sexta-feira, 4 de junho de 2010

continua o ensaio sobre Os Miseráveis





Sobre Os Miseráveis (Les Misérables, 1862)
do escritor francês Victor-Hugo (1802-1885)
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As Obras Clássicas (ensaio 3)
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O Romance Burguês enquanto Epopeia moderna

Livro 5 – La descente ( a queda)
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O fato é que a miséria de Fantine ainda terá mais um capítulo. De volta a cidadezinha de Montreuil-sur-Mer, a moça vai encontrar emprego nas oficinas de um próspero patrão, que aliás é também o prefeito. Um homem já idoso chamado afetuosamente por 'le pére Madeleine',

“Era um homem de cerca de cinquenta anos, que tinha o ar preocupado e que era bom, Eis tudo o que se podia dizer.” (“C'était un homme d'environ cinquante ans, qui avait l'air préocupé et qui était bom. Voilà tout ce qu'on em pouvait dire.” II, p. 171)

O pai Madeleine era o empresário, o patrão, compreensivo que só exigia uma coisa – seja um homem honesto, seja uma moça honesta!

Mas quem era esse Madeleine? De onde viera? Qual o seu passado? Morava há cinco anos na cidade, e pouco se sabia. Era próspero, mas solitário. Um patrão a exigir honestidade, e não lucros. Certo dia, em 1821, ele foi visto trajando luto, com ares pesarosos. A notícia nos jornais dizia: morte do bispo de Digne, Monsenhor Myriel, dito Benvindo. Assim, muitos julgaram que o 'pai Madeleine' fosse algum parente do piedoso sacerdote.

Aqui, nós, os leitores, afogados em informações, descrições e digressões, começamos a entender – a encontrar o 'fio de Ariadne' neste labirinto de 900 páginas! O fato é que Madeleine é o Jean Valjean de 50 páginas antes. E porque acompanhamos a vida da alegre e depois desiludida Fantine? Haverá algo a unir as vidas do ex-forçado e a mãe solteira? Nós, leitores, esperamos um caso amoroso, talvez...

Mas Madeleine é um patrão modesto, e discreto, não se envolve com as trabalhadoras (como vários patrões faziam, a transformarem as mulheres pobres em empregadas e concubinas...), assim também evita compromissos políticos. Mas sua prosperidade e fama resulta num convite para assumir a prefeitura da cidade – ele hesita mas acaba por aceitar.

Na chefatura de polícia há uma personagem de excêntrico fanatismo em suas funções, o rigoroso agente Javert, cuja descrição é ao estilo naturalista (aos moldes usados com o casal Thénardier)

“Certos oficiais de polícia têm uma fisionomia distinta e que se complica com um ar de baixeza unida a um ar de autoridade, Javert tinha tal fisionomia, mesno a baixeza. (“Certains officiers de police ont une physionomie à part er qui se complique d'un air de bassesse melé à un air d'autorité. Javert avait cette physionomie, moins la bassesse.” V, p. 181)

“Esse homem era composto de dois sentimentos bem simples, e relativamente bons, mas que se faziam quase prejudiciais devido ao exagero: o respeito a autoridade, o ódio da rebelião; e aos seus olhos o roubo, o assassínio, todos os crimes, nada mais eram do que formas da rebelião.” (“Cet homme était composé de deux sentiments très simples, et relativement très bons, mais qu'il faisait presque mauvais à force de les exagérer: le respect de l'autorité, la haine de la rébellion; et à ses yeux le vol, le meurtre, tous les crimes, n'étaient que des formes de la rébellion.” V, p. 183)

A descrição de Javert tem algo de 'naturalista' que realmente pode ter influenciado a 'estilística' de um Zola (mas aí é dizer que Victor-Hugo é um pré-naturalista?) O Autor aqui não enfatiza um estilo – adequa o estilo ao tipo de personagem (ou ao tipo de efeito que pretende causar no Leitor) Tanto é seu interesse o 'efeito' que 'dá uma pausa' na narrativa para descrever a personagem, fisica e psicologicamente, ou um dado local, como se fosse um 'cenário' – e Victor-Hugo era também dramaturgo – cria e descreve o cenário para então inserir as personagens.

Enquanto o romance na virada dos séculos 19 para o 20, passa a 'fundir tudo', quando o Leitor aprende mais sobre a personagem, ou sobre o local, ao longo da Narrativa. O autor modernista entrega o cenário e as personagens entrelaçados, e o Leitor 'monta' o espetáculo. Assim, o Leitor moderno é convidado a ser co-Autor.

