanos. Aproxima-se o momento de confronto. O exército atira contra a multidão, que se dispersa. Mas recua apenas para ir buscar as armas – 'aux armes!'. Erguem-se as barricadas.

Aqui a descrição se assemelha àquela da Batalha de Waterloo, na Parte II, com detalhes geográficos, só possíveis de serem recuperados com a posse de um mapa da Paris anterior a reforma urbana feita pelo prefeito Haussmann, entre 1853 e 1870. o Narrador se explica,

“Tudo isso que narramos aqui lentamente e sucessivamente acontecia de uma vez em todos os pontos da cidade em meio a um vasto tumulto, como uma multidão de clarões num só trovejar.” (“Tout ce que nous racontons ici lentement et sucessivement se faisait à la fois sur tous les points de la ville au milieu d'un vaste tumulte, comme une foule d'éclaires dans un seul roulement de tonnerre.” IV, p. 1130)

A grandiosidade da Narrativa eleva o Romance Os Miseráveis a categoria de épico moderno. A enumeração de personagens – anônimos em anonimato de multidão – as referências às ruas e locais se assemelham a uma descrição de batalha medieval – agora travada dentro de uma metrópole.

“A insurreição tinha feito do centro de Paris uma espécie de cidadela inextricável, tortuosa, colossal.
Lá estava a fornalha, lá estava evidentemente a questão. Todo o resto não passava de escaramuças. O que provava que tudo se decidiria lá, é que ainda não se combatia lá.”
(“L'insurrections'était fait du centre de Paris une sorte de citadelle inextricable, tortueuse, colossale. // Là était le foyer, Là était évidemment la question. Tout le reste n'était qu'escarmouches. Ce qui prouvait que tout se déciderait là, c'est qu'on ne s'y battait pas encore.” p. 1132)

A posterior reforma urbana de Paris objetivava justamente impedir a possibilidade de focos de resistência – as barricadas – durante as revoltas da população.

Livro XI

As personagens se reintegram à narrativa. Gavroche canta ou recita, enquanto eleva sua arma. O menino marcha junto aos republicanos – uma nova Marseillaise entoada meio aos combates. Figuras do povo desfilam com suas reivindicações e misérias. (O povo alcançará realmente o poder?)

Os amigos do ABC – Enjolras, Courfeyrac, Combeferre, Feuilly, Bahorel, Jean Prouvaire – seguem o apelo 'aux armes!' e também 'aux barricades!', e recebem o 'reforço' de um velho. O desesperado Sr. Mabeuf, indiferentes às balas de fuzil, às balas de canhão, atordoado, integra a defesa da barricada.

O pequeno Gavroche marcha cantando – seguem para as barricadas da rue Saint-Denis.

Livro XII

Corinthe é o nome de um cabaré, na rue de la Chanvrerie. Local estratégico para os revoltosos. O Narrador tem consciência de seu estilo de narrar fatos históricos, dramas sociais, “Que se nos permita recorrer, para a clareza da narrativa, ao método simples já usado por nós sobre Waterloo” (“Qu'on nous permette de recourir, pour la clarté du récit, au moyen simple déjà employé par nous pour Waterloo”. I, p. 1152) e descreve o 'espaço geográfico' do campo de batalha urbano.

Outras personagens reaparecem: Grantaire, Laigle, Joly... Os diálogos longos e densos servem igualmente para situar o Leitor no contexto político das 'forças sociais' em confronto. (Recurso usado por Dostoiévski, em “Os Possessos” e “Os Irmãos Karamázovi”; por Hemingway, em “Por quem os sinos dobram”; por Simone de Beauvoir em “Os Mandarins”; por B. Pasternak em “Doutor Jivago”)

Fala de Grantaire, o cético, “Isso que chamais o progresso marcha por dois motores, os homens e os acontecimentos. Mas, coisa triste, de tempos em tempos, o excepcional é necessário. Para os acontecimentos como para os homens, a turba ordinária não é suficiente; é preciso entre os homens os gênios, e entre os acontecimentos as revoluções.” (“Ce que vous autres appelez le progrès marche par deux moteurs, les hommes et les évènements. Mais, chose triste, de temps en temps, l'exceptionnel est nécessaire. Pour les évènements comme pour les hommes, la troupe ordinaire ne suffit pas; il faut parmi les hommes des génies, et parmi les évènements des révolutions.” II, p. 1161)

Para os revolucionários, Marius é um moço que trocou a luta social pelo amor de uma senhorita, ou que Marius é um da 'raça dos poetas' – isto é, não são práticos, ao contrário, vivem de sonhos.
Mesmo dizendo-se cético, Grantaire 'crê' na liderança de Enjolras, e assim une-se ao grupo nas barricadas. Lá estão Combeferre e Courfeyrac dirigindo os esforços. Claro, lá está o animado Gavroche.

