sexta-feira, 30 de julho de 2010

Os Miseráveis - Parte 4 (2/2)




Sobre Os Miseráveis (Les Misérables, 1862)
do escritor francês Victor Hugo (1802-1885)

As Obras Clássicas (ensaio 3)

O Romance Burguês enquanto Epopeia moderna


Parte IV – O Idílio da Rua Plumet e a Epopeia da Rua Saint-Denis
(2/2)

Livro VI – O pequeno Gavroche

O menino das ruas que fala em dialeto coloquial dos marginais (um dialeto devidamente 'traduzido' pelo Narrador ) como escrevemos na introdução desta série de ensaios, aqui Gavroche é o “Oliver Twist”, é o “capitão da areia”, o arquétipo do menino marginal.

Gavroche é também outra vítima da decadência dos decadentes Thénardier. A velha Thénardier que cuida das filhas e despreza os filhos. E Gavroche é um destes filhos, que acaba por ir viver nas ruas, junto aos marginais.

Temos aqui cenas parisienses vista na perspectiva de um menino pobre e muito esperto (ou o Narrador o faz ser esperto...). É possível encontrar as mesmas figuras dos poemas de Baudelaire e dos romances de Balzac. Até porque o Narrador não hesita em diluir aqui nessa narrativa as várias leituras do Autor – temos (só no início da Parte IV) referências à Dante, João Evangelista (do Apocalipse), Machiavel, La Fontaine, Racine, Shakespeare, Goethe, Walter Scott, etc!

Destaque para os diálogos breves, diretos e cubistas. Várias personas, vários ângulos para captar o ir e vir da fauna urbana. É um capítulo difícil de ler – requer um estudo da época retratada – para entender, p.ex., “Ulisses” o leitor é obrigado a estudar a Dublin do fim do século 19 e do início do século 20. Assim, “Os Miseráveis” requer um conhecimento sobre a Paris da época pós-Revolução.

O Autor tenta recriar (em 1860) uma época (de 30 anos antes) através de um Narrador onisciente, enciclopédico, detalhista, digressivo. Dedica muito tempo e espaço a florear a moldura do quadro – a ponto de desfocar a pintura, a cena retratada. Há um verdadeiro histórico dos monumentos parisienses, a moda da época, tudo retratado em 'fotos literárias'.

Vemos um menino que mora dentro de um monumento público em forma de elefante (!), um monumento da época napoleônica, de causar sensação, “uma criança surpreendida escondida dentro do elefante da Bastilha” (p. 1007), afinal, para quê há de servir um tal excêntrico monumento? Pelo menos pode dar abrigo a um menino das ruas. “Esse monumento desmensurado que contera um pensamento de imperador tornara-se morada de um vadio” (“Ce monument démesuré qui avait contenu une pensée de l'empereur était devenu la boîte d'un gamin.” II, p. 1009). Há uma ironia, uma 'desconstrução' do 'monumento público', do 'bem público', a forma como a miséria de apropria dos 'espaços públicos'. A pompa e elegância vazia da cidade que ignora a sua multidão de pobres e miseráveis.

Os miseráveis que se tornam bandidos, de batedores de carteiras até assassinos em série. Vemos estes bandidos em fuga, na noite escura, lá os vultos de Thénardier, Brujon, Babet, Gueulemer. A fuga de Thénardier que terá importante função no ápice da narrativa da rebelião. É também interessante o registro das gírias e coloquialismos, aqui 'devidamente traduzidos'.

Tanto que o Livro IV é todo dedicado às gírias (L'argot), numa longa digressão sobre bases etimológicas, semânticas e sociais. O Narrador problematiza: em história tão grave e séria pode-se introduzir a gíria de ladrões? Sim! E justifica: por que o horror de dedicar-se a tal estudo? “O pensador que se desvia da gíria se assemelharia a um cirurgião que se desvia de uma úlcera ou de uma verruga. Seria um filólogo hesitando em examinar um fato da língua, um filósofo hesitando em pesquisar um fato da humanidade.” ( “Le penseur qui se détournerait de l'argot ressemblerait à un chirurgien qui se détournerait d'un ulcère ou d'une verrue. Ce serait un philologue hésitant à examiner un fait de la langue, un philosophe hésitant à scruter un fait de l'humanité.” I, pp. 1036-37)

A digressão do Autor se aproxima do decadentismo: o belo ao lado do feio, o escuro ao lado do claro; o escritor, o artista não deve ignorar o horrendo, e preferir o formoso. (Assim entendemos Victor Hugo, o autor de “Notre Dame du Paris” onde o protagonista é o disforme corcunda Quasímodo.) E ele diz mais: “a gíria não é nada mais que um vestiário onde a língua, tendo alguma má ação a fazer, ser disfarça. Ela se reveste ali de frases-máscaras e metáforas-farrapos. Às vezes, torna-se horrível.” (“L'argot n'est autre chose qu'un vestiaire où la langue, ayant quelque mauvaise action à faire, se déguise. Elle s'y revêt de mots masques et de métaphores haillons. / de la sorte elle devient horrible.” p. 1041)

Pois o Estudo, a Literatura deve ter um objetivo: fazer a luz superar as trevas: “A verdadeira divisão humana é esta: os luminosos e os tenebrosos. // diminuir o número de tenebrosos, aumentar o número de luminosos, eis o objetivo. Eis porque clamamos: educação! ciência! Aprender a ler, é acender o fogo; toda sílaba soletrada é faísca.” (“La vraie division humaine est celle-ci: les lumineux et les ténébreux. // Diminuer le nombre des ténébreux, augmenter le nombre des lumineux, voilà le but. C'est pourquoi nous crions: enseignement! science! Apprendre à lire, c'est allumer du feu; toute syllabe épellé étincelle.” p. 1042)

Segue-se uma longa digressão – interessante aos eruditos em linguística francesa. É para eles que o Narrador exercita o seu papel de pedagogo. A Literatura enquanto 'ensinamento' para iluminar as trevas da ignorância. Assim o Autor Victor Hugo cria sua imagem de “Iluminista”.

As relações entre linguagem e classe social (as raízes da Sociolinguística?) A importância da educação para iluminar os revolucionários. A Revolução de pobres armados que tanto traz o bem quanto o mal. Assim foram (e são!) as revoltas camponesas (as 'jacqueries') dos séculos 16 e 18, e as que ocorrem depois na América Latina. E então? Diante do 'perigo social', o dever do burguês é 'vigiar e esperar', pois, afinal de contas, a sucessão de 'grandes civilizações' a desaparecerem uma após a outra: a História em movimento. Os benefícios e malefícios da civilização moderna (“nossa civilização, obra de vinte séculos”) entre a monstruosidade e o prodígio.

Livro VIII

Após a digressão erudita-semiótica, voltamos a narrativa propriamente dita. Voltemos ao amor romântico (e romantizado) de Marius e Cosette, que certamente inspirou muitos dos prosadores românticos brasileiros (Alencar, e o primeiro Machado). Enquanto fora do jardim, onde se abrigam os amantes, as forças revolucionárias se erguem para o confronto contra o 'rei-cidadão', no plano individual o drama é a pobreza de Marius e a vida burguesa de Cosette.

Os amantes acreditam que 'o amor os conduz', que o amor leva à perfeição, mas faz esquecer o lado perverso. Os jovens em seu idílico jardim ignoram as 'forças sociais' – logo as barricadas se erguerão entre eles. Marius fala de política; Cosette fala sobre adornos. Enquanto isso, Éponine impede que os bandidos (entre eles, o próprio pai Thénardier) roubem a casa de Cosette...

Com a revolta, Valjean acha oportuno deixar Paris, e fazer uma excursão à Inglaterra. Marius, atordoado, precisa tomar uma decisão. Ir para a Inglaterra? Como, se ele vive na pobreza? Marius decide procurar o avô Gillenormand, após 5 anos do desentendimento entre eles. Decide se casar, e para isso ele precisa da aprovação do avô. Mas é impossível. O avô conservador não aceita a rebeldia do neto – que vive na pobreza – o neto que pede perdão – mas o avô mostra firmeza – não aceita o casamento com a tal 'Mademoiselle Fauchelevent'. Humilhado, e vendo humilhada a sua 'noiva', Marius afasta-se do avô, que então percebe que a separação agora é definitiva – não há mais perdão.

Livro IX

Erguem-se as barricadas. Enterro do general Lamarque. Valjean vê um aviso em seu quintal – escrito por Éponine, sabemos – dizendo 'Mude-se' ('Déménagez') Marius arrasado após o fracasso diante do avô. Numa esquina, ele ouve uma voz, 'seus amigos o esperam na barricada!' Pois as barricadas esperam os heróis e os desesperados. A decadência do Sr. Mabeuf – quem poderá ajudá-lo?

“A miséria de uma criança interessa à uma mãe, a miséria de um homem jovem interessa à uma moça, a miséria de um velho interessa a ninguém.” (“La misère d'un enfant intéresse une mère, la misère d'un jeune homme intéresse une jeune fille, la misére d'un vieillard n'intéresse personne.” III, p. 1109)

Em miséria, o Sr. Mabeuf passa a vender os seus livros raros – é a ruína de um pequeno-burguês. É justamente quando começam os motins de 5 de junho de 1832, narrados no livro X.

Mais digressões sobre as revoltas, as tormentas sociais, num eco das considerações do capítulo III do Livro VII. As desordens dos motins correspondem às desordens da vida social, com privilegiados e excluídos, com milionários e miseráveis. Para outros as revoltas apenas reforçam o 'sistema', ao unir os burgueses na defesa de seus interesses.

Por viver num época de instabilidade política – a França do século 19 – o Narrador faz ecoar a fala do Autor, que inclusive exilou-se numa das muitas reviravoltas de governos e desgovernos.
É justa a revolta? Pode ser democrática, ou levar à democracia? Mas sem revolta nada mais existiria que inércia social, pois as elites se perpetuariam no poder – ou lutariam entre si. Motins, revoltas, insurreições, revoluções: um tratado enciclopédico sobre as variações de 'resistência'. Despotismos, tirania, bonapartismo, golpes de estado, quarteladas, rodízio de elites, nada que as ciências sociais do século 20 já não tenham catalogado e conceituado.

Mas para a época, o tratado de Victor Hugo se justifica pela antecedência diante da 'profissionalização' do chamado cientista social (ou sociólogo). Afinal, o que determina a legitimidade de uma 'revolução'? O progresso? O acesso das 'massas' ao poder político? A mudança de governos corruptos? Para o Narrador, a revolta de 1832 continua o processo de 1830 (e, podemos dizer mais, tem seu ápice em 1848) Depois da digressão historiográfica, o Narrador volta à narrativa (o 'récit')

Estopim: a morte do general Lamarque. Um enterro: ocasião de renascer. As jornadas de 5 e 6 de junho de 1832. as forças governamentais de prontidão nas principais ruas de Paris. Enquanto o cortejo fúnebre congrega militares, estudantes, refugiados, todos de aspiração republicana num regime de monarquia liberal.

A hostilidade entre os 'dragões' da guarda e os simpatizantes republicanos. Aproxima-se o momento de confronto. O exército atira contra a multidão, que se dispersa. Mas recua apenas para ir buscar as armas – 'aux armes!'. Erguem-se as barricadas.

Aqui a descrição se assemelha àquela da Batalha de Waterloo, na Parte II, com detalhes geográficos, só possíveis de serem recuperados com a posse de um mapa da Paris anterior a reforma urbana feita pelo prefeito Haussmann, entre 1853 e 1870. o Narrador se explica,

“Tudo isso que narramos aqui lentamente e sucessivamente acontecia de uma vez em todos os pontos da cidade em meio a um vasto tumulto, como uma multidão de clarões num só trovejar.” (“Tout ce que nous racontons ici lentement et sucessivement se faisait à la fois sur tous les points de la ville au milieu d'un vaste tumulte, comme une foule d'éclaires dans un seul roulement de tonnerre.” IV, p. 1130)

A grandiosidade da Narrativa eleva o Romance Os Miseráveis a categoria de épico moderno. A enumeração de personagens – anônimos em anonimato de multidão – as referências às ruas e locais se assemelham a uma descrição de batalha medieval – agora travada dentro de uma metrópole.

“A insurreição tinha feito do centro de Paris uma espécie de cidadela inextricável, tortuosa, colossal.
Lá estava a fornalha, lá estava evidentemente a questão. Todo o resto não passava de escaramuças. O que provava que tudo se decidiria lá, é que ainda não se combatia lá.”
(“L'insurrections'était fait du centre de Paris une sorte de citadelle inextricable, tortueuse, colossale. // Là était le foyer, Là était évidemment la question. Tout le reste n'était qu'escarmouches. Ce qui prouvait que tout se déciderait là, c'est qu'on ne s'y battait pas encore.” p. 1132)

A posterior reforma urbana de Paris objetivava justamente impedir a possibilidade de focos de resistência – as barricadas – durante as revoltas da população.

Livro XI

As personagens se reintegram à narrativa. Gavroche canta ou recita, enquanto eleva sua arma. O menino marcha junto aos republicanos – uma nova Marseillaise entoada meio aos combates. Figuras do povo desfilam com suas reivindicações e misérias. (O povo alcançará realmente o poder?)

Os amigos do ABC – Enjolras, Courfeyrac, Combeferre, Feuilly, Bahorel, Jean Prouvaire – seguem o apelo 'aux armes!' e também 'aux barricades!', e recebem o 'reforço' de um velho. O desesperado Sr. Mabeuf, indiferentes às balas de fuzil, às balas de canhão, atordoado, integra a defesa da barricada.

O pequeno Gavroche marcha cantando – seguem para as barricadas da rue Saint-Denis.

Livro XII

Corinthe é o nome de um cabaré, na rue de la Chanvrerie. Local estratégico para os revoltosos. O Narrador tem consciência de seu estilo de narrar fatos históricos, dramas sociais, “Que se nos permita recorrer, para a clareza da narrativa, ao método simples já usado por nós sobre Waterloo” (“Qu'on nous permette de recourir, pour la clarté du récit, au moyen simple déjà employé par nous pour Waterloo”. I, p. 1152) e descreve o 'espaço geográfico' do campo de batalha urbano.