O didatismo de Victor-Hugo é proverbial. Faz uma referência à Batalha de Waterloo, e depois dedica-se, ao longo de 60 páginas, a explicar o que foi a batalha. Refere-se aos esgotos de Paris, e dedica longa digressão a topografia subterrânea da capital francesa...

O 'pére' Madeleine sentia o olhar agudo do agente Javert. E não pôde evitar um colóquio quando de um acidente nas ruas. O acidente com o velho 'pére' Fauchelent, um desafeto de Madeleine. O velho de repente viu-se caído sob as rodas da própria carroça. E quem poderia ajudar? Era preciso suspender a carroça... Javert posicionou-se junto a Madeleine, perplexo diante da impotência geral. O agente somente conhecia uma pessoa com tamanha força para levantar uma carroça, e esta pessoa era um velho forçado. Madeleiene sente o 'olho de falcão' sobre ele, mas não pode deixar de suspender a acarroça e salvar o velho Fauchelevent.

“Javert replicou: 'Só conheci uma vez um homem capaz de substituir uma alavanca. Era um forçado.' -'Ah! Isso me esmaga! Grita o velho.' Madeleine levanta a cabeça, encontra o olho de falcão de Javert sempre sobre ele, observa os camponeses imóveis, e sorri tristemente. Depois, sem dizer uma palavra, se inclina de joelhos, e antes que a multidão tenha tempo de dar um grito, ele estava sob a carroça. Seguiu-se um agônico momento de espera e silêncio.”

Javert reprit:
--Je n'ai jamais connu qu'un homme qui pût remplacer un cric. C'était ce
forçat.
--Ah! voilà que ça m'écrase! cria le vieillard.
Madeleine leva la tête, rencontra l'oeil de faucon de Javert toujours attaché sur lui, regarda les paysans immobiles, et sourit tristement. Puis, sans dire une parole, il tomba à genoux, et avant même que la foule eût eu le temps de jeter un cri, il était sous la voiture.
Il y eut un affreux moment d'attente et de silence.

(VI, p. 187)

Assim, o velho Fauchelevent foi salvo, tratado num hospital e depois foi trabalhar como jardineiro num convento, em Paris. Pensamos: por que tantos detalhes? Por que o Narrador é tão detalhista? Mas guarde o nome do convento – 'couvent de femmes du quartier Saint-Antoine à Paris' – que será essencial (ou providencial) em outro capítulo.

Ficamos sabendo que foi após o incidente narrado que Madeleine aceitou a nomeação para ser o prefeito. Então o agente javert redobra a atenção. Seu 'faro' indica 'presa grande'.

Em seguida, temos a reentrada da personagem Fantine. Boatos sobre o passado da moça ameaçam a nova vida, como empregada em uma das oficianas das empresas do 'père' Madeleine. Uma das colegas, daquelas 'inconvenientes', descobre que Fantine é mãe e não é casada. Uma mãe solteira é motivo de 'deboche'. Assim, Fantine é logo demitida.

A demissão de Fantine acelera a 'queda' daquela bela e modesta moça dos capítulos anteriores. O Narrador capricha na decadência para fazer o Leitor sofrer, ampliar o 'efeito'. Moça singela, iludida, engravidada, abandonada, mãe solteira que abandona a vida parisiense, volta para a província, depois perde o emprego, cai na miséria. E ainda precisa sustentar a 'fome de dinheiro' do casal Thénardier, os 'abutres' do Romance.

“Passou-se um tempo. Fantine já trabalhava há um ano na fábrica, até que um dia a encarregada do ateliê a ela entregou, da parte do Sr. Prefeito, cinquenta francos, e lhe dizia que ela não fazia mais parte do ateliê e se empenhar, segundo o Sr. Prefeito, em deixar a região.
Foi precisamente nesse mesmo mês que o casal Thénardier, após ter pedido doze francos ao invés de seis, vinha exigir quinze francos e não mais doze.”

(“Tout cela prit du temps. Fantine était depuis plus d'un an à la fabrique, lorsqu'un matin la surveillante de l'atelier lui remit, de la part de M. le maire, cinquante francs, en lui disant qu'elle ne faisait plus partie de l'atelier et en l'engageant, de la part de M. le maire, à quitter le pays.
C'était précisément dans ce même mois que les Thénardier, après avoir demandé douze francs au lieu de six, venaient d'exiger quinze francs au lieu de douze
.” VIII, p. 191)

Claro está que o Sr. Prefeito, o pére Madeleine nada sabe da história. Nada sabe sobre a demissão da empregada Fantine, agora condenada à miséria. (Pior que ser explorado, é não ser explorado, é ser desempregado, excluído, marginalizado...) A queda de Fantine se acelera, num processo infernal e doloroso, perde a alegria, perde a filha, perde o emprego, perde a beleza. Tudo porque na província o que não falta é 'maledicência': todos falam da vida de todos. Enquanto em Paris, ao menos, tem-se o anonimato. O 'cada um por si' que abriga os santos e pecadores.