O Romance tem algo de realismo e de epopeia, não hesita em recursos, de tragicomédia, e até fantasia. Tudo parece, às vezes, superdimensionado e até caricatural. (O mesmo efeito em muitas páginas de Tolstoy e Dostoiévski – enquanto é proposital e estilístico em Gógol, Turgueniev e Tchecov, para ficar só entre os russos...)

Acompanhamos os preparativos da barricada na rue de la Chanvrerie, na noite de 5 de junho. Um tipo adentra o 'teatro de operações' dos revoltosos. O mesmo homem que observava atentamente os 'amigos do ABC', em outras ocasiões. Surpreendido, o espião diz chamar-se Javert, e ser mesmo agente da lei. É prontamente desarmado e amarrado.

Pronto. Aqui as personagens vão se reunindo. Ainda faltam três – Marius, Cosette e Valjean – e os coadjuvantes Thénardier.

“O quadro trágico que iniciamos não seria completo, o leitor não veria no seu relevo exato e real esses grandes minutos de gênese (parto) social e nascimento revolucionário onde há a convulsão mesclada ao esforço, se nós omitíssemos, no esboço disposto aqui, um incidente pleno de horror épico e bravio que sobreveio quase de imediato à saída de Gravroche.” (“La peinture tragique que nous avons entreprise ne serait pas compète, le lecteur ne verrait pas dans leur relief exact et réel ces grandes minutes de gésine sociale et d'enfantement révolutionnaire où il y a de la convulsion mêlée à l'effort, si nous omettions, dans l'esquisse ébauchée ici, un incident plein d'une horreur épique et farouche qui survint presque aussitôt après le départ de Gavroche.” VIII, p. 1184)

Segue-se uma cena de excessos revolucionários, e a pronta justiça do líder revolucionário. É preciso autoridade. O homem que comete um assassinato gratuito, covarde, junto aos revolucionários, é nada mais que um bandido que se aproveita da desordem. Mas Enjolras 'encarna' a disciplina,

“Este homem foi morto, porque matou” e “sobre nós está o olhar da revolução, nós somos os pais fundadores da república, nós somos as hostes do dever, e é preciso não caluniar nossa luta.” (“nous sommes sous le regard de la révolution, nous sommes les prêtres de la république, nous sommes les hosties du devoir, et il ne faut pas qu'on puisse calomnier notre combat.” p. 1187)

Enjolras executa o criminoso em nome da República, em nome da 'fraternidade', da 'lei do progresso'. Assim, é um tanto contraditório. Humanista? Mas se o 'progresso' está acima da vida humana?

Livros XIII a XV

Eis o cenário: da rua Plumet ao quartier Saint-Denis. É onde Marius tenta digerir sua desesperança, sua perda da amada Cosette. Afinal, como ele poderá casar? Suas reflexões são íntimas, românticas e épicas. Marius avança para a morte?

“Marius queria com a vontade do homem que não espera mais. Tivesse sido chamado, precisaria seguir. Ele encontra o meio de atravessar a multidão e de atravessar o bivaque das tropas, ele se oculta das patrulhas, ele evita as sentinelas.” (“Marius voulait avec la volonté de l'homme qui n'espère plus. On l'avait appelé, il fallait qu'il allât. Il trouva le moyen de traverser la foule et de traverser le bivouac des troupes, il se déroba aux patrouilles, il évita les sentinelles.” I, p. 1191)

O ataque das tropas à barricada da rue de la Chanvrerie, onde alta se ergue a flâmula da república e da fraternidade, sob os golpes das tropas governistas – golpe após golpe se abate sobre a barricada. Lá onde um velho toma. É o Sr. Mabeuf, o ex-tesoureiro da igreja, o ex-livreiro. Mas os demais jovens resistem. E para lá que segue o Marius, a unir-se aos amigos do ABC. Depois de ouvir aquele aviso (no Livro 9, II) - “seus amigos o esperam na barricada da rue de la Chanvrerie”. Logo ao chegar, Marius enfrenta o avanço da tropa, e consegue fazer as tropas recuarem ao ameaçar explodir um barril de pólvora.