Outras personagens reaparecem: Grantaire, Laigle, Joly... Os diálogos longos e densos servem igualmente para situar o Leitor no contexto político das 'forças sociais' em confronto. (Recurso usado por Dostoiévski, em “Os Possessos” e “Os Irmãos Karamázovi”; por Hemingway, em “Por quem os sinos dobram”; por Simone de Beauvoir em “Os Mandarins”; por B. Pasternak em “Doutor Jivago”)

Fala de Grantaire, o cético, “Isso que chamais o progresso marcha por dois motores, os homens e os acontecimentos. Mas, coisa triste, de tempos em tempos, o excepcional é necessário. Para os acontecimentos como para os homens, a turba ordinária não é suficiente; é preciso entre os homens os gênios, e entre os acontecimentos as revoluções.” (“Ce que vous autres appelez le progrès marche par deux moteurs, les hommes et les évènements. Mais, chose triste, de temps en temps, l'exceptionnel est nécessaire. Pour les évènements comme pour les hommes, la troupe ordinaire ne suffit pas; il faut parmi les hommes des génies, et parmi les évènements des révolutions.” II, p. 1161)

Para os revolucionários, Marius é um moço que trocou a luta social pelo amor de uma senhorita, ou que Marius é um da 'raça dos poetas' – isto é, não são práticos, ao contrário, vivem de sonhos.
Mesmo dizendo-se cético, Grantaire 'crê' na liderança de Enjolras, e assim une-se ao grupo nas barricadas. Lá estão Combeferre e Courfeyrac dirigindo os esforços. Claro, lá está o animado Gavroche.

O Romance tem algo de realismo e de epopeia, não hesita em recursos, de tragicomédia, e até fantasia. Tudo parece, às vezes, superdimensionado e até caricatural. (O mesmo efeito em muitas páginas de Tolstoy e Dostoiévski – enquanto é proposital e estilístico em Gógol, Turgueniev e Tchecov, para ficar só entre os russos...)

Acompanhamos os preparativos da barricada na rue de la Chanvrerie, na noite de 5 de junho. Um tipo adentra o 'teatro de operações' dos revoltosos. O mesmo homem que observava atentamente os 'amigos do ABC', em outras ocasiões. Surpreendido, o espião diz chamar-se Javert, e ser mesmo agente da lei. É prontamente desarmado e amarrado.

Pronto. Aqui as personagens vão se reunindo. Ainda faltam três – Marius, Cosette e Valjean – e os coadjuvantes Thénardier.

“O quadro trágico que iniciamos não seria completo, o leitor não veria no seu relevo exato e real esses grandes minutos de gênese (parto) social e nascimento revolucionário onde há a convulsão mesclada ao esforço, se nós omitíssemos, no esboço disposto aqui, um incidente pleno de horror épico e bravio que sobreveio quase de imediato à saída de Gravroche.” (“La peinture tragique que nous avons entreprise ne serait pas compète, le lecteur ne verrait pas dans leur relief exact et réel ces grandes minutes de gésine sociale et d'enfantement révolutionnaire où il y a de la convulsion mêlée à l'effort, si nous omettions, dans l'esquisse ébauchée ici, un incident plein d'une horreur épique et farouche qui survint presque aussitôt après le départ de Gavroche.” VIII, p. 1184)

Segue-se uma cena de excessos revolucionários, e a pronta justiça do líder revolucionário. É preciso autoridade. O homem que comete um assassinato gratuito, covarde, junto aos revolucionários, é nada mais que um bandido que se aproveita da desordem. Mas Enjolras 'encarna' a disciplina,

“Este homem foi morto, porque matou” e “sobre nós está o olhar da revolução, nós somos os pais fundadores da república, nós somos as hostes do dever, e é preciso não caluniar nossa luta.” (“nous sommes sous le regard de la révolution, nous sommes les prêtres de la république, nous sommes les hosties du devoir, et il ne faut pas qu'on puisse calomnier notre combat.” p. 1187)

Enjolras executa o criminoso em nome da República, em nome da 'fraternidade', da 'lei do progresso'. Assim, é um tanto contraditório. Humanista? Mas se o 'progresso' está acima da vida humana?

Livros XIII a XV

Eis o cenário: da rua Plumet ao quartier Saint-Denis. É onde Marius tenta digerir sua desesperança, sua perda da amada Cosette. Afinal, como ele poderá casar? Suas reflexões são íntimas, românticas e épicas. Marius avança para a morte?

“Marius queria com a vontade do homem que não espera mais. Tivesse sido chamado, precisaria seguir. Ele encontra o meio de atravessar a multidão e de atravessar o bivaque das tropas, ele se oculta das patrulhas, ele evita as sentinelas.” (“Marius voulait avec la volonté de l'homme qui n'espère plus. On l'avait appelé, il fallait qu'il allât. Il trouva le moyen de traverser la foule et de traverser le bivouac des troupes, il se déroba aux patrouilles, il évita les sentinelles.” I, p. 1191)

O ataque das tropas à barricada da rue de la Chanvrerie, onde alta se ergue a flâmula da república e da fraternidade, sob os golpes das tropas governistas – golpe após golpe se abate sobre a barricada. Lá onde um velho toma. É o Sr. Mabeuf, o ex-tesoureiro da igreja, o ex-livreiro. Mas os demais jovens resistem. E para lá que segue o Marius, a unir-se aos amigos do ABC. Depois de ouvir aquele aviso (no Livro 9, II) - “seus amigos o esperam na barricada da rue de la Chanvrerie”. Logo ao chegar, Marius enfrenta o avanço da tropa, e consegue fazer as tropas recuarem ao ameaçar explodir um barril de pólvora.

Sabemos de que lado o Narrador (e o Autor) está: sua historiografia é parcial. Ele pouco descreve as tropas, e enquanto adentra os pensamentos e sentimentos dos amigos do ABC, que tombam diante da repressão. Marius presencia a morte de Éponine (na barricada, ela se vestia de homem) que é ferida ao interpor-se entre um fuzil e o alvo, o próprio Marius. Ela se sacrifica por ele. Ela que sempre amou o estudante pobre. A mesma Éponine que o ajudou a reencontrar o jardim idílico de Cosette. Aliás, a moça agonizante traz uma carta de Cosette, a avisar sobre a mudança para a Inglaterra.

A mudança de Valjean e Cosette foi precipitada pelo aviso “Déménagez” (Mude-se) escrito por Éponine e lido por Valjean. Cosette escreve uma carta para avisar Marius, e entrega a um rapaz na rua. O 'rapaz' era justamente Éponine, que não foi ao correio... Marius escreve uma carta, a declarar que é impossível o casamento com a Srta. Cosette. O avô tem recusado, e ele, Marius, não tem dinheiro. Assina a carta. Escreve seu nome e família em outro papel. Sabe que sua morte é certa. Em seguida, Gavroche é encarregado de entregar o bilhete à Cosette. Mas, o menino encontra Valjean, que já sabe do 'affair' da filha adotiva. Valjean que sente verdadeiro ciúme ao temer que a moça, ao casar, possa se afastar. É compreensível: ele dedica todo o seu afeto à filha adotiva. Valjean agora precisa decidir: permitir a morte do rapaz ou tentar salvá-lo?
É o drama para a próxima Parte (V – Jean Valjean).

jun/jul/10

por Leonardo de Magalhaens
http://leoleituraescrita.blogspot.com/
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sábado, 24 de julho de 2010

Os Miseráveis / Les Misérables - Parte 4 (1/2)




Sobre Os Miseráveis (Les Misérables, 1862)
do escritor francês Victor Hugo (1802-1885)

As Obras Clássicas (ensaio 3)


O Romance Burguês enquanto Epopeia moderna


Parte IV – O Idílio da Rua Plumet e a Epopeia da Rua Saint-Denis
(1/2)

Sabemos que a época da narrativa, nesta Parte, está concentrada no contexto histórico de 1830 a 1832. Considerando que o pai de Marius faleceu em 1827, então completam-se cinco anos que o jovem está fora da influência burguesa do avô conservador. Cinco anos de aprendizagem do jovem Marius.

O segundo protagonista (digamos assim, mantendo Valjean na primeira posição) enfrentou a miséria e a solidão, tentou fazer amigos, conheceu a paixão súbita e fremente, agora novamente é conduzido pelo 'coletivo', os processos históricos que se sobrepõem aos 'desejos individuais'. Ainda mais se considerarmos que, sociologicamente falando, o 'indivíduo' é um 'construto social', é fruto de uma processo histórico.

A França sofre turbulências políticas e sociais desde a Queda da Bastilha em julho de 1789, que inaugurou as idas e vindas da Revolução Francesa, ora radical ora moderada, ora social, ora política, a se transmutar no Império Napoleônico, até 1814, que derrotado, em 1815, em seu governo dos Cem Dias, na épica Batalha de Waterloo, abriu espaço para a Restauração monarquista, a dominar até a insurreição das lideranças liberais, em três dias 'gloriosos' de julho de 1830, quando coroaram um 'rei-cidadão', Louis Philippe I, depois da fuga do rei Charles X. (Ao consultar a enciclopédia histórica saberemos que tal governo, fruto da 'revolução liberal' prosseguiu até 1848, quando eclodiu a 'revolução democrática'.)

As personagens outrora descritas e apresentadas agora são chamadas a compor um amplo cenário onde se evidenciam e se confundem as tonalidades do 'espectro político' francês da referida época. É um grande painel que se apresenta, nas conflagrações entre orleanistas e republicanos, monarquistas e bonapartistas. Afinal, trata-se de um romance histórico, sabemos. Cuja escrita iniciada em 1845, somente foi concluída em 1860, em seguida ao período de exílio do Autor.

Politicamente, a proclamação de uma Carta (constituição) não afastou as características 'absolutistas' do regime monárquico. Assim, tratava de um regime que não agradava nem a monarquistas nem a liberais, muito menos a bonapartistas e republicanos. Um regime de aparências que em nada atendia aos anseios democráticos, e muito menos a vida decente dos cidadãos. Afinal, um romance como Os Miseráveis exibe justamente isso: as feridas de um regime elitista, que oferta a miséria a um povo que tanto se esfoçou em revoltas e revoluções.

Aqui, as personagens serão chamadas a tomar parte, ao engajamento da luta política, da luta física, nas barricadas, a enfrentar os exércitos ditos 'legalistas', sob ordens dos monarquistas. Daí a revolta ser batizada de 'insurreição republicana de junho de 1832' nos livros de História – realmente escrita pelos vencedores. Não apenas os republicanos estavam descontentes, mas apenas os jovens de leituras políticas se mobilizaram, e acabaram liderando e morrendo primeiro, sem apoio popular – aqueles 'humilhados e ofendidos' que eles desejavam 'libertar'.

Não basta um liberalismo nas entranhas da monarquia – como reconhecemos na Inglaterra – aqui o anseio é por uma verdadeira República, um governo popular, não de uma nobreza ambiciosa e/ou indiferente. Aqui as próprias vivências políticas do Autor estão diluídas nas descrições e argumentações do Narrador, a polemizar a queda da Restauração (e seu absolutismo mascarado) em julho de 1830, e o progresso social e político nas novas revoluções, tais como esta de 1832. Somente ter um 'rei-cidadão' não é garantia de um governo dos cidadãos e para os cidadãos.

“A restauração tomba.
Ela tomba justamente. Entretanto, dizem, ela não tinha sido absolutamente hostil a todas as formas de progresso. Das grandes coisas feitas, ela estava por perto.
Sob a restauração a nação tinha se habituado à discussão na calma, que tinha faltado à república, e à grandeza na paz, que tinha faltado ao império.”

(“La restauration tomba.
Elle tomba justement. Cependant, disons-le, elle n'avait pas été absolument hostile à toutes les formes du progrés. De grandes choses s'étaient faites, elle étant à cotê
.” I, p. 857)

ou

“A revolução de Julho [de 1830] é o triunfo do direito a derrubar o fato. Coisa deveras esplendorosa.

O direito a derrubar o fato. Desde então o brilho da revolução de 1830, desde então sua indulgência. O direito que triunfa não precisa ser violento.”

(“La révolution de juillet est le triomphe du droit terrassant le fait. Chose pleine de splendeur.

Le droit terrassant le fait. De Lá l'éclat de la révolution de 1830, de Là sa mansuétude aussi. Le droit qui triomphe n'a nul besoin d'être violent
.” I, p. 859)

O Narrador compara os processos 'revolucionários' na França e na Inglaterra, com suas violências e reviravoltas. O quanto a 'teoria' se distancia da prática. A revolução de “1830 pratica esta teoria, já aplicada a Inglaterra em 1688. 1830 é uma revolução parada no meio do caminho. Progresso pela metade; quase direito. Ou a lógica quase a ignora; absolutamente como o sol ignora a vela. Quem para as revoluções no meio do caminho? A Burguesia. (“ 1830 pratiqua cette théorie, déjá appliqué à l'Angleterre par 1688. / 1830 est une révolution arrêtée à mi-cotê. Moitié de progrès; quasi-droit. Or la logique ignore l'à peu près; absolutement comme le soleil ignore la chandelle. / Qui arrête les révolutions à mi-cotê? La bourgeoisie.” II, p. 862)

O Narrador não chega a uma teoria sobre revoluções e contra-revoluções, como ousou Karl Marx em “18 de Brumário de Luís Bonaparte”, de 1852, onde diz, no capítulo I,

As revoluções burguesas, como as do século XVIII, avançam rapidamente de sucesso em sucesso; seus efeitos dramáticos excedem uns aos outros; os homens e as coisas se destacam como gemas fulgurantes; o êxtase é o estado permanente da sociedade; mas estas revoluções têm vida curta; logo atingem o auge, e uma longa modorra se apodera da sociedade antes que esta tenha aprendido a assimilar serenamente os resultados de seu período de lutas e embates. Por outro lado, as revoluções proletárias, como as do século XIX, se criticam constantemente a si próprias, interrompem continuamente seu curso, voltam ao que parecia resolvido para recomeçá-lo outra vez, escarnecem com impiedosa consciência as deficiências, fraquezas e misérias de seus primeiros esforços, parecem derrubar seu adversário apenas para que este possa retirar da terra novas forças e erguer-se novamente, agigantado, diante delas, recuam constantemente ante a magnitude infinita de seus próprios objetivos até que se cria uma situação que toma impossível qualquer retrocesso e na qual as próprias condições gritam: Hic Rhodus, hic salta! Aqui está Rodes, salta aqui!


Em Marius já encontramos uma contradição: seu ideal de revolução, que o aproxima dos jovens republicanos (os amigos do ABC) e ao mesmo tempo sua admiração pelo 'grande homem' Napoleão, que aspirava ambições imperiais.