Esta comparação entre metrópole e província, cidade e campo, está em todos os grandes romances do século 19, quando a Europa (e outras partes do mundo) sofriam o processo de urbanização, exôdo rural, industrialização, concentração populacional nas metrópoles, etc, em que, seja em Paris, Londres ou San Petersburg, uma massa de despossuídos aumentava a decadência das cidades. Esta dicotomia está nos romances de Stendhal, de Dickens, de Balzac, de Dostoiévski, de Zola.

Enquanto a miséria envolve a pobre Fantine, os Thénardier exigem mais dinheiro, a ponto da mulher precisar vender os cabelos. E nisso tudo, a Fantine ainda culpa o Sr. Madeleine – que obviamente não sabe da vidas dos empregados. E outra carta dos Thénadier anuncia que a menina Cosette está doente! Então Fantine hesita e hesita, mas acaba por vender os belos dentes. A narrativa é mesmo dolorosa – a miséria é o Protagonista deste Romance.

A miséria fragmenta o psíquico e o corporal, a perda da alegria, da identidade, dos cabelos, dos dentes... E o dramático: Cosette nem estava doente! Trata-se apenas de uma nova artimanha do casal de trapaceiros. (Realmente, este sinistro casal Thénardier consegue projetar uma sombra de abutre por toda a narrativa...) A decadência de Fantine parte a parte é completada com uma vida de prostituição. Ela 'vende o resto', “ a infeliz tornou-se mulher pública.” (“L'infortunée se fit fille publique.” p. 199)

O Narrador apresenta os culpados. O que pretende esta história de Fantine? Que a sociedade aceita outro escravo da miséria. “À fome, ao frio, ao isolamento, ao abandono, ao desnudamento. Uma marcha dolorosa. Uma alma por um pedaço de pão. A miséria oferece, a sociedade aceita.” (“A la faim, au froid, à l'isolement, à l'abandon, au dénûment. Marché douloreux. Une âme pour un morceau de pain. La misère offre, la societé accepte.” p. 199)

Meses depois, o Narrador apresenta uma cena noturna, onde uma mulher prostituída é humilhada por um dândi boêmio. Desta vez, a mulher não se deixou resignar – avançou e golpeou o farrista. E não demorou a chegada das 'autoridades'. E a vítima torna-se a ré. Era Fantine. Diante das autoridades – quem mais além de Javert, severo e implacável? - ela será condeanda. O farrista aproveita-se para fugir.

Novamente, encontramos a 'justiça' punindo a vítima e deixando livre o criminoso. O pobre é culpado pela pobreza, a prostituta é culpada por prostituir. O Narrador tece longas considerações sobre as questões de polícia – ao estilo “vigiar e punir”, a mesma temática re-analisada pelo filósofo Michel Foucault no século 20 – onde a revolta diante da desigualdade social é represada pelo medo-terror diante da autoridade policialesca.

Como poderá a pobre Fantine enviar dinheiro para que os Thénardier? Estes que continuam guardando (ou melhor: explorando) sua filha Cosette. Será uma solução a prisão – por seis meses – da mulher que não passa de uma vítima de sedutores e exploradores? Mas parece que um 'deus ex machina' que vai salvar a vítima, a desabafar suas misérias para ouvidos surdos. Quem ali surge é a figura austera do Sr. Madeleine, o prefeito. Mas ele é justamente quem Fantine considera o 'culpado' por sua miséria! E ele é recebido por uma mulher desfeita que lhe cospe no rosto!

O Sr. Madeleine não altera sua decisão de libertar a mulher. Javert não pode suportar tamanha interferência ao exercício de sua profissão. Ainda, mais que nutre suspeitas de que Madeleine seja aquele ex-forçado, o tal Valjean. Fantine, desesperada, dedica-se a ofender o que se dedica a libertá-la. Parece que Fantine até prefere ser motivo de zombaria – e de tortura! - dos soldados, do que aceitar a ajuda do prefeito! O prefeito que sequer faz queixa do insulto sofrido. Ainda que Javert considere que “não o prefeito quem foi insultado, mas Justiça” (“Je demande pardon à monsieur le maire. Son injure n'est pas à lui, elle est à la justice.” XIII, p.210)