Sabemos de que lado o Narrador (e o Autor) está: sua historiografia é parcial. Ele pouco descreve as tropas, e enquanto adentra os pensamentos e sentimentos dos amigos do ABC, que tombam diante da repressão. Marius presencia a morte de Éponine (na barricada, ela se vestia de homem) que é ferida ao interpor-se entre um fuzil e o alvo, o próprio Marius. Ela se sacrifica por ele. Ela que sempre amou o estudante pobre. A mesma Éponine que o ajudou a reencontrar o jardim idílico de Cosette. Aliás, a moça agonizante traz uma carta de Cosette, a avisar sobre a mudança para a Inglaterra.

A mudança de Valjean e Cosette foi precipitada pelo aviso “Déménagez” (Mude-se) escrito por Éponine e lido por Valjean. Cosette escreve uma carta para avisar Marius, e entrega a um rapaz na rua. O 'rapaz' era justamente Éponine, que não foi ao correio... Marius escreve uma carta, a declarar que é impossível o casamento com a Srta. Cosette. O avô tem recusado, e ele, Marius, não tem dinheiro. Assina a carta. Escreve seu nome e família em outro papel. Sabe que sua morte é certa. Em seguida, Gavroche é encarregado de entregar o bilhete à Cosette. Mas, o menino encontra Valjean, que já sabe do 'affair' da filha adotiva. Valjean que sente verdadeiro ciúme ao temer que a moça, ao casar, possa se afastar. É compreensível: ele dedica todo o seu afeto à filha adotiva. Valjean agora precisa decidir: permitir a morte do rapaz ou tentar salvá-lo?
É o drama para a próxima Parte (V – Jean Valjean).

jun/jul/10

por Leonardo de Magalhaens
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sábado, 24 de julho de 2010

Os Miseráveis / Les Misérables - Parte 4 (1/2)




Sobre Os Miseráveis (Les Misérables, 1862)
do escritor francês Victor Hugo (1802-1885)

As Obras Clássicas (ensaio 3)


O Romance Burguês enquanto Epopeia moderna


Parte IV – O Idílio da Rua Plumet e a Epopeia da Rua Saint-Denis
(1/2)

Sabemos que a época da narrativa, nesta Parte, está concentrada no contexto histórico de 1830 a 1832. Considerando que o pai de Marius faleceu em 1827, então completam-se cinco anos que o jovem está fora da influência burguesa do avô conservador. Cinco anos de aprendizagem do jovem Marius.

O segundo protagonista (digamos assim, mantendo Valjean na primeira posição) enfrentou a miséria e a solidão, tentou fazer amigos, conheceu a paixão súbita e fremente, agora novamente é conduzido pelo 'coletivo', os processos históricos que se sobrepõem aos 'desejos individuais'. Ainda mais se considerarmos que, sociologicamente falando, o 'indivíduo' é um 'construto social', é fruto de uma processo histórico.

A França sofre turbulências políticas e sociais desde a Queda da Bastilha em julho de 1789, que inaugurou as idas e vindas da Revolução Francesa, ora radical ora moderada, ora social, ora política, a se transmutar no Império Napoleônico, até 1814, que derrotado, em 1815, em seu governo dos Cem Dias, na épica Batalha de Waterloo, abriu espaço para a Restauração monarquista, a dominar até a insurreição das lideranças liberais, em três dias 'gloriosos' de julho de 1830, quando coroaram um 'rei-cidadão', Louis Philippe I, depois da fuga do rei Charles X. (Ao consultar a enciclopédia histórica saberemos que tal governo, fruto da 'revolução liberal' prosseguiu até 1848, quando eclodiu a 'revolução democrática'.)