No campo dos revoltosos estão também os socialistas, aqui um título genérico usado pelo Narrador. A problemática aqui é a da produção e da distribuição da riqueza. Cita o exemplo da próspera Inglaterra, que produziu a riqueza, mas não a dividiu. A prosperidade passa pela divisão comum?

“O comunismo e a lei agrária creram resolver o segundo problema [repartir a riqueza]. Eles se enganam. A repartição dela mata a produção. A partilha igual aboli a competição. E, por consequência, o trabalho. É uma repartição feita pelo açougueiro que mata isso que ele reparte. É assim impossível se deter a essas pretendidas soluções. Matar a riqueza, isso não é reparti-la.” ("Le communisme et la loi agraire croient résoudre le deuxième problème. Ils se trompent. Leur répartition tue la production. Le partage égal abolit l'émulation. Et par conséquent le travail. C'est une répartition faite par le boucher, qui tue ce qu'il partage. Il est donc impossible de s'arrêter à ces prétendues solutions. Tuer la richesse, ce n'est pas la répartir." IV, pp. 875/76)

Para o Narrador, sempre preocupado com questões políticas, os dois problemas – produzir e repartir – são um só a ser resolvido ao mesmo tempo , para garantir a prosperidade da nação. Certamente trata-se de um receituário liberal. É o Liberalismo que é defendido.


“Democratizar a propriedade, não a abolir, mas a universalizar, de modo que todo cidadão, sem exceção, seja proprietário, coisa mais fácil do que se acredita, em duas palavras, saber produzir a riqueza e saber reparti-la; e tereis em conjunto a grandeza material e a grandeza moral; e sereis dignos de vos chamar a França.” (“démocratisez la propriété, non en l'abolissant, mais em l'universalisant, de façon que tout citoyen sans exception soit propriétaire, chose plus facile qu'on ne croit, en deux mots sachez produire la richesse et sachez la répartir; et vous aurez tout ensemble la grandeur matérielle et la grandeur morale; et vous serez dignes de vous appeler la France.” pp. 876/77)


Em favor do Narrador, pode-se citar alguns países onde tal política foi bem sucedida. Seria o caso dos Estados Unidos, Canadá, Suiça, países prósperos, mas não igualitários. Ainda há miséria e pobreza, pois há uma elite de mais prósperos que outros. A propriedade não foi exatamente universalizada...

O argumento do Autor é que as revoltas não levam a uma prosperidade, mas a um caos social. Descreve um painel de conspirações, armamentos clandestinos, figuras que financiam os revoltosos, em articulações de grupos revolucionários, incluindo operários, estudantes, desesperados. Afinal, trata-se de uma época de ação e reação, falta dizer, época de 'luta de classes' (como diria K Marx),

“Aqui os termos postos: ação e reação, revolução ou contra-revolução. Pois, em nossa época, não se crê mais na inércia nem na imobilidade. Pelo povo ou contra o povo, eis a questão. Não há outra.” (“...Voici les termes posés: action ou réaction, révolution ou contre-révolution. Car, à notre époque, on ne croit plus à l'inertie ni à l'immobilité. Pour le peuple ou contre le peuple, c'est la question. Il n'y en a pas d'autre.” V, p. 881)

Uma época de polarizações políticas, onde o cidadão está contra ou a favor do poder popular, contra ou a favor da propriedade. Época em que os movimentos socialistas e anarquistas se articulam e se dividem, criando o painel político que presenciamos no século 20.

Enquanto isso, a polícia anda a 'colher' informes e delações, enquanto em espaços públicos manifestações em prol ou contra uma ou outra facção. “Quem nos governa?”, diz um pobre a outro, “É o Sr. Philippe”, “Não, é a burguesia.” (“--Qui nous gouverne? --C'est monsieur Philippe.--Non, c'est la bourgeoisie.” p. 882)

É a consciência manifesta de que 'há alguém movendo os fantoches'. Quem são eles? Onde estão os 'chefes' de cada lado? Reina uma confusão numa época de sociedades secretas (parisienses, mas com ramificações na províncias), partidos políticos, onde uns lutam por igualdade (os trabalhistas, os socialistas), lutam por liberdade (os liberais), lutam pela monarquia, lutam pela república...

Em Paris reina o caos de correntes revolucionárias,meio ao contrabando de armamentos e munições, meio aos lemas e palavras de ordem, “pão para todos, ideia para todos, a edenização do mundo, o progresso...” Segundo o Narrador, nunca imparcial, os direitos são proclamados com fúria, desejam forçar o ser humano rumo ao paraíso, sim, falam em progresso mas agem como selvagens...

Após suas digressões, o Narrador desenvolve a narrativa, dispondo em cena os amigos do ABC, Enjolras e seus tenentes nos fundos do café Musain, além de contatos com outros grupo revolucionários, as atuações individuais nas ações coletivas.

Livro II - Éponine

Mas nem todos os estudantes estão engajados na revolta. O jovem Marius só tem atenção para os próprios ardores da sensibilidade amorosa. Meio ao tumulto, Marius espera reencontrar a pista da 'Srta. Lenoire'. Tendo se mudado da masure Gorbeau, para evitar os 'pobres maldoso' e precisar testemunhar contra o Thénardier (o tal que salvara o oficial, pai do jovem), Marius reaproxima-se de Courfeyrac, um dos amigos do ABC. Marius se endivida para enviar uma 'ajuda periódica' ao Thénardier.

O jovem tem esperanças de rever a bela mademoiselle, aquela cujo apelido é 'Cotovia' (L'Alouette), justamente, como sabemos, o apelido de Cosette. Aqui, o efeito é de contraponto: o sentimentalismo versus as lutas políticas. Para agradar gregos e troianos, ou seja, os intelectuais e as leitoras. Mas se o Narrador consegue até 'convencer' no tema Política, sempre soa sentimentalista e 'floreado' no tema Paixão.

A polícia deve agir. Assim pensa Javert, em investigações para descobrir quem era o estranho refém dos Jondrette (Thénardier) e quem era o jovem pobre 'quase-advogado'. Afinal, a família Jondrette (Thénardier) agora se envolve com bandidos perigosos, enquanto as moças Éponine e Azelma são aliciadas para o 'submundo'. Muito do detalhismo do Narrador é hoje 'datado', precisa-se de uma enciclopédia da época, ou um anexo com notas e referências. (Assim também para ler “Guerra e Paz”, de Tolstoy, e “Ulisses”, de J. Joyce)

Éponine recebe um certo status de coadjuvante aqui. Ela ajuda o velho Sr. Mabeuf, aquele que vive para os livros raros, a enfrentar a falência da Libraire Royol. A pobre mocinha quer saber onde mora o Sr. Marius, nada mais. Em seguida, ela passa a rondar o campo da Cotovia [Champ de L'Alouette] até reencontrar o jovem estudante. E assim são os encontros e desencontros deste imenso Romance. Enquanto Marius sonha e suspira pela bela 'Srta Lenoire', ele não percebe junto a ele alguém que somente pensa nele: a pobre Éponine. E para agradar ao jovem, a mocinha revela o endereço da Srta. E assim a miserável ajuda a rival... Assim, novamente alguém da família Thénardier (aqui a filha) faz a 'ponte' entre Marius e a bela Srta (que sabemos ser Cosette)

E onde está Cosette? No livro seguinte (III), temos a descrição da casa da rue Plumet, onde Valjean (ou Último Fauchelevent) se abrigou com a moça Cosette, após deixar a rua do Oeste, até onde Marius conseguiu segui-lo. Isso porque 'pai e filha' tem casas em diferentes endereços... Nas descrições, o Narrador mescla poesia e prosa, numa imagética que visa recriar o cenário das personagens – uma característica que encontramos na obra de Emily Brontë, e na de Virginia Woolf.

É de se perguntar porque Valjean deixou o convento de Petit-Picpus. Mas o Narrador esclarece não haver nenhuma aventura desta vez. O fato é que Cosette se faz moça, e ele não queria mantê-la 'enclausurada'. Após cinco anos (justamente o tempo entre a morte do 'barão' Pontmercy e a revolta de 1932, o tempo em que Marius deixou a casa do avô ) Valjean resolve deixar o convento.

Enquanto proprietário e cidadão, o Sr. Fauchelevent (Valjean) é soldado da Guarda Nacional, uma milícia de cidadãos formada na época da Revolução de 1789, contra os exércitos monarquistas. Sabemos também, num âmbito extra-texto, que o Autor também pertencia a Guarda Nacional, uma guarda burguesa para proteger a propriedade burguesa.

Mas o agora 'burguês' Valjean, mesmo rico, despreza o conforto, e prefere a vida modesta; o conforto que fique para a moça Cosette. O idoso Valjean é aquele que procura ser pai e mãe para a órfã, enquanto ele silencia sobre o passado da mocinha, não lembrando a mãe Fantine. É todo um silêncio a sepultar um passado de misérias.

E chega o dia no qual a mocinha Cosette vai se perceber bonita. Então a flor se torna uma conquistadora (“a rosa se apercebe que é uma máquina de guerra'”) pois há de aprender a 'coqueterie' e o amor. A beleza recente de Cosette pode atrair 'pretendentes' – que podem disputar o monopólio do amor que a moça dedica ao pai. Pois bem, foi nessa época que Marius percebeu a beleza de Cosette, a 'Srta. Lenoire', no Jardim do Luxemburgo.

O Narrador insiste nas analogias entre 'conquista' amorosa', 'sedução', e 'conquista bélica', 'guerra'. Tudo o que acompanhamos pela perspectiva de Marius, na Parte III, agora percebemos pelo ponto de vista de Cosette. O que é a sedução para a moça e a conquista para o jovem? Um jogo de ataque e recuo, sinais ambíguos, olhares reveladores. Ela aprende a ser 'senhorita', futura ' senhora', e ele aprende a ser 'pretendente', futuro 'noivo' e 'marido'.

É um interessante mecanismo, onde um projeta ideais no outro, o desconhecido, e tece idealizações do 'ser amado' e espera correspondência. Se ama mutuamente – e não se declaram. “Era um tipo de adoração a distância, uma contemplação muda, a deificação de um desconhecido.” (“C'était une sorte d'adoration à distance, une contemplation muette, la déification d'un inconnu.” p. 942)

Os sonhos de adolescência – analisados por um Narrador que tem um ponto de vista de adulto, e até senil. É um visível descompasso. Um senhor de idade a rememorar seu passado, sua própria juventude – e a usar uma 3ª pessoa. (A literatura de jovens – para jovens, ou ainda, juvenil – só virá à lume no início do século 20, com autores que voltam a ser jovens na escrita, ou, depois, jovens que passam a escrever, de jovem para jovem...)

É quando Valjean percebe ter um concorrente aos sentimentos de Cosette. A recente vaidade da mocinha não é de todo 'gratuita' – alguma admiração ela procura atrair. Valjean percebe-se ciumento.

Valjean percebe, também, o vulto do jovem; é informado pelo porteiro sobre indagações de um jovem, lá na rua do Oeste; em seguida, fixa o olhar no moço, de modo a intimidá-lo – segundo notamos na Parte III.

Assim, Valjean muda-se para a rua Plumet, e interrompe os passeios no Jardim do Luxemburgo. (Seria apenas ciúmes de Cosette? Ou desconfia de agentes da polícia?)

É então que Valjean percebe o silêncio e a tristeza de Cosette. Resolvem passear no jardim – Marius não está por perto. A moça continua triste. Terá ele desistido de esperar? E a moça a guardar silêncio de tudo.

Cena expressionista: uma 'procissão' de forçado, algemados, conduzidos por 'esbirros', policiais-carcereiros, rumo às galés. Valjeam observa este lúgubre desfile – sugestões de imagens dantescas e apocalípticas. Para afastar a mocinha de pensamento mórbidos, o ancião rompe sua vida modesta ao levar Cosette aos divertimentos parisienses: passeios, teatros, festas – tudo para distrair a silenciosa e triste mocinha.

Livros IV e V

O Narrador continua a narrativa sobre a mesma época já apresentada na Parte III – 1830-32 – mas aqui o ponto de vista é de Valjean e Cosette. Narra aquela fatídica visita aos 'Jondrette', onde o Sr. Fauchelevent, grande benfeitor, é ferido numa cilada. Valjean consegue fugir (para grande lamento de Javert..) e se restabelece com os cuidados da sua 'enfermeira', a sua Cosette.

As cenas da cidade, fatos nas ruas e ruelas de Paris. Um jovem ladrão que recebe um sermão. Quem é o 'bonhomme' vítima de assalto? A falar de prisão, miséria e velhice com um bandido! Quem será o 'bonhomme' (homem de bem)? O leitor, sem dúvida, já adivinhou!

Cosette pensa em Marius; e Marius pensa em Cosette: só o Narrador sabe disso (e nós, os leitores): eis “Romeo and Juliet” versão século 19. São assim as cenas no jardim da casa da rua Babilônia. Noites de lua cheia, alucinações, uma sombra de homem com cartola. Algo de expressionismo e contos de terror, mas com toda a 'ambientação romântica'. Que visitante noturno ousa invadir o jardim desta casa burguesa? A moça encontra um envelope com 'poemas em prosa' sobre o 'sofrer de amor'. Carta que sabemos de quem pode ser... (o estilo lembra os poema de Lamartine e os versos do próprio Autor Victor-Hugo, mas também algo de Rimbaud, vejamos, “Encontrei na rua um jovem pobre que amava. Era velho o seu chapéu, seu casaco era usado; tinha furos nos cotovelos; a água invadia seus sapatos e os astros atravessavam a sua alma” (“J'ai rencontré dans la rue un jeune homme très pauvre qui aimait. Son chapeau était vieux, son habit était usé; il avait les coudes troués; l'eau passait à travers ses souliers et les astres à travers son âme.” IV, p. 132)

A carta – ou coletânea de poèmes en prose – sem assinatura, sem data, sem endereço, atordoa a moça, inexperiente em paixões. Ela bem que imagina quem seja o autor. (A expectativa que se cria depende basicamente do Narrador. Falta a densidade dramática de um “Romeo and Juliet”, então sobra narração...) Mas ao final do Livro o autor da carta se materializa. É mesmo o jovem Marius. O intrépido jovem apaixonado que invade o território da moça virtuosa. Se não 'conhecêssemos' Marius, poderíamos temer pela 'virtude' da mocinha – a ser outra vítima, a repetir a tragédia da mãe (afinal, vimos como Fantine foi seduzida por Tholomyès...)