Não é a Justiça que serve aos humanos, mas os humanos que servem à Justiça! Belo policial temos aqui. O 'dever' impõe prender uma vítima da miséria à seis meses de prisão, é o que pensa o inspector Javert. Mas o embate entre os dois homens – ou dois sistemas – é decidido ainda pela 'força da lei', quando Madeleine afirma “Devo lembrar ao senhor o artigo oitenta-e-um da lei de 13 de dezembro de 1799 sobre detenção arbitrária.” (“Je vous rappelle, à vous, l'article quatrevingt-un de la loi du 13 décembre 1799 sur la détention arbitraire.”, p. 210)

Mas a intervenção de Madeleine – em promessas de pagar as dívidas de Fantine, e resgatar sua filha – terá vindo tardiamente. A mulher emocionada, extenuada, cai diante do prefeito, desmaiada. Conduzida a um hospital, ela ardia em febre. Adoentada, Fantine espera que o prefeito possa cumprir a promessa – e finalmente ter Cosette ao seu lado. Madeleine bem que se esforça – envia quantias elevadas para os Thénardier - mas o casal de exploradores não deseja se desfazer de semelhante fonte de dinheiro: Cosette torna-se objeto de negociação. E o tempo passa, Fantine não melhora. Madeleine mesmo precisará buscar a menina.

Mas – estava demorando! - o Narrador provoca uma 'reviravolta' no enredo. Alguma coisa precisava acontecer. Afinal, Javert, humilhado pela autoridade do prefeito, ficaria parado? O próprio inspetor vem denunciar-se diante de Madeleine: Cometi um ato culpável. Um agente inferior que falta ao respeito com um magistrado comete uma to grave. Venho aqui, como é o meu dever, trazer tal fato ao vosso conhecimento. Venho pedir minha destituição. Após aquele cena com a aquela mulher, há seis semanas, quando eu estava furioso, eu o denunciei.”

Voilà! Ai está! Madeleine pode novamente precisar vestir os trapos de Valjean, e aceitar um número no uniforme de forçado! Mas parece que há algo mais! Afinal, por que Javert se deunciaria? O fato é que há outro preso que é acusado de 'ser Jean Valjean'. Então, o prefeito certamente NÃO é Jean Valjean. Daí o 'arrependimento' de Javert! Um tal Champmathieu será julgado, e Javert será testemunha de acusação. E o inspector insiste – quase exige! - que ele, o 'subordinado em falta', deve ser destituído.

“-É que eu devo ser destituído.
O Sr. Madeleine se levanta.
-Javert, sois um homem honrado, e eu vos estimo. Exagerais a vossa falta. Ainda é uma ofensa que me diz respeito. Javert, sois digno de subir e não de descer. Deveis conservar o vosso cargo.”
“-C'est que je dois être destitué.
Madeleine se leva.
-Javert, vous êtes un homme d'honneur, et je vous estime. Vous vous exagérez votre faute. Ceci d'ailleurs est encore une offense qui me concerne. Javert, vous êtes digne de monter et non de descendre. J'entends que vous gardiez votre place
.” II, p. 223)

Mas o severo – até consigo mesmo! - Javert decide permanecer no cargo, até ser substituído.

Percebemos agora o impasse de Madeleine – que é Jean Valjean! “O leitor sem dúvida já adivinhou que o Sr. Madeleine não é outro senão Jean Valjean.” (“Le lecteur a sans doute deviné que M. Madeleine n'est autre que Jean Valjean.” III, p. 233) - quando ele precisa decidir se continua a manter a prosperidade da cidade, e também ajudar a pobre mulher agonizante a recuperar a filhinha, OU se se entrega à Justiça, para livrar o 'falso' Valjean de uma condenação injusta!

“Nós não temos mais que pouco a acrescentar àquilo que o leitor saberia do que aconteceu a Jean Valjean depois da aventura de Petit-Gervais. A partir desse momento, pode-se ver, ele foi um outro homem. O que o bispo tinha desejado dele, ele cumpriu. Foi mais que uma transformação, foi uma transfiguração.”
Nous n'avons que peu de chose à ajouter à ce que le lecteur connaît déjà de ce qui était arrivé à Jean Valjean depuis l'aventure de Petit-Gervais. À partir de ce moment, on l'a vu, il fut un autre homme. Ce que l'évêque avait voulu faire de lui, il l'exécuta. Ce fut plus qu'une transformation, ce fut une transfiguration.” III, p.234)

Agora, Madeleine-Valjean não é aquele 'homem raso' dos primeiros capítulos. É uma consciência profunda da condição humana – ainda mais na exaltação do Narrador. Resumindo: a ânsia do Narrador em se 'aprofundar' na personagem cria um discurso que não é possível imaginar na mente de Madeleine-Valjean. A 'profundidade', e mesmo erudição, aqui é um aspecto do Narrador, não da personagem. ['Descompasso' que os narradores do século 20 vão procurar resolver, com cada personagem exigindo um 'discurso' diverso. Basta ver os vários 'estilos' em “As Ondas” e “Orlando” de Virgina Woolf, e “Retrato do Artista quando Jovem” e “Ulisses” de James Joyce.] O esforço de narrativa recorre até aos 'pensamento soltos' – um protótipo do 'fluxo de consciência' de meio século depois...