As personagens outrora descritas e apresentadas agora são chamadas a compor um amplo cenário onde se evidenciam e se confundem as tonalidades do 'espectro político' francês da referida época. É um grande painel que se apresenta, nas conflagrações entre orleanistas e republicanos, monarquistas e bonapartistas. Afinal, trata-se de um romance histórico, sabemos. Cuja escrita iniciada em 1845, somente foi concluída em 1860, em seguida ao período de exílio do Autor.

Politicamente, a proclamação de uma Carta (constituição) não afastou as características 'absolutistas' do regime monárquico. Assim, tratava de um regime que não agradava nem a monarquistas nem a liberais, muito menos a bonapartistas e republicanos. Um regime de aparências que em nada atendia aos anseios democráticos, e muito menos a vida decente dos cidadãos. Afinal, um romance como Os Miseráveis exibe justamente isso: as feridas de um regime elitista, que oferta a miséria a um povo que tanto se esfoçou em revoltas e revoluções.

Aqui, as personagens serão chamadas a tomar parte, ao engajamento da luta política, da luta física, nas barricadas, a enfrentar os exércitos ditos 'legalistas', sob ordens dos monarquistas. Daí a revolta ser batizada de 'insurreição republicana de junho de 1832' nos livros de História – realmente escrita pelos vencedores. Não apenas os republicanos estavam descontentes, mas apenas os jovens de leituras políticas se mobilizaram, e acabaram liderando e morrendo primeiro, sem apoio popular – aqueles 'humilhados e ofendidos' que eles desejavam 'libertar'.

Não basta um liberalismo nas entranhas da monarquia – como reconhecemos na Inglaterra – aqui o anseio é por uma verdadeira República, um governo popular, não de uma nobreza ambiciosa e/ou indiferente. Aqui as próprias vivências políticas do Autor estão diluídas nas descrições e argumentações do Narrador, a polemizar a queda da Restauração (e seu absolutismo mascarado) em julho de 1830, e o progresso social e político nas novas revoluções, tais como esta de 1832. Somente ter um 'rei-cidadão' não é garantia de um governo dos cidadãos e para os cidadãos.

“A restauração tomba.
Ela tomba justamente. Entretanto, dizem, ela não tinha sido absolutamente hostil a todas as formas de progresso. Das grandes coisas feitas, ela estava por perto.
Sob a restauração a nação tinha se habituado à discussão na calma, que tinha faltado à república, e à grandeza na paz, que tinha faltado ao império.”

(“La restauration tomba.
Elle tomba justement. Cependant, disons-le, elle n'avait pas été absolument hostile à toutes les formes du progrés. De grandes choses s'étaient faites, elle étant à cotê
.” I, p. 857)

ou

“A revolução de Julho [de 1830] é o triunfo do direito a derrubar o fato. Coisa deveras esplendorosa.

O direito a derrubar o fato. Desde então o brilho da revolução de 1830, desde então sua indulgência. O direito que triunfa não precisa ser violento.”

(“La révolution de juillet est le triomphe du droit terrassant le fait. Chose pleine de splendeur.

Le droit terrassant le fait. De Lá l'éclat de la révolution de 1830, de Là sa mansuétude aussi. Le droit qui triomphe n'a nul besoin d'être violent
.” I, p. 859)

O Narrador compara os processos 'revolucionários' na França e na Inglaterra, com suas violências e reviravoltas. O quanto a 'teoria' se distancia da prática. A revolução de “1830 pratica esta teoria, já aplicada a Inglaterra em 1688. 1830 é uma revolução parada no meio do caminho. Progresso pela metade; quase direito. Ou a lógica quase a ignora; absolutamente como o sol ignora a vela. Quem para as revoluções no meio do caminho? A Burguesia. (“ 1830 pratiqua cette théorie, déjá appliqué à l'Angleterre par 1688. / 1830 est une révolution arrêtée à mi-cotê. Moitié de progrès; quasi-droit. Or la logique ignore l'à peu près; absolutement comme le soleil ignore la chandelle. / Qui arrête les révolutions à mi-cotê? La bourgeoisie.” II, p. 862)

O Narrador não chega a uma teoria sobre revoluções e contra-revoluções, como ousou Karl Marx em “18 de Brumário de Luís Bonaparte”, de 1852, onde diz, no capítulo I,