Se há mesmo a tal 'angústia de influência' (segundo o scholar Harold Bloom), quem influenciou tais páginas românticas de Vistor Hugo? Shakespeare (com seu “Romeo and Juliet”) ou Lord Byron (com seu “Don Juan”)? Ou seria os poemas idílicos de Lamartine e as cenas de paixão velada em “Le Rouge et le Noir”, de Stendhal?

“Eles não sentiam nem a noite fresca, nem a pedra fria, nem a terra úmida, nem a grama molhada, eles se olhavam e nutriam o coração de pensamentos. Tinham unidos as mãos, sem saber.” (“Ils ne sentaient ni la nuit fraîche, ni la pierre froide, ni la tere humide, ni l'herbe mouillé, ils se regardaient et ils avaient le coeur plein de pensées. Ils s'étaient pris les mains, sans savoir.” VI, p. 989)

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continua...


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por Leonardo de Magalhaens

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sexta-feira, 16 de julho de 2010

Os Miseráveis - P3 / Marius (2/2)




Sobre Os Miseráveis (Les Misérables, 1862)
do escritor francês Victor-Hugo (1802-1885)

As Obras Clássicas (ensaio 3)

O Romance Burguês enquanto Epopeia moderna
Parte III - Marius

2/2




Mas está pobreza, esta desventura, será um 'depurador' das qualidades do jovem de educação clássica. Daí o Livro V ser intitulado “Excelência da desventura” (Excellence du malheur). Temos aqui o Marius indigente, fora do conforto da família burguesa, quando o jovem passa a conhecer a realidade da vida das classes mais modestas – menos favorecidas – da capital francesa. Marius está pobre e mal-vestido, e só mantém ainda o orgulho. Se Marius não fosse um jovem honesto e admirável, teria caído no submundo, no crime, no lado sombrio da vida urbana.

O Narrador mostra vívida admiração pela personagem – aliás, como ele mostrou em poucos momentos, quando descreveu a 'recuperação' de Jean Valjean, no papel do bom cidadão père Madeleine. “A vida, a desventura, o isolamento, o abandono, a pobreza, são os campos de batalha que têm os seus heróis; heróis obscuros maiores por vezes que os heróis ilustres.” (“La vie, le malheur, l'isolement, l'abandon, la pauvreté, sont des champs de bataille qui ont leurs héros; héros obscurs plus grands parfois que les héros illustres.” I, p. 709)

Eis a Miséria enquanto mestra cruel. Afinal, o título do livro é “Os Miseráveis”. “No primeiro dia, ele comia a carne, no segundo dia ele comia a gordura, no terceiro dia ele roía os ossos.” (“Le premier jour il mageait la viande, le second jour il mangeait la graisse, le troisième jour il rongeait l'os.” I, 709) e mesmo assim o Marius continua a recusar os 'donativos' da tia burguesa. A descrição da vida miserável do jovem, em seus estudos de inglês e alemão, para fazer traduções, faz com ele conheça a Literatura a partir do lado 'utilitário'. Não é um literato em 'torre de marfim', não é um burguês que tem a literatura como passatempo. Este conhecimento literário será sua forma de sobrevivência.

Marius passa a morar na masure (pardieiro) Gorbeau. Sim, exatamente o lugar onde morava a família Jondrette, e onde outrora vivera Valjean com a menina Cosette – até fugirem, e conseguirem abrigo no convento, onde a menina se tornará moça. Em sua vida modesta, Marius segue entre a fome e os livros. Uma vida simplificada, calculada centavo a centavo. O impulso para ser independente leva o moço à vida modesta, à solidão, aos estudos. Aqui há um discurso idealista, “Em todas as suas provações ele [Marius] se sentia encorajado e muitas vezes levado por uma força secreta que tinha dentro de si. A alma ajuda o corpo, e em certos momentos a carrega. É o único pássaro que sustenta sua gaiola. “Dans toute ses épreuves il se sentait encouragé et quelquefois même porté par une force secréte qu'il avait en lui. L'âme aide le corps, et à de certains moments le soulève. C'est le seul oiseau qui soutienne sa cage.” II, p. 712)

No plano narrativo, sabemos que Marius espera encontrar um certo 'Sr. Thénardier' que salvou o seu pai no campo de batalha em Waterloo (e é até irônico: nós, os leitores, sabemos porque o tal Thénardier 'salvou' o oficial, afinal ocupava-se em saquear os bolsos dos mortos e agonizantes...!) o jovem Marius – com seus 20 anos - há 3 anos fora da casa do avô, o conservador a se mostrar firmeza e indiferença, mas no fundo idolatra o neto. O avô sente a falta doneto (o 'petit drôle'), “Marius lhe fazia falta. Os velhos precisam de afeções como de sol” (“Marius lui manquait. Les vieillards ont besoin d'affections comme de soleil”, III, p. 714)

Marius – o neto pródigo – vive a pobreza, a miséria, e supera as dificuldades com honestidade, ou seja, vive na solidão com dignidade. Amizades? Somente com o tesoureiro da igreja ('marguillier') Sr. Mabeuf, aquele que contou ao jovem sobre o pai amoroso que vê o filho às ocultas. O Sr. Mabeuf, de vida modesta, até aprova as opiniões políticas, mas prefere os livros. Ainda mais numa época de 'tumultos políticos' como aqueles de 1830 e 1832, segundo veremos.

Interessante: em época de 'ebulição cívica', a paixão política de Marius se esfria. “A revolução de 1830, ao satisfazer, em acalmar, tinha ajudado. Ele continuou o mesmo, próximo à raiva.” (“La révolution de 1830, en le satisfaisant, et em le calmant, y avait aidé. Il était resté le même, aux colères prés.” e “Na humanidade ele escolhia a França, da nação ele escolhia o povo; do povo ele escolhia a mulher.” (“Dans l'humanité il choisissait la France; dans la nation il choisissait le peuple; dans le peuple il choisissait la femme.” V, p. 723)

Idealista, o jovem Marius? “Agora ele preferia uma ideia a um fato, um poeta a um herói...” (“Maintenant il préférait une idée à un fait, un poëte à un héros...” p. 723) No mais, Marius ajuda os vizinhos pobres, os Jondrette. Até paga o aluguel deles – anonimamente. Os burgueses acompanham as revoluções (ou 'as revoltas') através dos jornais tendenciosos. Consideram como arruaças de estudantes - coisa que muito preocupa o avô conservador, que lembra do neto estudante. Há todo um ódio do avô contra os jacobinos, republicanos, 'carbonaro' (rebeldes italianos), também contra os 'românticos'. “É republicano, é romântico. O que é isso, romântico? Faça-me a gentileza de dizer o que é? Todas as loucuras possíveis.” (“C'est républicain, c'est romantique. Qu'est-ce que c'est que ça, romantique? faites-moi l'amitié de me dire ce que c'est que ça? Toutes les folies possibles.” VI, p. 726)

E o avô chega até a citar uma peça do próprio Autor, Victor-Hugo! A peça “Hernani”, de 1830, que causou alvoroço devido ao seu 'drama romântico'. [Neste drama encontramos um 'herói romântico' ao estilo Lord Byron, sedutor e fatal, anjo e demônio.] Percebe-se que o velho Gillenormand passa a representar os adversários conservadores do próprio Victor Hugo. (Assim, no duelo avô X neto, entendemos a preferência pelo jovem)

mais sobre o drama “Hernani
http://fr.wikipedia.org/wiki/Hernani_(Hugo)

Temos o conservador contra os liberais, na primeira parte do século 19, enquanto no século 20 temos os liberais conservadores contra os 'comunistas' (a englobar todos os militantes de 'esquerda', sejam socialistas, anarquistas, leninistas, social-democratas...) Dono da palavra, o velho esbraveja, “Cidadãos, eu vos declaro que vosso progresso é uma loucura, que vossa humanidade é um sonho, que vossa revolução é um crime, que vossa república é um monstro, que vossa jovem França virginal sai do bordel.” (“Citoyens, je vous déclare que votre progrès est une folie, que votre humanité est un rêve, que votre révolution est un crime, que votre république est un monstre, que votre jeune France pucelle sort du lupanar...”, p. 728)


Livro VI

A narração continua agora um pouco afastada da política. Afinal, algo mais deve acontecer a um jovem. Uma paixão amorosa, por exemplo. O título é sugestivo, “A conjunção de duas estrelas”. Eis o que nos espera.

Marius, em seus passeios, vislumbra, numa alameda deserta do Jardim do Luxemburgo, uma jovem, acompanhada por um senhor idoso. A mocinha tem uns treze ou quatorze anos, magra, sem charme. Tinha uma palidez e um ar de menina séria, daquelas que vivem em conventos. Pai e filha ali faziam seus passeios, ou “Mademoiselle Lanoire & Monsieur Leblanc”, segundo dizem os estudantes.

Depois de seis meses, Marius retorna ao Luxemburgo e tem uma surpresa: a mocinha pouco charmosa agora se tornou uma interessante jovem! Uma jovem sempre modesta, discreta, de olhos baixos. Em outros momentos, ela levanta os olhos, “de um azul profundo e celeste”, mas ainda ele nota indiferença. Mas na primavera, há uma sutil troca de olhares. - Mas o Narrador é tão prolixo que embaça tudo (antes tivéssemos não-Narrador, daqueles shakesperianos, de “Romeo and Juliet”) a intrometer-se na paixão alheia até mais do que exige uma 'narração'. Parece uma voz irônica. Isso de Marius – subitamente! - mostrar apresentável. A vestir roupas novas, a desprezar a companhia dos 'amigos', a fingir que nem os conhece...

Mas os exageros retóricos do narrador enevoam o cenário. Esse é um dos problemas dos 'floreamentos' e 'digressões' dos poemas narrativos românticos de um Lord Byron, segundo veremos em ensaio futuro. O Narrador excessivo nunca diria apenas: Marius está apaixonado. Ao contrário, dedica um capítulo inteiro a descrever as fantasias amorosas da personagem. Talvez seja esta prolixidade a contaminar um Marcel Proust, em detalhismos e sondagens psicológicas.

Mas lembramos que esta paixão é a primeira de Marius – sendo uma 'momento de iniciação' – momento este rememorado nas cenas do passado do próprio autor. Possivelmente temos aqui vivências do próprio Victor Hugo. (No mais, este é um excelente 'modo de enquadramento' para situar a juventude da época, que não se preocupava apenas com estudos e política.)

Muitas páginas desta parte são 'datadas', isto é, pouco compreensíveis para nós que vivemos dois século depois. Mas o momento do apaixonar-se carrega algo de universal e atemporal. É esta característica que leva o leitor atual a se solidarizar com a 'prisão amorosa' do jovem Marius.

A paixão de Marius rompe a timidez do rapaz, que passa a frequentar o Luxemburgo, observa “a Senhorita Lenoire e o Sr. Leblanc”, e até seguir a mocinha (até a rue de l'Ouest, terceiro andar). Erro imperdoável. Tanto o senhor grisalho quanto a senhorita subitamente desaparecem do jardim, mudam-se sem deixar o novo endereço.

Livro VII

Vamos conhecer a trupe de bandidos, a Patron-Minette. Mas antes seguiremos digressões sobre as classes sociais, a posição dos pensadores (iluministas, socialistas, positivistas, revolucionários, jacobinos), enquanto dissertação sociológica alterna-se com narração, temos um 'corte vertical' da sociedade, do modo que encontramos num Balzac, autor de “Comédia Humana”.

Claro, temos uma digressão deveras datada – só para os contemporâneos ou historiadores. Poderia ser um artigo de jornal. Mas o Romance é assim mesmo: uma epopeia a englobar todos os gêneros – a narração, a descrição, a dissertação, em narrativas, cartas, poemas...

Se há uma 'alta Paris', uma 'elite', uma 'nata social', há igualmente um 'submundo', no 'terceiro subsolo' (“le troisième dessou de Paris”) dado à criminalidade. Neste submundo encontraremos as ervas daninhas, as trupes de marginais. Lá estão Gueuleme, Babet, Claquesous e Montparnasse, ou o fortão corpulento, o magro esperto, o sombrio-noturno e o lúgubre-cruel. É mesmo a 'Patron-Minette' a dominar o submundo, à margem, no subsolo. A pobreza é o reflexo invertido da riqueza.

A miséria leva ao crime. Mas nem todo miserável torna-se criminoso. Um exemplo é o jovem Marius. Mesmo na miséria, mesmo desesperado de amor (segundo podemos encontrá-lo no Livro VIII, O Marius pobre), pois a bela senhorita Lenoire e seu pai, o Sr. Leblanc, não mais foram vistos no jardim de Luxemburgo, nem na rua do Oeste.

Com o desaparecimento de sua 'musa', o jovem Marius cai em tristeza profunda. Não é mais o jovem entusiasta, idealista, decidido. Agora os passeios são cansativos e a solidão, um tanto entediante. “Ele se deixa cada vez mais a viver sozinho, sem rumos, abatido, com sua angústia interior, indo e vindo em sua dor como o lobo na armadilha, ficando ausente de tudo, embrutecido de amor.” (“Il se remit à vivre de plus em plus seul, égaré, accablé, tout à son angoisse intérieure, allant et venant dans sa douleur comme le loup dans le piège, quêtant partout l'absente, abruti d'amour.” I, p. 759)

Em suas caminhadas, ao redor dos subúrbios, Marius encontra um envelope com cartas de solicitação endereçadas a vários monsieurs e madames. Afinal, eis um pobre com 'boa redação', capaz de inventar 'personagens literários' (Don Alvarez, capitão espanhol de cavalaria, ou Genflot, literato, ou Fabantou, ator, dentre outros), são nada mais que nomes diversos mas do mesmo autor. Quem será?

Pouco depois, Marius recebe a visita da filha do casal de pobres Jondrette, vizinho ali na masure Gorbeau. É a jovem com uma carta, também a apelar para a caridade do bom monsieur. Ora, ora, trata-se do mesmo escrivanhador! Marius percebe que são cartas cada uma com uma história dramática, assinadas com nomes diversos, mas todas escritas pelo vizinho Jondrette – a arquitetar toda uma 'indústria' para “explorar a caridade de benfeitores”.