“-Onde estou? -Não sonhei isso? O que me contaram? - É mesmo verdade que eu vi este Javert e que ele me disse isso? - Que poderia ser esse Champmathieu? - Então ele se parece comigo? - Será possível? -Quando eu penso que estava tranquilo e longe de me preocupar! - O que eu faria numa hora assim? - O que ele tem a ver com esta questão? - Como se vai se livrar? - O que fazer?
Eis os tormentos ele enfrentava. Sua mente perdia a força de reter ideias, elas passavam como ondas, e ele segurava a cabeça com as duas mãos para a sustentar.”

--Où en suis-je?--Est-ce que je ne rêve pas? Que m'a-t-on dit?--Est-il bien vrai que j'aie vu ce Javert et qu'il m'ait parlé ainsi?--Que peut être ce Champmathieu?--Il me ressemble donc?--Est-ce possible?--Quand je pense qu'hier j'étais si tranquille et si loin de me douter de rien!--Qu'est-ce que je faisais donc hier à pareille heure?--Qu'y a-t-il dans cet incident?--Comment se dénouera-t-il?--Que faire?
Voilà dans quelle tourmente il était. Son cerveau avait perdu la force de retenir ses idées, elles passaient comme des ondes, et il prenait son front dans ses deux mains pour les arrêter.

III, p. 237

Valjean pensa em toda a benfeitoria, pensa na doença de Fantine, na ausência de Cosette, na severidade de Javert, as oportunidades que teve de ser bom cidadão – e agora deverá arriscar tudo para poder livrar um homem de uma falsa acusação? Ele hesita. Outra razão diz que ele deve ser um outro homem, esquecer o passado. Deixar que o outro seja condenado como sendo o perigoso Valjean. Assim, as suspeitas sobre ele, agora Madeleine, cessariam para sempre.

O que ele fará?, nos perguntamos, mergulhados no mesmo sofrimento. O que faríamos se estivéssemos em tal dilema? Depois de uma noite de dúvidas e incertezas, numa paródia do Getsemâni [aqui então Valjean uma espécie de Cristo?!] ao ouvir o chamado do cocheiro, Valjean-Madeleine se levanta, ainda é madrugada, e resolve ir ao julgamento em Arras.

A enferma Fantine, esperançosa, imagina que a viagem do prefeito é para resgatar a pequena Cosette, “Amanhã! Amanhã! Eu verei a minha Cosette, amanhã!” Justamente esta esperança mantem a mulher ainda viva.

Após dificuldades de transporte, Madeleine chega ao tribunal, em Arras, e precisa fazer esforços heróicos para entrar na sala da audiência. O que só é possível quando ele usa o nome do prefeito, “M. Madeleine, maire de Montreuil-sur-mer”. Nome que certamente era famoso, útil para 'abrir portas', como é o caso. Madeleine consegue acesso ao 'aparelho do processo criminal'.

Uma fina ironia do Narrador (e certamente do Autor Victor-Hugo) é a presença de um certo burguês, um dandi, entre os jurados : o nome é Sr. Bamatabois. Pois bem, voltamos algumas páginas, pois o nome não é estranho... voilà! É o mesmo personagem daquela cena patética e trágica que vitimou Fantine (Livro 5, cap. XII) O burguês boêmio que se envolve em brigas com prostitutas agora sentado no banco dos jurados! Essa incoerência – e essa injustiça! - mostra bem o estilo que descreverá o julgamento. Não tem aquele tom dos 'romances anglo-saxões' quando há julamento. O tom é mais do que descritivo-narrativo, é digressivo, há o fato e a opinião do Narrador sobre o fato. Julgamos ter 'acesso' ao fato – mas a 'lente narrativa' a desfocar as imagens. Não podemos levar à sério – nem o evento, nem o Narrador.