As revoluções burguesas, como as do século XVIII, avançam rapidamente de sucesso em sucesso; seus efeitos dramáticos excedem uns aos outros; os homens e as coisas se destacam como gemas fulgurantes; o êxtase é o estado permanente da sociedade; mas estas revoluções têm vida curta; logo atingem o auge, e uma longa modorra se apodera da sociedade antes que esta tenha aprendido a assimilar serenamente os resultados de seu período de lutas e embates. Por outro lado, as revoluções proletárias, como as do século XIX, se criticam constantemente a si próprias, interrompem continuamente seu curso, voltam ao que parecia resolvido para recomeçá-lo outra vez, escarnecem com impiedosa consciência as deficiências, fraquezas e misérias de seus primeiros esforços, parecem derrubar seu adversário apenas para que este possa retirar da terra novas forças e erguer-se novamente, agigantado, diante delas, recuam constantemente ante a magnitude infinita de seus próprios objetivos até que se cria uma situação que toma impossível qualquer retrocesso e na qual as próprias condições gritam: Hic Rhodus, hic salta! Aqui está Rodes, salta aqui!


Em Marius já encontramos uma contradição: seu ideal de revolução, que o aproxima dos jovens republicanos (os amigos do ABC) e ao mesmo tempo sua admiração pelo 'grande homem' Napoleão, que aspirava ambições imperiais.

No campo dos revoltosos estão também os socialistas, aqui um título genérico usado pelo Narrador. A problemática aqui é a da produção e da distribuição da riqueza. Cita o exemplo da próspera Inglaterra, que produziu a riqueza, mas não a dividiu. A prosperidade passa pela divisão comum?

“O comunismo e a lei agrária creram resolver o segundo problema [repartir a riqueza]. Eles se enganam. A repartição dela mata a produção. A partilha igual aboli a competição. E, por consequência, o trabalho. É uma repartição feita pelo açougueiro que mata isso que ele reparte. É assim impossível se deter a essas pretendidas soluções. Matar a riqueza, isso não é reparti-la.” ("Le communisme et la loi agraire croient résoudre le deuxième problème. Ils se trompent. Leur répartition tue la production. Le partage égal abolit l'émulation. Et par conséquent le travail. C'est une répartition faite par le boucher, qui tue ce qu'il partage. Il est donc impossible de s'arrêter à ces prétendues solutions. Tuer la richesse, ce n'est pas la répartir." IV, pp. 875/76)

Para o Narrador, sempre preocupado com questões políticas, os dois problemas – produzir e repartir – são um só a ser resolvido ao mesmo tempo , para garantir a prosperidade da nação. Certamente trata-se de um receituário liberal. É o Liberalismo que é defendido.


“Democratizar a propriedade, não a abolir, mas a universalizar, de modo que todo cidadão, sem exceção, seja proprietário, coisa mais fácil do que se acredita, em duas palavras, saber produzir a riqueza e saber reparti-la; e tereis em conjunto a grandeza material e a grandeza moral; e sereis dignos de vos chamar a França.” (“démocratisez la propriété, non en l'abolissant, mais em l'universalisant, de façon que tout citoyen sans exception soit propriétaire, chose plus facile qu'on ne croit, en deux mots sachez produire la richesse et sachez la répartir; et vous aurez tout ensemble la grandeur matérielle et la grandeur morale; et vous serez dignes de vous appeler la France.” pp. 876/77)


Em favor do Narrador, pode-se citar alguns países onde tal política foi bem sucedida. Seria o caso dos Estados Unidos, Canadá, Suiça, países prósperos, mas não igualitários. Ainda há miséria e pobreza, pois há uma elite de mais prósperos que outros. A propriedade não foi exatamente universalizada...

O argumento do Autor é que as revoltas não levam a uma prosperidade, mas a um caos social. Descreve um painel de conspirações, armamentos clandestinos, figuras que financiam os revoltosos, em articulações de grupos revolucionários, incluindo operários, estudantes, desesperados. Afinal, trata-se de uma época de ação e reação, falta dizer, época de 'luta de classes' (como diria K Marx),

“Aqui os termos postos: ação e reação, revolução ou contra-revolução. Pois, em nossa época, não se crê mais na inércia nem na imobilidade. Pelo povo ou contra o povo, eis a questão. Não há outra.” (“...Voici les termes posés: action ou réaction, révolution ou contre-révolution. Car, à notre époque, on ne croit plus à l'inertie ni à l'immobilité. Pour le peuple ou contre le peuple, c'est la question. Il n'y en a pas d'autre.” V, p. 881)

Uma época de polarizações políticas, onde o cidadão está contra ou a favor do poder popular, contra ou a favor da propriedade. Época em que os movimentos socialistas e anarquistas se articulam e se dividem, criando o painel político que presenciamos no século 20.