Na triste condição da família, imersa na miséria, destaca-se a modesta flor que não desabrocha, justamente a 'rosa na miséria', a intitular o capítulo, a mocinha que deseja atrair a atenção do estudante pobre. O retrato que o Narrador oferece é de miséria material e intelectual, de como a falta de bens básicos de subsistência fazem as pessoas perderem a dignidade e o respeito próprio. Esta família Jondrette é um triste exemplo. Logo saberemos quem são eles.

Mesmo com todas as dificuldade e penúrias, Marius percebe que não viveu a 'verdadeira miséria', pois ao seu redor, na vizinhança, existem pessoas que se entregam ao desespero ou a criminalidade. O moço observa furtivamente os vizinhos e presencia um cenário mesquinho. O Narrador tece digressões sobre as relações entre miséria e vício, entre penúria e decadência moral. Onde está o lema 'liberdade, igualdade e fraternidade' dos burgueses liberais? Onde está 'prosperidade' para todos os 'cidadãos'? Parece que sempre alguns são mais 'cidadãos' que outros...!

Mas a cena não é apenas de mesquinhez, tem uma importância narrativa. Afinal, aqui os cordões rompidos, dos capítulos anteriores, podem ser reatados. O pobre Jondrette adora amaldiçoar os ricos, mas não hesita em estender a mão para segurar algumas migalhas. As cartas fazem efeito: atraem a 'caridade alheia'. Ao observar os vizinhos, Marius reconhece um dos 'filantropos' que ajuda a família: é justamente o Sr. Leblanc, como diziam os estudantes.

O pobre Jondrette vem expor sua miséria, a penúria de seu lar e de sua família, para 'chocar' o filantropo e conseguir algumas 'benesses'. A pobreza enquanto 'teatro de horrores'. Meio ao horror da miséria, dentro do antro de uma mansarda humilde, brilha um raio de sol: a Srta. Lenoire acompanha o pai, nesta visita aos pobres. E Marius nem pode acreditar no que seus olhos percebem. “Ela reaparecia nessa sombra, nesse antro, nessa mansarda disforme, nesse horror” (“Elle reparaissait dans cette ombre, dans ce galetas, dans ce bouge difforme, dans cette horreur!”, VIII, p. 785)

Agora, o moço tem uma pista para reencontrar a jovem de seus sonhos e noites sem sono. Mas como seguir uma carruagem? A menos que ele recorresse aos 'serviços' de uma esperta mocinha acostumada aos 'desafios' da vida árdua: a filha de Jondrette. Enquanto uns procuram saber onde encontrar pai e filha, dentro da mansarda dos Jondrette, marido e mulher percebem reconhecer o tal 'filantropo'. E agora também o leitor começa a 'matar a charada'.

Onde devem ter se encontrado o pai e a filha (se forem mesmo pai e filha) e o casal Jondrette? E quem garante que eles se chamam 'Jondrette'? Mas, se forem os Thénardier, então entederemos tudo. A decadência dos mesquinhos taverneiros é até 'compreensível' e até 'merecida'. Ainda que o Narrador queira mostrar que as crianças sofrem com os 'pecados' dos pais. (Por isso, por exemplo, não fomos informados antes do nome da mocinha pobre, Éponine, a filha dos Thénardier).

Mas é assim que os fatos se precipitam: os Jondrette-Thhŕnardier já arquitetam toda uma cilada para capturar o Sr. Leblanc (que supomos ser Valjean, ou Último Fauchelevent). Aqui entra em cena a trupe de marginais, a Patron-Minette, seus vultos sombrios para fazerem o 'trabalho sujo'. Não há qualquer gratidão no meio dessa miséria – toda a bondade do 'benfeitor' é esquecida em nome da cobiça e da vingança. A narrativa novamente vem desnudar o que há de mais sórdido e deplorável: a miséria privando os miseráveis de qualquer diginidade.

Ciente das mesquinharias e más intenções do vizinho, o jovem Marius procura um posto policial, a fim de denunciar o crime anunciado. Ele ainda não sabe que o tal Jondrette é ninguém mais que o tal Thénardier, que teria 'salvado' o seu pai Pontmercy. Então essa coincidência – se é que há coincidências no 'universo' de Os Miseráveis, onde as personagens vivem a 'tropeçar' umas nas outras, de modo que a autoridade policial seja o mesmo Javert que conhecemos – vai gerar todo o dilema (que dificilmente poderíamos condensar aqui) onde Marius deve decidir entre o amor ao pai (e então não denunciar o vizinho) ou o amor a bela Srta desconhecida (e chamar a polícia para livrá-la da armadilha).

A constante relação antagônica miséria X virtude é constante em toda esta parte do extenso romance de Victor-Hugo. Temos os miseráveis que entram em decadência física e moral mas conseguem se 'redemir', enquanto outros afundam cada vez mais na humilhação, degredação, e no crime. Longe de 'determinismos sociais' – mais comuns nas análises ditas 'marxistas' – o Narrador aqui acredita mais na 'força interior' de alguns, como bem descreve em Valjean e Marius, capazes de resistir à auto-destruição na miséria.

Obviamente, Valjean vai escapar de mais uma aventura e particapará de outras, pois ainda temos umas 500 páginas pela frente. A alternância de digressão, descrição (de locais e personagens) e a narrativa propriamente dita permite um movimento 'cíclico' que conduz o leitor ao longo de um labirinto de mil e tantas páginas, nem todas necessárias ou compreensíveis.
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Leonardo de Magalhaens


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notas

(1)O nome completo de Horacio era Quintus Horatius Flaccus, poeta, que escreveu uma carta ao amigo Aristius Fuscus, um erudito, e orador. “Horácio, amigos dos campos, saúda Fuscus, amigo da cidade.”
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Les Miserables – Project Gutenberg
Tomo III
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quarta-feira, 7 de julho de 2010

Os Miseráveis - Parte 3 - Marius (1/2)




Sobre Os Miseráveis (Les Misérables, 1862)
do escritor francês Victor-Hugo (1802-1885)

As Obras Clássicas (ensaio 3)

O Romance Burguês enquanto Epopeia moderna

Parte III - Marius

A Parte Terceira da epopeia moderna Os Miseráveis trata do duelo entre avô e neto. O primeiro é um velho conservador realista (monarquista) que educou o segundo, o neto, na tradição do ancien régime, até que o jovem venho a conhcer a história de seu pai, e tornar-se um neo-revolucionário (nas campanhas pós-Restauração, 1830, 1832, 1848)

O Livro I abre com considerações/ digressões sobre a metrópole pariense, a capital francesa, com suas figuras burguesas, os novos nobres, ou os aristocratas de volta do exílio [na época de Napoleão], que circulam nas fronteiras sempre ampliadas da grande cidade a fagocitar a área rural.

Destaca-se também a figura do 'gamin', ou do gaiato, do vadio, ou mais literário 'flâneur', aquele sujeito desocupado, ou artista, que circula pelas ruas, a colher imagens e odores, impressões e inspirações. O 'gamin' perambula por ruas, passagens, vielas, tropeça nos novos calçamentos, ainda anteriores aqueles que receberam as passadas de um futuro Baudelaire.
“O vadio ama a cidade, ele ama também a solidão, sendo prudente. Amante da cidade [Urbis amator], como Fuscus; amante do campo [ruris amator], como Flaccus” (nota 1)

Vaguear meditativo, diz-se 'flanar', é um bom emprego do tempo para o filósofo; particularmente nessa espécie de campo um pouco bastardo, deveras feio, mas bizarro e composto de duas naturezas, que cerca certas grande cidades, notadamente Paris. Observar os subúrbios é observar o anfíbio.”

("Le gamin aime la ville, il aime aussi la solitude, ayant du sage en lui. Urbis amator, comme Fuscus; ruris amator, comme Flaccus.
Errer songeant, c'est-à-dire flâner, est un bon emploi du temps pour le philosophe; particulièrement dans cette espèce de campagne un peu bâtarde, assez laide, mais bizarre et composée de deux natures, qui entoure certaines grandes villes, notamment Paris.Observer la banlieue, c'est observer l'amphibie
. V, p. 609)

Discontando a 'erudição' clássica romana dos Autor, a imagem é esta mesma: a contraposição campo e cidade. O século 19 se destaca na Europa por este constraste. Stendhal e Balzac elaboraram enredos clássicos com estas diferenças citadinas e campestres. Na literatura portuguesa, temos o clássico de Eça de Queirós, “A Cidade e as Serras” (1901), onde o Zé Fernandes enaltece o campo contra a desumanização da cidade, elogiada por Jacinto de Tormes.
Também as 'fronteiras' entre campo e cidade. O que chamamos 'subúrbio', 'limite da zona rural', onde ocorrem as 'courbações' das grandes cidades em suas regiões metropolitanas. O inchamento das cidades é ironizado na Parte 2 de “O Vermelho e o Negro”, como já comentamos.

Mas voltemos à figura do 'gamin' (futuramente o 'flâneur'). O enciclopédico Narrador não hesita em explicar as origens da terminologia. “Essa palavra 'gamin', foi impressa pela primeira vez e chegou a linguagem popular na forma literária em 1834. Foi num opúsculo intitulado 'Claude Gueux' que essa palavra fez sua aparição. O escândalo foi grande. A palavra sobreviveu.” (Ce mot, gamin, fut imprimé pour la première fois et arriva de la langue populaire dans la langue littéraire en 1834. C'est dans un opuscule intitulé Claude Gueux que ce mot fit son apparition. Le scandale fut vif. Le mot a passé. VII, p. 613)

Claro que podemos notar toda uma admiração pela 'cidade luz' aqui. Mas há um simbolismo: Paris, um microcosmo de um macrocosmo, a cidade grande. Seja London/Londres, seja Berlim, seja a nova San Petersburg, ou a oriental Xangai, ou a norte-americana New York, evidenciam o novo modo de vida, em espaços limitados onde se amontoam seres humanos em busca de oportunidades e riquezas.

“Em suma, para resumir, o vadio é um ser que se distrai, porque é infeliz” (“Somme toute, et pour tout résumer d'un mot, le gamin est un être qui s'amuse, parce qu'il est malheureux.” IX, p. 616)
No mais, dialeticamente, “o vadio expressa Paris, e Paris expressa o mundo” (“Le gamin exprime Paris, et Paris exprime le monde” X, p. 617)
Ou ainda: “Paris é sinônimo de Cosmos” (“Paris est synonyme de Cosmos”, X, p. 620)

Sendo um autor francês, faz sentido a proposição. Paris representa o mundo. Assim entendemos outros microcosmos-macrocosmos. Para Dickens, London é uma amostra do universo, assim como é San Petersburg para Dostoiévski, Rio de Janeiro para Machado de Assis, e Dublin para J. Joyce. No umbigo autoral espelha-se os umbigos de cada leitor. Ainda mais se tratando de um francês. (Os franceses amavam tanto o Autor deles que ocuparam as ruas nos funerais rumo ao Panthéon.)

Meio a exaltação de Paris, o Narrador analisa as espécimes do tipo 'Baudelaire', os flâneurs andarilhos, nobres ou decaídos, burgueses ou camponeses forasteiros, que atravessam a cidade povoada de luzes e promessas. Promessas não cumpridas.

Principalmente para uma família de pobres, os Jondrette, composta de pai, mãe e e duas mocinhas. Seres andrajosos que vivem de explorar a caridade alheia. Onde moram? Por capricho autoral, na mesma 'masure' (pardieiro) Gorbeau – exatíssimo lugar onde Valjean morou no Livro IV da Parte II. Além destes, há o pequeno Gavroche, criança desgarrada, peralta, a vasculhar as ruas, sim, um verdadeiro 'menino de rua' – imagem de um Oliver Twist (de C. Dickens) ou dos 'capitães da areia' (da obra de Jorge Amado). Mas ainda não é o momento de Gavroche reinar.

Livros II e III

Mudando o plano narrativo, temos agora umas 20 páginas de uma digressão sobre os burgueses reacionários, os monarquistas revanchistas. Tudo para apresentar a figura do avô realista, fão do ancien régime, o Monsieur Gillenormand, figura que representa o Antigo.

Em contraponto, a representar a Juventude, temos o neto Marius. Criado na cultura da Restauração, não sabe o que foi exatamente a Revolução de 1789-1799 e o Império Napoleônico (1800-1815). E quando descobrir uma revolução 'pessoal' vai ocorrer.

Quem é o pai de Marius? Temos a descrição do soldado Georges Pontmercy, revolucionário, atuante ns guerras napoleônicas, para a maior glória da França. Sabemos que na Batalha de Waterloo, já oficial, ele comandou um esquadrão da cavalaria, os 'couraceiros'. Foi enobrecido no campo de batalha.

Mas com a Restauração monárquica, Pontmercy perdeu o posto militar e o título de 'Barão'. Pontmercy teve um filho com a mademoiselle Gillenormand (Madame Pontmercy) que é justamente a mãe de Marius, que em 1831/32 vive na comodidade ao lado do avô materrno Sr. Gillenormand, que não teve muita consideração pelo genro. Afinal de contas, para um conservador, um revolucionário só pode ser um 'bandido'. Por isso, o ex-Barão não podia ver o filho Marius.

Claro que esse nome 'Pontmercy' já surgiu antes. O oficial salvo por Thénardier quando roubava o que havia nos bolsos do 'cadáver' meio aos restos da hecatombe bélica. Segundo deslumbramos nas cenais finais da narração épica da Batalha de Waterloo, no Livro I da Parte II.

É aqui evidente uma 'peça de encaixe' nessa narrativa. O mesmo Thénardier que 'cuidou' (isto é, explorou) Cosette, a filha de Fantine éo mesmo que 'salvou' (isto é, saqueou) Pontmercy, o pai de Marius. E tendo Valjean conhecido o drama de Fantine e resgatado Cosette do mercenário Thénardier só falta agora alguma ligação entre os protagonistas e este 'recém-chegado' Marius. Vejamos.

Como já foi escrito, as personagens avô e neto são 'paradigmas' do velho e do novo, do conservador da Restauração e o revolucionário das novas rebeliões (1830, 1832, 1848). Estes papéis são perfeitamente definidos nas 'digressões' sobre os salões parisienses onde se reunem os burgueses monarquistas em constraste com os burgueses liberais, sejam constitucionalistas ou republicanos, em contraponto, por sua vez, com os nobres da Restauração. Ou pelo menos os que sobreviveram ao Terror jacobino.