Não vamos discutir a cena do julgamento por desconhecermos o sistema judicial francês, ainda mais o de 1823! Mas não é óbvio que Champmathieu não é Jean Valjean. A aparência parece ser idêntica – até antigos forçados dizem reconhecer o ex-prisioneiro, colega de suplícios. O acusado não tem uma defesa muito competente, não tem como provar todos os 'alibis'. Parece mesmo condenado, por mais que se afirme em completa inocência. O que julgam um roubo, foi uma oportunidade aproveitada, não uma invasão de propriedade. Sutilezas à parte, a Justiça não demora em condenar um pobre.

É nesse momento – 20 páginas depois da entrada de Madeleine – que o prefeito se manifesta, prontamente reconhecido pelos cidadãos. O que ele diz? Solicita a atenção dos colegas de outrora – para que o reconheçam. Pois ele é Jean Valjean!

“-Não me reconheceis? Ele disse.
Todos os três demoraram interditos e indicaram por um sinal de cabeça que ele não o reconheciam. Cochepaille intimidado fez uma saudação militar. O Sr. Madeleine voltou-se para os jurados e para a Corte e disse em voz doce:
-Senhores jurados, façam soltar o acusado. Senhor presidente, faça-me prender. O homem que procurais, não é ele, sou eu. Eu sou Jean Valjean.”

--Vous ne me reconnaissez pas? dit-il.
Tous trois demeurèrent interdits et indiquèrent par un signe de tête qu'ils ne le connaissaient point. Cochepaille intimidé fit le salut militaire. M. Madeleine se tourna vers les jurés et vers la cour et dit d'une voix douce:
--Messieurs les jurés, faites relâcher l'accusé. Monsieur le président, faites-moi arrêter. L'homme que vous cherchez, ce n'est pas lui, c'est moi. Je suis Jean Valjean.
XI, p. 294)

De pronto, o assombro total. Como pode o 'honorável prefeito' dizer coisas tão tresloucadas? Há toda uma ruptura na narrativa do julgamento – efeito que muitos outros romances pretendem causar [ainda mais os anglo-saxões!] Mas as provas de Madeleine são irrefutáveis – ao contrário daquelas antes apresentadas no solene tribunal... “Vejam bem, eu sou Jean Valjean”, repete o prefeito, como a dizer eu aquele forçado que vocês odeiam, eu não sou o 'honorável prefeito', eu sou aquele 'número' que fugiu, o que causará toda uma 'desconstrução' da imagem sublime do 'père Madeleine'.

O prefeito abandona a audiência, diz estar 'à disposição da justiça', e retorna para casa. No final, Champmathieu é libertado – a julgar o quanto os homens são loucos (“et Champmathieu, mis em liberté immédiatment, s'en allait stupéfait, croyant tous les hommes fous et ne comprenant rien à cette vision.” p. 297)

O reencontro de Fantine e Cosette – tão esperado pelos leitores – não ocorrerá. Parece que a promessa não poderá ser cumprida. O verdadeiro Valjean precisa se entregar à Justiça. Sequer terá tempo para buscar a menina em Montfermeil. Até porque as garras de Javert estão prontas e próximas – imagine! Deixar um ex-forçado viajar para ir buscar a filha de uma prostituta! - e agora todo o castelo se desmorona. Nenhum 'louvor' a atitude de Madeleine – aliás, agora apenas Valjean – apenas os 'rigores da lei'.

Javert mostra-se contente ao 'cumprir o seu dever' – parece até uma vingança pessoal isso que ele chama de 'dever' – onde a vontade do agora prisioneiro Valjean não tem qualquer valor. Não há mais 'senhor Prefeito', há e haverá sempre a penúria de um forçado nas galés!

-Eu te disse que não há mais nenhum Sr. Madeleine e nenhum Sr. Prefeito. Há um ladrão, há um criminoso, há um forçado chamado Jean Valjean! Ele que eu vou prender! Eis o que há!
--Je te dis qu'il n'y a point de monsieur Madeleine et qu'il n'y a point de monsieur le maire. Il y a un voleur, il y a un brigand, il y a un forçat appelé Jean Valjean! c'est lui que je tiens! voilà ce qu'il y a!
(IV, p. 310)

Todo esta discussão diante de uma mãe doente, uma mulher febril, que somente espera o momento de reencontrar a filha! E toda essa decepção acaba por completar a lenta agonia – o rigor da lei provoca a morte da infeliz Fantine.

Seguem-se algumas proezas. Valjean é preso. Consegue fugir. Resolve algumas pendências. O dinheiro, os bens, o enterro da pobre morta. Logo, Javert pressiona até mesmo as freiras, piedosas e que não mentem. Acabam por recapturar o nosso protagonista.

Todo o bem que 'père' Madeleine fez foi logo esquecido. Toda a prosperidade com as oficinas foi brutalmente interrompida. Empregados foram demitidos. O comércio viu-se prejudicado. Até a assistência aos pobres decaiu.