Enquanto isso, a polícia anda a 'colher' informes e delações, enquanto em espaços públicos manifestações em prol ou contra uma ou outra facção. “Quem nos governa?”, diz um pobre a outro, “É o Sr. Philippe”, “Não, é a burguesia.” (“--Qui nous gouverne? --C'est monsieur Philippe.--Non, c'est la bourgeoisie.” p. 882)

É a consciência manifesta de que 'há alguém movendo os fantoches'. Quem são eles? Onde estão os 'chefes' de cada lado? Reina uma confusão numa época de sociedades secretas (parisienses, mas com ramificações na províncias), partidos políticos, onde uns lutam por igualdade (os trabalhistas, os socialistas), lutam por liberdade (os liberais), lutam pela monarquia, lutam pela república...

Em Paris reina o caos de correntes revolucionárias,meio ao contrabando de armamentos e munições, meio aos lemas e palavras de ordem, “pão para todos, ideia para todos, a edenização do mundo, o progresso...” Segundo o Narrador, nunca imparcial, os direitos são proclamados com fúria, desejam forçar o ser humano rumo ao paraíso, sim, falam em progresso mas agem como selvagens...

Após suas digressões, o Narrador desenvolve a narrativa, dispondo em cena os amigos do ABC, Enjolras e seus tenentes nos fundos do café Musain, além de contatos com outros grupo revolucionários, as atuações individuais nas ações coletivas.

Livro II - Éponine

Mas nem todos os estudantes estão engajados na revolta. O jovem Marius só tem atenção para os próprios ardores da sensibilidade amorosa. Meio ao tumulto, Marius espera reencontrar a pista da 'Srta. Lenoire'. Tendo se mudado da masure Gorbeau, para evitar os 'pobres maldoso' e precisar testemunhar contra o Thénardier (o tal que salvara o oficial, pai do jovem), Marius reaproxima-se de Courfeyrac, um dos amigos do ABC. Marius se endivida para enviar uma 'ajuda periódica' ao Thénardier.

O jovem tem esperanças de rever a bela mademoiselle, aquela cujo apelido é 'Cotovia' (L'Alouette), justamente, como sabemos, o apelido de Cosette. Aqui, o efeito é de contraponto: o sentimentalismo versus as lutas políticas. Para agradar gregos e troianos, ou seja, os intelectuais e as leitoras. Mas se o Narrador consegue até 'convencer' no tema Política, sempre soa sentimentalista e 'floreado' no tema Paixão.

A polícia deve agir. Assim pensa Javert, em investigações para descobrir quem era o estranho refém dos Jondrette (Thénardier) e quem era o jovem pobre 'quase-advogado'. Afinal, a família Jondrette (Thénardier) agora se envolve com bandidos perigosos, enquanto as moças Éponine e Azelma são aliciadas para o 'submundo'. Muito do detalhismo do Narrador é hoje 'datado', precisa-se de uma enciclopédia da época, ou um anexo com notas e referências. (Assim também para ler “Guerra e Paz”, de Tolstoy, e “Ulisses”, de J. Joyce)

Éponine recebe um certo status de coadjuvante aqui. Ela ajuda o velho Sr. Mabeuf, aquele que vive para os livros raros, a enfrentar a falência da Libraire Royol. A pobre mocinha quer saber onde mora o Sr. Marius, nada mais. Em seguida, ela passa a rondar o campo da Cotovia [Champ de L'Alouette] até reencontrar o jovem estudante. E assim são os encontros e desencontros deste imenso Romance. Enquanto Marius sonha e suspira pela bela 'Srta Lenoire', ele não percebe junto a ele alguém que somente pensa nele: a pobre Éponine. E para agradar ao jovem, a mocinha revela o endereço da Srta. E assim a miserável ajuda a rival... Assim, novamente alguém da família Thénardier (aqui a filha) faz a 'ponte' entre Marius e a bela Srta (que sabemos ser Cosette)

E onde está Cosette? No livro seguinte (III), temos a descrição da casa da rue Plumet, onde Valjean (ou Último Fauchelevent) se abrigou com a moça Cosette, após deixar a rua do Oeste, até onde Marius conseguiu segui-lo. Isso porque 'pai e filha' tem casas em diferentes endereços... Nas descrições, o Narrador mescla poesia e prosa, numa imagética que visa recriar o cenário das personagens – uma característica que encontramos na obra de Emily Brontë, e na de Virginia Woolf.