Nas noitadas do le faubourg Sant-Germain se retrata a dupla face da História francesa do século 19: o monarquismo (dos 'realistas', royaliste) a representar o ancien régime, a França histórica, aquele admirada até pelos Romanov russos; e a revolução (dos 'jacobinos', dos 'republicanos'), que enfrenta o antigo, e é visto como desvio, uma falta, até um contrassenso.

Claro que pode-se apontar incoerências. Seria Napoleão revolucionário? Afinal, ele não derrotou uma nobreza histórica (os Bourbons) apenas para criar outra, a do Império? Uma nobreza para sufocar a outra? Não há espaço para o 'governo popular'? Eis a chamada 'solução bonapartista': um governo forte para tutelar os anseios populares. (No século 20 podemos exemplificar com o populismo, os fascismos, as 'repúblicas populares' mas de regime fechado, autocrático)

Mas em nada disso meditava o aluno Marius, ao receber uma educação 'clássica', formalista, do jeito que desejava o seu avô conservador. A adolescência do neto segue nos 'padrões' até um dia, em 1827, quando o avô recebe uma carta enviada pelo pai do rapaz. O avô avisa ao neto Marius, então com 17 anos, que o moço deve viajar para Vernon, pois assim deseja o pai, adoentado.

Temos uma imagem de Marius: perplexo ao saber que o pai deseja vê-lo, tendo o moço passado toda a sua vida a estimar o avô como o 'verdadeiro' pai. Marius realmente segue em viagem, mas chega muito tarde, 'trop tard', pois o coronel monsieur Pontmercy acaba de morrer com febre cerebral ('fièvre cérébrale') Assim, o jovem Marius vê o pai pela primeira – e última – vez. O moço se emociona, mas não pode dizer a si mesmo que 'amava' o pai – sequer o conhecera. E não qualquer herança para Marius, exceto uma carta breve, onde o pai revela que “o Imperador me fez barão sobre o campo de Waterloo”. Além disso, a carta menciona o 'sargento' Thénardier que teria salvado o coronel-barão em Waterloo. O que foi 'salvo' nunca percebeu que o tal Thénardier cuidou tão-somente em roubá-lo! Eis aqui a ligação com os livros anteriores. O contexto da Batalha de Waterloo e a pilhagem do patife Thénardier.

Tudo realmente começa a mudar no capítulo V (com o irônico título “a utilidade de ir à missa para tornar-se revolucionário”, Utilité d'aller a la messe pour devenir révolutionnaire), quando Marius descobre que ele e o pai ficaram separados por 'opiniões políticas'. No banco da igreja, um velho pede licença para ocupar um assento, e explica ao moço que via sempre ali um pai a observar o filho – do qual não pudia se aproximar – e de repente (o Narrador adora isso: estas relações e coincidências!) o tal 'pai amoroso' é o pai de Marius.

Assim, Marius decide descobrir que pai é este que ele não conheceu. O que há na tal 'Revolução' que levou seu pai a se sacrificar nos campos de batalha. O moço, refinado na educação clássica, decide studar a Revolução, as publicações e relatos, além do “Mémorial de Sainte-Hélène” - a mesma obra que tanto influenciou (ou 'desmiolou') o orgulhoso Julien Sorel em “O Vermelho e o Negro” (Le Rouge et le Noir) de Stendhal. Toda esta pesquisa é para saber quem foi o pai – reconstituir a época e por que o homem juntou-se às tropas napoleônicas. Afinal, seria a Revolução algo realmente 'demoníaco'?

O avô, ao perceber certa mudança no comportamento do rapaz, pensa que o desassossego do neto é devido a alguma 'paixonice' – mas nem desconfia que o objeto de semelhante paixão não é uma 'belle fille', mas o próprio pai do moço! “Era mesmo uma paixão. Marius estava a ponto de adorar seu pai.” (“C'était une passion em effet. Marius était em train d'adorer son père.” VI, p. 659)

Marius sofre então um processo semelhante aquele da 'conversão religiosa', pois desfaz-se de sua 'educação clássica', diga-se, monarquista, e passa a admirar os revolucionários e as façanhas de Napoleão, o Imperador destronado. Uma conversa que segue fases, ora de perplexidade, ora admiração, ora assombro ou até remorso. Neste processo o moço acaba por reabilitar a figura paterna – e reabilita o imperador Napoleão! Afinal de contas, sendo criado na época da Restauração, Marius somente conheceu uma imagem 'desfigurada' do general tão amado e odiado. Veja-se que a Restauração execrava Napoleão ainda mais que a Robespierre. (Aqui lembramos as cenas do salão da nobreza na Parte II de “Le Rouge et le Noir”)

Em suas 'pesquisas', Marius descobre a dimensão heróica da vida, da História. “Ele lia os boletins da Grande Armada (Exército), essas estrofes homéricas escritas sobre o campo de batalha” (“Il lisait les bulletins de la grande armée, ces strophes homériques écrites sur le champ de bataille;” p. 662) Esta percepção do evento histórico 'Revolução' subitamente coloca neto contra avô. Temos então as personagens enquanto 'coletividades': o revolucionário contra o realista (monarquista), no capítulo VIII (Mármore contra granito)

Livro IV

Aqui o leitor conhecerá os amigos do ABC (L'Abaissé, os rebaixados), que declaram “L'Abaissé, c'était le peuple”, isto é, os rebaixados e humilhados são o próprio povo. Estes 'amigos' são revolucionários no sentido de pretenderem 'despertar' o povo para os processos de mudanças. Mas entrre eles, os amigos são um tanto quanto 'peculiares', diferentes entre si. Estes jovens do ABC representam a 'coletividade' dos novos revolucionários – que se rebelam em 1832 e 1848 – contra as monarquias. Estão nas ondas e refluxos das revoluções. O que os pais começaram, os filhos terminam.

Ainda que meio aos revolucionários (como veremos) existam osmais diversos 'tipos'. Há aquele revolucionários e bonapartista ao mesmo tempo, ou o burguês liberal que é monarquista (constitucionalista, entenda-se) enquanto outros são liberais republicanos. Realmente há uma confusão ideológica e partidária (e no século 20 não será diferente!)

Os amigos do ABC são um tanto quanto 'pouco numerosos', são estudantes que desejam 'conscientizar o povo' (nada diferente das vanguardas do século 20, portanto!) ao fazerem alianças com os trabalhadores. Alguns se destacam, nas longas descrições do Narrador (que pretende explicar tudo, como sempre)

Temos o líder Enjolras, um jovem de 22 anos que parece ter 17, a andar charmoso, mas também capaz de ser terrível, no papel de 'soldado da democracia'. Temos o Combeferre, a viver entre a revolução e a filosofia, entre o iluminismo e a civilização. Enquanto Enjolras se referencia em Robespierre, Combeferre se influencia por Condorcet (filósofo francês do século 18, que divulgou muitas das ideias de Voltaire, além de publicar as próprias ideias sobre a constituição para um governo republicano com sufrágio universal, voto para todos). Assim, Enjoras seria mais ação, enquanto Combeferre seria mais pensamento.

Temos Jean Prouvaire, um letrado, quase orientalista, que sabia italiano, latim, grego e hebraico, para ler os poetas Dante, Juvenal, Ésquilo e Isaías. Mas é um erudito 'flâneur', que gosta de perambular e assim meditar. Igual a Enjolras, Prouvaire era de família rica e filho único. Já Feuilly era órfão e trabalhador eventual, que deseja estudar, mesmo que autodidata, para expressar seu patriotismo de fracês e também defender as nacionalidades contra os imperialistas (assim ele condena a 'partilha da Polônia', onde os poloneses são oprimidos pelos prussianos e pelos russos, e igualmente é contra a ocupação austríaca do norte da Itália, dentre outros conflitos da época)

Com o seu desejo de 'Grécia volte a ser Grécia' e 'Itália volte a ser Itália', a persongem até se assmelha ao mito byrônico, sim, ao Lord Byron (assunto de ensaio vindouro) que indignado com a Grécia sob o domínio turco, de fato acabou por lutar ao lado dos gregos e morrer jovem, tal qual outros 'românticos'. Mas morrer por uma 'causa' não parece ser bem o perfil de Courfeyrac, em plena vitalidade (que o Narrador compara a de Tholomyès, o pai não-assumido de Cosette). Este Courfeyrac com sua vitalidade e juventude será um dos 'centros' do grupo, ao reunir os demais jovens.

Outro que aprecia a vida de andança é o Bahorel, um 'homem de caprichos', que mede a grande cidade passo a passo, “Vadiar é humano, flanar é parisiense”(“Errer est humain, flâner est parisien” I, p. 684) Nessas andanças, Bahorel atua como 'ligação' entre os grupo ABC e outros. Temos ainda o Lègle ou Lesgle, ou ainda Bossuet, de 25 anos, pobre, mas bem-humorado, quer ser advogado, enquanto Joly, tem 23 anos e estuda medicina (e é um 'doente imaginário', como explicita o bem-humorado Narrador).

Todos estes jovens, estes amigos do ABC, tem a mesma 'religião': o Progresso. Eram todos filhos diretos da Revolução Francesa. Não importava muito a classe ou a opção política dos pais, os moços eram revolucionários, progressistas. “Afiliados e iniciados, eles esboçaram secretamente o ideal” (“Affiliés et initiés, ils ébauchaient souterrainement l'idéal”, p. 686) Mesmo Grantaire, o cético, o homem que 'se guardava bem de crer em qualquer coisa', a destilar ironia diante dos discursos, tinha um lugar no grupo, ao respeitar e admirar as convicções do líder Enjolras, o idealista.

Ao deixar a casa do avô – e assim o conforto da vida burguesa – Marius conhece Bossuet (que se apresenta como 'L'Aigle', a águia) que o convida para ir ao hotel de Courfeyrac. Há espaço para mais um estudante. Diante deles, Marius se considera um 'democrata-bonapartista', quando Courfeyrac o apresenta aos amigos do ABC, na sala aos fundos do café Musain.

Assim, o antes solitário Marius, dado a monólogos e meditações, agora vê-se diante dos jovens que discutem 'opiniões políticas'. E são justamente estas 'discussões políticas' que despertam o jovem criado em 'educação clássica'. Precisa saber argumentar junto aos jovens reunidos naquela sala dos fundos de um café de boulevard, onde a conversação é um jogo, às vezes passional, entre o silêncio e o tumulto.

Nem todos, no entanto, sentem tanto 'utilidade' no discurso. O cético Grantaire não hesita em citações do Eclesiastes (“tout est vanité”, tudo é vaidade) ou ditos do tipo, “A vida é uma invenção monstruosa de não sei quem” (“La vie est une invention hideuse de je ne sais qui”, V, p. 695) e vem tecer considerações sobre si-mesmo, “É uma pena que eu seja um ignorante, pois eu vos citaria um monte de coisas; mas eu nada sei.” (“C'est domange que je sois un ignorant, car je vous citerais une foule de choses; mais je ne sais rien.” idem)

Grantaire, o iconoclasta, descontrói as ideias de 'virtude', 'grandes homens', 'grandes ideias', 'História', 'glória', 'vitória', pois “tudo a história não é mais que uma longa velha repetição” (“toute l'histoire n'est qu'un long rabâchage”, p. 696) e “eu faço pouco cado da vitória. Nada é tão estúpido quanto vencer; a verdadeira glória é convencer.” (“Je fais peu de cas de la victoire. Rien n'est stupide comme vaincre; la vraie gloire est convaicre.” idem) E continua a desconstruir a 'grandeza das nações', 'o gênero humano', 'povos civilizados', pois ao lado do luxo, sim, lado a lado, convive a miséria.

Aqui o Narrador em tessituras de diálogos tensos e prolixos, que depois serão encontrados no francês Zola, e nos russos Tolstoy e Dostoievski. Tanto em “Germinal”, quanto “Guerra e Paz”, e “Os Possessos” e “Os Irmãos Karamázovi”, há toda uma conjectura que 'usa' as personagens para se manifestar. As pessoas em debate são apenas veiculados para a transmissão dos 'discursos' – as falas ideológicas. Temos os anarquistas, os socialistas, os niilistas, os conservadores, os bonapartistas, etc, todos integrados numa 'voz coletiva' de partidários e poderosos, militantes e fanáticos.

Courfeyrac é antimonarquista sem hesitações. “Um rei é um parasita. Não se tem um rei gratuitamente. Escutem isto: excesso de reis [ou: reis são um excesso]” (“un roi est uns parasite. On n'a pas de roi gratis. Ecoutez ceci: Cherté des rois.” V, p. 700) É contra o absolutismo, e contra o constitucionalismo, uma vez que uma constituição é uma máscara, “une charte est un masque”) Tais discussões – mesmo um tanto confusas – agitam e iluminam o novo senso crítico de Marius.

Napoleão gera discussões. A grande França deve algo ao pequeno Corso? A menção das 'glórias napoleônicas', ou ofensas ao ex-imperador, bastam para despertar um eufórico Marius, acesso em entusiasmo. A História precisa dos 'grandes homens'? Ou dos 'grandes povos'? (Desfilam aqui as 'figuras históricas' de Cesar, Annibal, Maomé, Charlemagne, Cromwell, Newton...) No debate se defrontam um bonapartista (Marius) e um populista (Enjolras).

Na retórica, Marius exalta as 'batalhas gloriosas' (Marengo, Arcole, Austerlitz, Iena, Wagram...), o poder do Império, o Grande Exército, o gênio militar, a vitória. E finaliza, “O que pode ser maior, mais sublime?”, ao que Combeferre responde, “Ser livre”. Pois 'liberdade' é um valor iluminista.