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continua
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por Leonardo de Magalhaens
http://leoleituraescrita.blogspot.com/

sábado, 29 de maio de 2010

sobre 'Os Miseráveis' de Victor-Hugo (1)






Sobre Os Miseráveis (Les Misérables, 1862)
do escritor francês Victor-Hugo (1802-1885)
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As Obras Clássicas (ensaio 3)
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O Romance Burguês enquanto Epopeia moderna
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O romance enquanto Épico, enquanto uma Epopeia burguesa em prosa, em contraponto ao romântico Eu Lírico, individual, subjetivo, temos um Eu coletivo, uma Classe Social, um Povo, uma Nação.

Um Romance onde seria justo indagar: Quem é o Protagonista? Ou serão inúmeros Protagonista diante de outros inúmeros Antagonistas? Ou tudo uma coleção de Figurantes?

Se em “O Vermelho e o Negro” (“Le Rouge et Le Noir”) e “Crime e Castigo” temos as personagens enquanto indivíduos, psicologicamente definidos, nas personalidades marcantes de Julien Sorel e Raskolnikov, respectivamente; em “Os Miseráveis” e “Guerra e Paz” (Voyna i Mir), de Leon Tolstoy, cada personagem é indivíduo e também 'representação' de um coletivo.

Os Miseráveis é uma daquelas adaptações que nós lemos enquanto infanto-juvenis e depois julgamos 'entender' a Obra. A adaptação, com toda a boa-vontade do mundo, nada mais consegue do que concentrar-se na 'aventura' e esquece as causalidades internas do Enredo. Assim, os textos adaptados acabam por aleijar o contexto, ceifar as digressões, eliminar as opiniões do Narrador.

O Autor Victor-Hugo, que se confunde com o Narrador, idealiza o Leitor como alguém a ser educado. A Literatura, desse modo, seria até 'pedagógica', não sendo apenas 'entretenimento'. Afinal de contas, o romance Os Miseráveis não é divertido, não para 'passar tempo'. É uma obra que exige conhecimentos de História, Antropologia, Criminalística, Sociedade francesa pós-Revolução Burguesa. É um romance para se ler com um Larousse - dicionário e enciclopédia – bem ao lado.

O caso é claro: o Autor quer educar o Leitor. Esse excesso de explicações não é gratuito. Pressupõe que o Leitor não seja uma pessoa bem informada, que precisa receber pormenores sobre a vida francesa, na Modernidade e na História. Há todo um didatismo – tal qual encontramos em Swift e Melville, os autores, respectivamente, de “Viagens de Gulliver” e “Moby Dick”. Deve-se, o efeito, a uma ênfase maior na 'função referencial' (o 'assunto', a 'informação') do que 'poética' (a expressão, a mensagem).

O Eu coletivo

Os romances históricos, épicos, como são exemplos “Os Miseráveis” e “Guerra e Paz” possuem uma estrutura diversa daqueles dos romances líricos, os romances psicológicos, de detalhes individuais, como são os clássicos “O Vermelho e o Negro” e “Morro dos Ventos Uivantes”. Enquantos nos 'psicológicos' são importantes os indivíduos, nos 'épicos' é importante as 'representações coletivas' (por mais individualizadas que sejam as personagens)

Quem é o Eu de Os Miseráveis? Seria o Narrador onisciente e pedagogo? Assim, é justo que muitos perguntem: Quem é o Protagonista de “Guerra e Paz” ? Será o russo nobre? Ou o russo soldado raso? Serão os russos enquanto povo? Serão os franceses enquanto povo? Afinal, cada personagem pode ser 'ela-mesma' e uma 'representação'.

Assim, o indivíduo é individual e coletivo, pois se Jean Valjean é o pobre vitimado pela lei, o inspetor é uma 'corporificação' do rigor da lei – dura lex, sed lex – enquanto o Monsenhor Bienvenu é a 'caridade cristã', e se Fantine é a mulher seduzida e abandonada, Cosette é a criança adotada e humilhada, enquanto Mauro é o jovem idealista.

Até as crianças que aparecem – episodicamente – são representações da miséria. O pobre petit-Gervais e o esperto Gavroche, o filho dos Thénadier, que prefere viver nas ruas, são as 'crianças das ruas', os desafortunados que sofrem duplamente as injustiças humanas. Se o mundo é cruel para os adultos, imaginem então com as crianças...