É de se perguntar porque Valjean deixou o convento de Petit-Picpus. Mas o Narrador esclarece não haver nenhuma aventura desta vez. O fato é que Cosette se faz moça, e ele não queria mantê-la 'enclausurada'. Após cinco anos (justamente o tempo entre a morte do 'barão' Pontmercy e a revolta de 1932, o tempo em que Marius deixou a casa do avô ) Valjean resolve deixar o convento.

Enquanto proprietário e cidadão, o Sr. Fauchelevent (Valjean) é soldado da Guarda Nacional, uma milícia de cidadãos formada na época da Revolução de 1789, contra os exércitos monarquistas. Sabemos também, num âmbito extra-texto, que o Autor também pertencia a Guarda Nacional, uma guarda burguesa para proteger a propriedade burguesa.

Mas o agora 'burguês' Valjean, mesmo rico, despreza o conforto, e prefere a vida modesta; o conforto que fique para a moça Cosette. O idoso Valjean é aquele que procura ser pai e mãe para a órfã, enquanto ele silencia sobre o passado da mocinha, não lembrando a mãe Fantine. É todo um silêncio a sepultar um passado de misérias.

E chega o dia no qual a mocinha Cosette vai se perceber bonita. Então a flor se torna uma conquistadora (“a rosa se apercebe que é uma máquina de guerra'”) pois há de aprender a 'coqueterie' e o amor. A beleza recente de Cosette pode atrair 'pretendentes' – que podem disputar o monopólio do amor que a moça dedica ao pai. Pois bem, foi nessa época que Marius percebeu a beleza de Cosette, a 'Srta. Lenoire', no Jardim do Luxemburgo.

O Narrador insiste nas analogias entre 'conquista' amorosa', 'sedução', e 'conquista bélica', 'guerra'. Tudo o que acompanhamos pela perspectiva de Marius, na Parte III, agora percebemos pelo ponto de vista de Cosette. O que é a sedução para a moça e a conquista para o jovem? Um jogo de ataque e recuo, sinais ambíguos, olhares reveladores. Ela aprende a ser 'senhorita', futura ' senhora', e ele aprende a ser 'pretendente', futuro 'noivo' e 'marido'.

É um interessante mecanismo, onde um projeta ideais no outro, o desconhecido, e tece idealizações do 'ser amado' e espera correspondência. Se ama mutuamente – e não se declaram. “Era um tipo de adoração a distância, uma contemplação muda, a deificação de um desconhecido.” (“C'était une sorte d'adoration à distance, une contemplation muette, la déification d'un inconnu.” p. 942)

Os sonhos de adolescência – analisados por um Narrador que tem um ponto de vista de adulto, e até senil. É um visível descompasso. Um senhor de idade a rememorar seu passado, sua própria juventude – e a usar uma 3ª pessoa. (A literatura de jovens – para jovens, ou ainda, juvenil – só virá à lume no início do século 20, com autores que voltam a ser jovens na escrita, ou, depois, jovens que passam a escrever, de jovem para jovem...)

É quando Valjean percebe ter um concorrente aos sentimentos de Cosette. A recente vaidade da mocinha não é de todo 'gratuita' – alguma admiração ela procura atrair. Valjean percebe-se ciumento.

Valjean percebe, também, o vulto do jovem; é informado pelo porteiro sobre indagações de um jovem, lá na rua do Oeste; em seguida, fixa o olhar no moço, de modo a intimidá-lo – segundo notamos na Parte III.

Assim, Valjean muda-se para a rua Plumet, e interrompe os passeios no Jardim do Luxemburgo. (Seria apenas ciúmes de Cosette? Ou desconfia de agentes da polícia?)