Sim, eis porque os amigos do ABC não louvam o império, mas amam a República. Aquele 'domínio público' prometido pelo ideal de 'Liberdade, Igualdade, Fraternidade'. Enquanto em Marius há uma divisão íntima: como ser revolucionário e bonapartista? Assim Marius se afasta do avô monarquista e dos amigos republicanos... O jovem que abandona o conforto familiar, agora só tem por companhia a pobreza.

continua...
por Leonardo de Magalhaens
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domingo, 27 de junho de 2010

Os Miseráveis - Parte 2 (Cosette)





Sobre Os Miseráveis (Les Misérables, 1862)
do escritor francês Victor-Hugo (1802-1885)
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As Obras Clássicas (ensaio 3)
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O Romance Burguês enquanto Epopeia moderna

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Livro II

As páginas seguintes continua as 'odisseias' do ex-forçado, agora novamente preso, Jean Valjean, que recebe um novo número (9430). Obviamente que os jornais não poderiam deixar de noticiar o fato inusitado : aquela transmutação do boníssimo prefeito, Sr. Madeleine, na figura andrajosa de um 'forçado'. Um homem tão respeitado, empresário de fortuna, agora revela-se um fugitivo? É assombroso. Os trechos dos artigos de imprensa – o Narrador cede lugar a íntegra das 'reportagens' – mostram um certo despeito por parte dos 'burgueses'. Claro, que as 'interpretações políticas' não faltam, a depender se o jornal é 'liberal', ou 'conservador'.
Quem sofreu com a nova prisão? O povo. Ficaram sem prefeito, sem patrão, as oficinas foram fechadas, os operários foram embora, tudo faliu. Então, onde a Justiça? Por que uma lei tão rigorosa que não aceita a 'nova vida' de um ex-prisioneiro? Não é aceita a 'regeneração'? O pecado cometido deve ser eternamente punido? (Basta ver o 'sistema carcerário brasileiro' para pensarmos nestas questões...)

Abrindo um parêntese, em curta narração, temos um mistério nos bosques de Montfermeil – localidade do albergue dos Thénardier, bem lembramos – onde uma figura pode ter enterrado um cofre sob as árvores. Há quem diga que seja o próprio diabo. Há quem tenha procurado o tesouro em vão.

Continuando, temos informações sobre a guerra da Espanha, em abril de 1823, quando a intervenção francesa derrubou o governo liberal [constitucionalista] espanhol e restaurou o Absolutismo. Eis o cenário da Restauração, ao apoiar o 'antigo regime' contra as políticas liberais (na época, o 'liberalismo' era o subversivo! Ainda não havia um movimento pró-socialismo organizado... ) A França sofria a Restauração e impunha o 'conservadorismo' aos demais países – a interferir do mesmo modo que Napoleão interferiu, apenas com outros propósitos políticos.

Em Toulon, a cidade mediterrânea, aliás, onde iniciou-se a ascendente carreira de Napoleão [ no Cerco de Toulon, em 1793], no famoso porto, navios de guerra se movimentam rumo às áreas de combate. A Marinha sempre causou sensação – basta lembrarmos a grande Batalha de Trafalgar, em outubro de 1805, onde o Almirante inglês Nelson derrotou as forças francesas, que ambicionavam invadir as Ilhas Britânicas. [No século 20, foi a vez dos alemães, sob ordens de Hitler, mas foram repelidos pela defesa aérea, a combativa RAF ] Ou ainda antes, a vitória da Marinha britânica, comandada por Francis Drake, corsário e almirante, contra a Grande Armada Espanhola, na Batalha de Gravelines, em julho de 1588, superando os espanhóis nos mares.

Em um dos navios ocorre um acidente. Um marinheiro está ponto de se precipitar ao mar. Um simples cordame, ao qual se agarra, o mantem em frágil equilíbrio. De repente, um forçado, forte, de idade avançada, mas cheio de agilidade e ânimo decidido, se destaca dos demais condenados às galés e ousa se esforçar para salvar o marinheiro. Obtém sucesso, mas, por sua vez, desequilira-se e cai ao mar. Quem era essa homem tão corajoso?

Não foi mais encontrado. Mergulhadores se cansaram em vão. Quem era? O livro de bordo é consultado. Uma notícia é impressa no Jornal de Toulon, “17 de novembro de 1823. Aqui, um forçado, a cumprir pena a bordo do Orion, depois de prestar socorro a um marujo, acabou caindo no mar e se afogou. Não puderam encontrar o cadáver. Presumiram que tenha se prendido nas estacas da ponte do Arsenal. Este homem era registrado sob o número 9430 e se chamava Jean Valjean.” “«17 novembre 1823.--Hier, un forçat, de corvée à bord de l'Orion, em revenant de porter secours à un matelot, est tombé à la mer et s'est noyé. On n'a pu retrouver son cadavre. On présume qu'il se sera engagé sous le pilotis de la pointe de l'Arsenal. Cet homme était écroué sous le nº 9430 et se nommait Jean Valjean.” III, p. 394)
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Livro III
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O drama continua. À qual personagem volta-se o olhar do Narrador? Ao lermos “Montfermeil” lembramos logo da pequena Cosette, a filha de Fantine, aquela moça arruinada, desventurada que acaba morrendo na miséria e na prostituição. A pequena cidade, situada na região de Paris, é palco para o drama da menina que cresceu sem o carinho da mãe, sem a proteção de um pai. A menina que constantemente é explorada, ameaçada, desrespeitada. A personificação da vida desvalida, aqueles seres 'humilhados e ofendidos' tão amargamente descritos por Dostoiévski.

Em Montfermeil o problema da água se resolve com os lagos do bosque, ou com uma fonte, quase nos limites da vila. Assim entende-se que um empregado dedicado ao serviço de 'buscar água' era ali muito requisitado. E na casa dos Thénadier, quando à noite não havia mais serviço do empregado, quem executava a tarefa – árdua e terrificante – de ir buscar água?

“Esse era o terror dessa pobre criatura, que o leitor talvez não tenha esquecido, a pequena Cosette. Lembram-se que a Cosette era útil aos Thénardier de duas maneiras, eles se faziam pagar pela mãe e se faziam servir pela criança.” (“C'était là la terreur de ce pauvre être que le lecteur n'a peut-être pas oublié, de la petite Cosette. On se souvient que Cosette était utile aux Thénardier de deux manières, ils se faisaient payer par la mère et ils se faisaient servir par l'enfant.” I, p. 396 )

Estamos – na narrativa – às vésperas do Natal de 1823, e numa noite fria, gélida mesmo, a pequena Cosette é obrigada a ir ao poço buscar água para os inescrupulosos Thénardier. Sim, os Thénardier que assombram este Romance. Aquela mulher que exalta as filhas – Eponine e Azelma – enquanto humilha a criança da qual devia cuidar, a desprotegida Cosette. E o aproveitador Sr. Thénardier que se vangloria de ter salvo “um general perigosamente ferido” - sabemos que ele antes roubava a vítima, do que salvava – a ponto de batizar seu albergue de “Hospedaria do Sargento de Waterloo” (“cabaret du sergent de Waterloo”)

Sonhando com o conforto e com bem trajadas bonecas, a menina Cosette avança na noite escura e gélida, reconhecida por uma ou outra vizinha, para as quais a menina é sempre a “Cotovia”, “l'Alouette”, até o poço, onde um vulto de homem desliza na sombra. Presenciaremos algum ato de violência?

Quem é o homem? Vemos que ele anda pelo bosque, a apalpar uma ou outra árvore, a conferir se tal ou qual lugar está com a terra revirada. Será o homem que procura o 'tesouro' enterrado? Será aquele que enterrou o 'tesouro'?

Mas parece que o homem quer apenas conversar – e ajudar. Ao levantar o balde d'água, ele pergunta quem é a mãe da criança - “Não tenho mãe. Os outros têm. Mas eu não.” - e qual o seu nome - “Cosette” - e ele então tem um estremecimento. E nós, os leitores, também. Quem mais poderia cumprir a promessa feita a mãe de Cosette? Quem senão o imprevisível, o homem de sete vidas, Jean Valjean? (O Narrador só dirá no fim do capítulo XI, em suposto 'suspense', mas nós, os espertos leitores, já sabemos)

“A figura magra e doentia de Cosette se desenhava vagamente ao brilho lívido do céu. -Como se chama? Disse o homem. -Cosette.
O homem teve quase um choque elétrico. Ele a observou ainda, pois depois tirou suas mãos dos ombros de Cosette, ergueu o balde, e pôs-se a andar.”

La figure maigre et chétive de Cosette se dessinait vaguement à la lueur
livide du ciel.
--Comment t'appelles-tu? dit l'homme.
--Cosette.
L'homme eut comme une secousse électrique. Il la regarda encore, puis il ôta ses mains de dessus les épaules de Cosette, saisit le seau, et se remit à marcher.
(VII, p. 418)

Obviamente os Thénardier não gostam nada de recém-chegado, ainda mais a ajudar a pobre Cosette. O casal pensa que é apenas um pobre das redondezas, mas logo imaginam se não é um homem com dinheiro, pois o viajante paga até o dobro do preço da hospedagem! Como pode ser um pobre se paga o dobro dos demais? Vá entender estes taverneiros!

Mas o Narrador despreza os Thénardier e convence os leitores a fazerem o mesmo. Perplexos e apiedados contemplamos a miséria de Cosette, feia e esquelética, vestida com trapos. Encolhida de medo e indefesa, ela andavapelos cantos, ou debaixo das mesas.

“Este medo era tão grande que ao chegar, toda molhada como estava, Cosette nem ousou ir se secar junto ao fogo e voltou silenciosamente ao seu trabalho.
A expressão do olhar dessa criança de oito anos era habitualmente tão sombria e por vezes tão trágica que parecia, em certos momentos, que ela estava a ponto de tornar-se uma idiota ou um demônio.”

Cette crainte était telle qu'en arrivant, toute mouillée comme elle était, Cosette n'avait pas osé s'aller sécher au feu et s'était remise silencieusement à son travail.
L'expression du regard de cette enfant de huit ans était habituellement si morne et parfois si tragique qu'il semblait, à de certains moments, qu'elle fût en train de devenir une idiote ou un démon.”
VIII, p. 422)

O viajante – e nós leitores não somos ingênuos – só poderá ser alguém que conhecemos, alguém que volta e meia desaparece e reaparece, quem mais senão Jean Valjean? Pois somente ele poderia cumprir a promessa de resgatar a menina das mãos de rapina daqueles Thénardier! Mas o casal vai fazer de tudo para ainda 'ganhar' com esta exploração. O visitante não poupa esforços em tudo fazer para alegrar a pequena Cosette. Oferece moedas reluzentes ao taverneiro, para que deixem a menina brincar. Compra uma boneca nova, a mais bonita, para a menina. Deixa uma moeda de presente na noite de Natal.

O velho Thénardier logo percebe que o hóspede não é nenhum pobretão. Pensa que ele pode estar interessado na menina Cosette, e assim o taverneiro poderá 'vendê-la' por bom preço! O velhaco finge toda uma estima pela órfã, além de todos os 'gastos' para cuidar da pobrezinha – sem mencionar que fazia a menina 'trabalhar pesado' – e passa a falar em 'valores', 'quantias', como se leiloasse um utensílio da casa!

Enquanto isso, Cosette sente, com sua intuição de criança, que o visitante é alguém que dedica-se a melhorar seu destino de misérias! Ela ganhou uma boneca, ganhou uma moeda de ouro! Quem será este forasteiro? Ele que mesmo negocia com o Sr. Thénardier o valor de mil e quinhentos francos para levar a menina. E a Sra. Thénardier acha pouco! O velhaco segue no encalço de Valjean (sabemos que é Valjean!) e Cosette. Ameaça e diz querer a menina de volta! Na verdade, quer mais dinheiro, óbvio.

O novo tutor de Cosette, em pleno caminho no bosque, abre a carteira e tira a carta de Fantine. Em seguida, o viajante apresenta cifras que demonstram o quanto o cidadão taverneiro é um mesquinho desonesto e mercenário! O porte físico do forasteiro humilha a insignificância fisica e moral do taverneiro. Assim Valjean e Cosette se livram do velhaco e seguem caminho. O Narrador decide revelar que trata-se de Jean Valjean – que caiu no mar e não se afogou , segundo pudemos ler no final do Livro II - com até um 'senso de humor', “O número 9430 reaparece e Cosette ganha-o na loteria” (“Le numéro 9430 reparaît, et Cosette le gagne à la loterie”)

No Livro IV, temos a descrição dos arredores de Paris, próximos aos lugares de prisão ou de execução, onde numa casa modesta, de apenas um andar, chamado aqui “pardieiro Gorbeau”, podem descansar Valjean e Cosette, depoias de 'fugirem' das mãos do casal Thénardier. [Nós, leitores, achamos que finalmente nos livramos dos Thénardier, mas isso pode ser um trágico engano...] O Narrador monta o cenário e insere as personagens, o estilo do Autor está aí. Victor-Hugo quer que saibamos – em 1862 – como era Paris em 1823. Sabemos que o Autor se ausentou de Paris, devido a questões políticas, de 1848 a 1870, e neste momento a metrópole sofreu grandes transformações. Foi a chamada “reforma urbana” feita por Haussmann.

Finalmente, o ex-forçado Jean Valjean consegue sentir um afeto por uma criatura humana. Sofrendo um vida de desventuras, o pobre homem nunca pôde se afeiçoar a alguém, não recebeu afeto. Sua família não passava de uma lembrança vaga. Ao adotar a criança, a menina órfã Cosette, ele viu a oportunidade de 'ter uma família', alguém a quem dedicar atenção e carinho. Ele, o velho de 55 anos, seria uma espécie de pai e avô da menina de oito anos. Pois também Cosette não tivera oportunidade de afeiçoar-se a alguém, ela que crescera rejeitada e humilhada.
“A natureza, com cinquenta anos de intervalo, havia criado uma separação profunda entre Jean Valjean e Cosette; esta separação, o destino a preenchera. O destino unia bruscamente e afiança com seu irresistível poder essas duas existências sem raízes, diferentes devido a idade, mas semelhantes devido ao luto. Uma, realmente, completava a outra. O instinto de Cosette procurava um pai assim como o instinto de Jean Valjean buscava uma criança. Ao se encontrarem foi como se encontrassem a si mesmos. No momento misterioso quando suas mãos de tocaram, ele se uniram. Quando suas duas almas se perceberam, eles reconheceram a necessidade um do outro e se abraçaram estreitamente.”

La nature, cinquante ans d'intervalle, avaient mis une séparation profonde entre Jean Valjean et Cosette; cette séparation, la destinée la combla. La destinée unit brusquement et fiança avec son irrésistible puissance ces deux existences déracinées, différentes par l'âge, semblables par le deuil. L'une en effet complétait l'autre. L'instinct de Cosette cherchait un père comme l'instinct de Jean Valjean cherchait un enfant. Se rencontrer, ce fut se trouver. Au moment mystérieux où leurs deux mains se touchèrent, elles se soudèrent. Quand ces deux âmes s'aperçurent, elles se reconnurent comme étant le besoin l'une de l'autre et s'embrassèrent étroitement.” III, p. 462
Valjean precisava de Cosette para continuar um 'bom' cidadão. Afinal, ele sempre fora vítima da sociedade e passara a desprezar as pessoas. Ele vira o destino miserável de Fantine, a rigidez policialesca de Javert, a nova prisão nas galés, a mesquinharia de Thénardier, e não espera nada de 'bom'.