É então que Valjean percebe o silêncio e a tristeza de Cosette. Resolvem passear no jardim – Marius não está por perto. A moça continua triste. Terá ele desistido de esperar? E a moça a guardar silêncio de tudo.

Cena expressionista: uma 'procissão' de forçado, algemados, conduzidos por 'esbirros', policiais-carcereiros, rumo às galés. Valjeam observa este lúgubre desfile – sugestões de imagens dantescas e apocalípticas. Para afastar a mocinha de pensamento mórbidos, o ancião rompe sua vida modesta ao levar Cosette aos divertimentos parisienses: passeios, teatros, festas – tudo para distrair a silenciosa e triste mocinha.

Livros IV e V

O Narrador continua a narrativa sobre a mesma época já apresentada na Parte III – 1830-32 – mas aqui o ponto de vista é de Valjean e Cosette. Narra aquela fatídica visita aos 'Jondrette', onde o Sr. Fauchelevent, grande benfeitor, é ferido numa cilada. Valjean consegue fugir (para grande lamento de Javert..) e se restabelece com os cuidados da sua 'enfermeira', a sua Cosette.

As cenas da cidade, fatos nas ruas e ruelas de Paris. Um jovem ladrão que recebe um sermão. Quem é o 'bonhomme' vítima de assalto? A falar de prisão, miséria e velhice com um bandido! Quem será o 'bonhomme' (homem de bem)? O leitor, sem dúvida, já adivinhou!

Cosette pensa em Marius; e Marius pensa em Cosette: só o Narrador sabe disso (e nós, os leitores): eis “Romeo and Juliet” versão século 19. São assim as cenas no jardim da casa da rua Babilônia. Noites de lua cheia, alucinações, uma sombra de homem com cartola. Algo de expressionismo e contos de terror, mas com toda a 'ambientação romântica'. Que visitante noturno ousa invadir o jardim desta casa burguesa? A moça encontra um envelope com 'poemas em prosa' sobre o 'sofrer de amor'. Carta que sabemos de quem pode ser... (o estilo lembra os poema de Lamartine e os versos do próprio Autor Victor-Hugo, mas também algo de Rimbaud, vejamos, “Encontrei na rua um jovem pobre que amava. Era velho o seu chapéu, seu casaco era usado; tinha furos nos cotovelos; a água invadia seus sapatos e os astros atravessavam a sua alma” (“J'ai rencontré dans la rue un jeune homme très pauvre qui aimait. Son chapeau était vieux, son habit était usé; il avait les coudes troués; l'eau passait à travers ses souliers et les astres à travers son âme.” IV, p. 132)

A carta – ou coletânea de poèmes en prose – sem assinatura, sem data, sem endereço, atordoa a moça, inexperiente em paixões. Ela bem que imagina quem seja o autor. (A expectativa que se cria depende basicamente do Narrador. Falta a densidade dramática de um “Romeo and Juliet”, então sobra narração...) Mas ao final do Livro o autor da carta se materializa. É mesmo o jovem Marius. O intrépido jovem apaixonado que invade o território da moça virtuosa. Se não 'conhecêssemos' Marius, poderíamos temer pela 'virtude' da mocinha – a ser outra vítima, a repetir a tragédia da mãe (afinal, vimos como Fantine foi seduzida por Tholomyès...)

Se há mesmo a tal 'angústia de influência' (segundo o scholar Harold Bloom), quem influenciou tais páginas românticas de Vistor Hugo? Shakespeare (com seu “Romeo and Juliet”) ou Lord Byron (com seu “Don Juan”)? Ou seria os poemas idílicos de Lamartine e as cenas de paixão velada em “Le Rouge et le Noir”, de Stendhal?

“Eles não sentiam nem a noite fresca, nem a pedra fria, nem a terra úmida, nem a grama molhada, eles se olhavam e nutriam o coração de pensamentos. Tinham unidos as mãos, sem saber.” (“Ils ne sentaient ni la nuit fraîche, ni la pierre froide, ni la tere humide, ni l'herbe mouillé, ils se regardaient et ils avaient le coeur plein de pensées. Ils s'étaient pris les mains, sans savoir.” VI, p. 989)

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continua...


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por Leonardo de Magalhaens

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