Fez bem em desconfiar, o nosso Valjean. Pois as comadres cochicham, os vizinhos comentam. Quem será aquele forasteiro? E mesmo com os cuidados de Valjean, em tratar bem a todos, em sair mais à noite, em passar em total anonimato. Mas como poderia? A opinião pública é implacável. No mais, há a figura de um mendigo. Ás vezes, não parece ser o 'mesmo' mendigo. Há quem diga que é alguém 'da polícia'. Certa noite, Valjean julga reconhecer na figura cabisbaixa do mendigo, que levanta o olhar po um instante, alguém de outrora. Mas quem? Quem o observava deste modo?

Ele se pergunta se não será o velho 'cão farejador', sim, o agente Javert!
“Com custo ele ousava confessar a si-mesmo que esta figura que acreditava ter visto era a figura de Javert.
De noite, ao refletir, ele se arrependeu de não haver questionado o homem para o forçar a levantar a cabeça uma segunda vez.”
C'est à peine s'il osait s'avouer à lui-même que cette figure qu'il avait cru voir était la figure de Javert.
La nuit, en y réfléchissant, il regretta de n'avoir pas questionné l'homme pour le forcer à lever la tête une seconde fois
.” V, p. 467)

O protagonista desconfia – e com razão – do comportamento da locatária, além de ouvir passos pesados no corredor. Será mesmo um novo inquilino? Melhor não ficar para saber. Novamente temos Valjean em fuga. Uma fuga que se dá numa Paris brumosa de início de século – não a Paris de 1862, quando Victor-Hugo recomeça a escrever “Les Misérables”, como o Autor mesmo se justifica –com lampiões projetando sombras de árvores nos muros de pedras, com pontes estreitas sobre os ruas – imaginemos uma cidade semelhante, o centro histórico de Praga atualmente – e então como poderá o protagonista ver-se livre mais uma vez?

O Autor se refere a uma planta de Paris desenhada em 1727, ou seja, quase um século antes da época da narrativa! Estes anacronismos permitem um texto cheio de referências, como se um mapa aberto possibilitassem coordenadas, e ao mesmo tudo se confunde, como uma cidade existente apenas na imaginação do Autor. [Não temos aqui qualquer acesso a mapas topográficos e urbanísticos de Paris, logo não sabemos qual o sentido de tal descrição minuciosa] Mas o efeito é este: desorientação, desespero, improvisação de fuga, para onde seguirá o robusto e esperto Valjean?

Há um muro. Poderá escalar semelhante paredão? Não há tempo para pensar, pois se eram quatro perseguidores agora é uma patrulha inteira! Valjean arranca uma corda de um lampião e então amarra Cosette junto a si, enquanto prepara a escalada do muro. Não se sabia o qua havia do outro lado... Mas certamente seria melhor que a prisão. Enquanto ele teme Javert, a menina Cosette aterroriza-se com as ameaças da Sra. Thénardier.

Onde estão? Vozes cantam um hino religioso. Também um distinto tinir de um sininho.
“Ele tombou dos terrores quiméricos aos terrores reais. Ele se dizia que Javert e os soldados não teria talvez ido embora, sem que tivessem antes, sem dúvida, deixado na rua alguém em observação, que, se este homem o descobrisse no jardim, ele denunciaria o ladrão, e o entregaria. Ele apertou docemente a Cosette adormecida em seus braços e a carregou para trás de uma pilha de velhos móveis usados, no canto mais obscuro do galpão. Cosette não se mexia.”
Il retomba des terreurs chimériques aux terreurs réelles. Il se dit que Javert et les mouchards n'étaient peut-être pas partis, que sans doute ils avaient laissé dans la rue des gens en observation, que, si cet homme le découvrait dans ce jardin, il crierait au voleur, et le livrerait. Il prit doucement Cosette endormie dans ses bras et la porta derrière un tas de vieux meubles hors d'usage, dans le coin le plus reculé du hangar. Cosette ne remua pas. VIII, p. 490)

Valjean precisa abrigar a pequena criança desacordada, naquela noite fria, e não tem outra solução senão abordar o guarda-noturno que vagueia ao longo do barracão – aquele mesmo homem com um sininho... E – eis uma romance que sabe entrelaçar e unir personagens! - o home é ninguém menos que o velho Fauchelevent, aquele que Valjean-Madeleine salvara de sob a carroça [livro V da Parte I] Lembramos que o velho foi para Paris, trabalhar no Convento de Petit-Picpus. Agora, o ancião poderá retribuir o favor prestado pelo 'prefeito', identidade que é atribuída novamente ao fugitivo Valjean.

E Javert? Como chegou ao 'rastro' de Valjean? Ao procurar o fugitivo Valjean em Paris, e recapturá-lo, Javert foi nomeado para o distrito de Paris. Quando soube da morte do forçado Vajean, no porto de Toulon, em 1823, logo acreditou. Até ler uma outra notícia sobre o rapto de uma criança em Montfermeil. Uma criança de oito anos chamada Cosette, filha de uma Fantine. Ora, justamente o caso que Javert cuidara em Montreuil-sur-Mer!

Seria o homem raptor o próprio Valjean? Mas, o forçado não estava morto?! Javert investigou, mas os Thénardier já haviam mudado a 'versão' de rapto para 'o avô veio buscar a menina'. Assim, a 'pista' se apagou. Até que um certo pobre que dava esmolas desperta a atenção de alguns moradores. Um pobretão e uma menina de 8 anos, vindos de Montfermeil. Então, Javert resolver 'fingir-se de mendigo' para ver de perto o tal 'pobretão'. E tão grande foi a surpresa de Javert quanto a de Valjean. Mas o inspetor ainda não podia acreditar. Tanto que cuidou do caso sem revelar ao departamento de polícia. Queria a façanha somente para si!

“Javert havia solicitado reforços à chefatura, mas ele não dissera o nome do indivíduo que esperava prender. Era o seu segredo; e ele o guardava por três razões: primeiro, porque a mínima indiscrição poderia criar suspeitas em Jean Valjean; segundo, porque prender um velho forçado fugitivo e dado como morto, um condenado que os relatos da justiça classificavam entre os malfeitores da espécie mais perigosa, era um sucesso magnífico que os veteranos da polícia parisiense certamente não deixaria a um novato como Javert, e que ele acreditava que lhe levariam seu forçado; por fim, porque Javert, sendo um artista, tinha o gosto do imprevisto. Ele odiava o sucesso anunciado que murcham ao serem ditos antes da hora. Preferia elaborar suas obras-primas na sombra e depois revelar todas de uma vez.”

Javert avait réclamé main-forte à la préfecture, mais il n'avait pas dit le nom de l'individu qu'il espérait saisir. C'était son secret; et il l'avait gardé pour trois raisons: d'abord, parce que la moindre indiscrétion pouvait donner l'éveil à Jean Valjean; ensuite, parce que mettre la main sur un vieux forçat évadé et réputé mort, sur un condamné que les notes de justice avaient jadis classé à jamais parmi les malfaiteurs de l'espèce la plus dangereuse, c'était un magnifique succès que les anciens de la police parisienne ne laisseraient certainement pas à un nouveau venu comme Javert, et qu'il craignait qu'on ne lui prît son galérien; enfin, parce que Javert, étant un artiste, avait le goût de l'imprévu. Il haïssait ces succès annoncés qu'on déflore en en parlant longtemps d'avance. Il tenait à élaborer ses chefs-d'oeuvre dans l'ombre et à les dévoiler ensuite brusquement.” X, p. 498)

Inusitado o fato do Narrador comparar o severo inspector a um artista. Mas faz sentido. Depois de quase 500 páginas já estamos interessadíssimos em Valjean, e mais interessados em quem se interessa por Valjean : o 'cão-farejador' Javert. Se no início Javert é apenas um 'inspector' de polícia de província, sob uma descrição pré-naturalista [se considerarmos pleno Naturalismo o estilo de um Zola] ao longo das vicissitudes do Romance sua imagem também se alonga, se distende, perde o tom caricatural anterior – em suma, Javert passa a ser importante.

Somente devido a escrúpulos – e medo da imprensa! - o agente Javert não prendeu logo o 'pobretão' com a menina. De repente, fosse mesmo apenas um avô com sua netinha! Assim somente quando teve certeza de reconhecer Valjean, o policial solicitou os reforços. É justamente quando Javert começa sua 'caçada'- a descrição cênica é mesmo uma 'paródia' da caça a raposa! -, distribuindo os soldados e seguindo a sombra de Valjean, trôpego naquele labirinto de ruelas parisienses! [Lembrar que ainda a cidade-luz não passara pela reforma urbana que tanto a modificou...]

Quando Valjean simplesmente sumiu na noite, o inspector estremeceu. “Quando ele chega ao centro da teia, ele não encontra mais a mosca. Imagine-se seu desespero.” (“Quand il arriva au centre de sa toile, il n'y trouva plus la mouche. On imagine son exaspération.” p. 501) Em seguida, o narrador não hesita em 'entrar na história' em digressões/comentários sobre os 'erros' do antagonista: relembra estrategistas históricos (Alexandre, Ciro, César, Napoleão...), o que devia Javert ter feito, onde pecou por imprudência, pois ao divertir-se com a caçada deixou escapar a presa!

“Javert comete todas essas faltas, e não era menos que um dos espiões mais sábios e mais corretos que teriam existido. Ele era, por definição, o que em caça poderia se chamar 'um cão inteligente'. Mas quem é que era perfeito? Os grandes estrategistas têm seus eclipses.”
Javert commit toutes ces fautes, et n'en était pas moins un des espions les plus savants et les plus corrects qui aient existé. Il était, dans toute la force du terme, ce qu'en vńerie on appelle un chien sage. Mais qui est-ce qui est parfait? Les grands stratégistes ont leurs éclipses.” p. 502)

Livros VI e VII

Após despistar o 'cão farejador', o agente Javert, aqui um antagonista tão necessário a Narrativa – tal como em “A Volta ao Mundo em Oitenta Dias” onde é difícil imaginar o enredo sem o agente Fix no encalço do nobre Fogg, ou então, mais atualmente no mundo do HQ, ou comics, a ausência de um Curinga nas atribulações de um Batman... - o protagonista Valjean se instala no convento de Petit-Picpus, onde poderá passar incógnito, a cuidar de sua 'filha adotiva' Cosette.

As digressões do Narrador são esperadas, fazem parte do 'estilo'. Aqui ele narra uma 'possível' história do tal convento, das ordens religiosas de estilo monástico, que nem sabemos se existem, ou existiram, tudo isso para 'criar o cenário', onde pretende movimentar as personagens nas páginas seguintes. Seu assunto aqui é a vida monástica (“vie monacale”).

O importante é que a longa digressão – que compõe os Livros VI e VII – num total de 50 páginas, num estilo enunciativo de 'livro de História' é um exercício de historiador feito pelo Narrador – tanto quanto o Clero (ao situar o Monsenhor Bienvenu) quanto a Waterloo (ao situar o pai de Marius e o velhaco Thénardier, num contexto de derrota nacional). Aqui a 'história' da vida monática, onde as mulheres trocam as alegrias pelas severidades, as diversões pelas solenidade, a futilidade da 'vida mundana' pela obediência, está situada no plano da Restauração – uma vida medieval numa época 'herdeira' das Luzes [Lumières], do Iluminismo [Enlightment], do Esclarecimento [ Aufklärung]

O Liberal saúda a Democracia com sua 'liberdade de crença' contra o niilismo. Mesmos filósofos ditos 'profanos' – pois não ligado à Santa Igreja – tinham suas crenças .
Livro VIII
Assim foi nesse universo religioso solene e disciplinado que 'Valjean caiu do céu', ao fugir do policial Javert, cerca de 50 páginas antes. Lá, com a ajuda do velho Fauchelevent, outrora salvo de ser esmagado sob uma carroça, que o ex-forçado, ex-prefeito, poderá criar a menina Cosette, na 'pureza e na santidade'.

Antes, os dois homens precisam convencer a Madre-superiora, e inventam toda uma história de que o antigo prefeito era irmão de Fauchelevant, assim poderiam 'entrar pela porta da frente' sem despertar suspeitas – o principal para poderem fugir a vigilância obstinada de Javert. Assim é preciso sair num funeral, ser resgatado do túmulo e voltar como parente. (Qualquer semelhante com a 'cena dos coveiros' em “Hamlet” será mero acaso? Qualquer simbolismo com a 'ressurreição dos mortos' será mera coincidência?)

A Narração se caracteriza por uso de longos diálogos, algo de uma dramatização, a explorar a fala provincial, ou as expressões religiosas, meio as dificuldades de adaptação – visto a diferença 'vida mundana' e 'vida monástica'.

Aprovado durante a apresentação, sem dizer uma palavra, Valjean-Madeleine, agora “o outro Fauvent”, como as freiras passam a chamar aquele que apresentado como “o Último Fauchelevant”, ele passará a integrar aquele 'ambiente de beatitude' e verá Cosette crescer – ela será mesmo feia? - e se tornar moça.

“Pois agora Cosette ria.
A figura de Cosette estava até certo ponto mudada. A sombra havia sumido. O riso é o sol; afasta o inverno da face humana.
Cosette, mesmo não bonita, devia ser simpática aos outros. Ela dizia pequenas coisas sensatas com uma doce voz infantil.”

Car maintenant Cosette riait.
La figure de Cosette en était même jusqu'à un certain point changée. Le sombre en avait disparu. Le rire, c'est le soleil; il chasse l'hiver du visage humain.
Cosette, toujours pas jolie, devenait bien charmante d'ailleurs. Elle disait des petites choses raisonnables avec sa douce voix enfantine
.” (IX, p. 597)

O tempo passa, Cosette pode apenas sentir-se livre na clausura, o mundo daquele convento, num canto de Paris. Há agora um momento para se respirar, deixar a vida fluir na tranquilidade. Tudo sem atrair as suspeitas de um policial chamado Javert. Até o próximo volume, a Parte 3 (Marius).


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Continua...


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Leonardo de Magalhaens


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