Este meninos das ruas são aqueles mesmos de “O Príncipe e o Mendigo”, de Mark Twain, ou de “Capitães da Areia”, de Jorge Amado. Geralmente, não individualizados quanto o Oliver Twist, de Charles Dickens. Servem mais como um aviso aos donos do poder: a exclusão gera violência. Os excluídos de hoje podem ser os bandidos de amanhã. Dickens não hesitou em apontar as chagas sociais, “A civilidade que o dinheiro compra raramente se estende àqueles que não o têm”
Nosso objetivo aqui não é detalhar o enredo, a narrativa, de Os Miseráveis, do mesmo modo que dedicamos a leitura de “O Vermelho e o Negro” e “Morro dos Ventos Uivantes”, onde os conflitos interpessoais eram o leitmotiv dos eventos narrados. Nos romances épicos as personagens atuam numa contextualização maior - um drama histórico – e o contexto dificilmente poderia ser 'resumido' – afinal, a História já é um 'resumo' dos 'eventos'. Neste contexto, as personagens são 'marionetes' de 'forças sociais', ao sofrerem a ação de movimentos históricos – revoltas, revoluções, guerras, catástrofes, etc – que determinam as ações/reações dos indivíduos.

Volume 1 – Fantine

O Romance se inicia com um panorama da França na época da Revolução de 1789, as guerras do Império Napoleônico (1804-1814) e a Restauração (1815). É esta – basicamente – a 'linha do tempo' da Narrativa. A realeza e o Clero sofre um desafio da Burguesia e do povo. Há uma sucessão de lutas internas e externas. Uma tentativa de estruturar uma República democrática, mas desestabilizada por partidarismos e ameaças de invasões estrangeiras. Surge um novo líder militar, genial e carismático – Napoleão Bonaparte – que estabelece uma 'nova nobreza' imperial. E após a queda brutal do 'novo César' ocorre a Restauração – a volta da Realeza e do Clero.

O clero é personificado na figura do bispo de Digne, Monsenhor Charles Bienvenu Myriel, ou Monsenhor Benvindo, cuja biografia é um verdadeiro 'retrato de época' – tal qual percebemos nas 'digressões históricas' em “O Vermelho e o Negro” (de Stendhal) – onde há um painel da 'vida eclesiástica', o clero sob o Código Napoleônico, e início da Restauração, em 1815, justamente quando começa a Narrativa.

Sabemos que o atual bispo de Digne, nomeado por Napoleão, é de uma família nobre (noblesse de robe), que foi arruinada durante a Revolução, e ele vive com uma irmã, a piedosa mademoiselle Baptistine, e com uma governanta, a madame Magloire. É reconhecido por ter cedido o palácio do bispo para o hospital – então com vinte e seis leitos – crendo ter feito apenas o 'justo', afinal um palácio tão grande – para 3 pessoas! - e para tantos doentes, um hospital tão reduzido e abafado!
O 'flashback' é para informar o Leitor sobre quem é o Monsenhor Benvindo, que com sua sensível bondade vai atuar sobre o Protagonista do Romance, o ex-forçado Jean Valjean – que somente vai aparecer 80 páginas depois. É um longo trecho que usa anotações, cartas, memórias, como um imenso pré-enredo. Não que a figura do Monsenhor seja medíocre. Ao contrário, ele se destaca por sua humildade e presteza, ao ceder a casa episcopal para o funcionamento do hospital. Esta 'singularidade' do Monsenhor Benvindo é uma forma do Narrador atacar os demais eclesiásticos: seres ambiciosos sob suas batinas de humildade e resignação. Na verdade, o Clero sempre esteve na base do poder do Antigo Regime (ancien règime), ao legitimar o 'poder absoluto dos reis' segundo a 'vontade divina' (“ele é Rei porque Deus assim o deseja”) ou seja, o “direito divino dos reis”.

O Monsenhor Myriel é aquele capaz de lembrar aos nobres que 'existem os meus pobres' enquanto não hesita em pregar um sermão sobre a miséria dos camponeses num sistema de exploração, onde os pobres pagam impostos, enquanto os ricos vivem de renda. Há, claramente um 'tom paternalista' – o padre não é 'revolucionário' – mas ele ao menos ousa mencionar os 'miseráveis', os personagens – a coletividade – que justifica os título do Romance.

Pois bem, em outubro de 1815, parece em Digne um andarilho, que é rejeitado por todos. Nem no albergue consegue estadia. E ele garante ter dinheiro para pagar as despesas – mas é ignorado. Então uma madame aponta uma humilde residência - “lá mora o homem que pode te ajudar” - e é justamente o Bispo. Encontramos o 'humilhado e ofendido' diante da porta do Monsenhor.

O Narrador 'joga uma luz' sobre a personagem, “Este homem, nós já o conhecemos. É o viajante que nós vimos, agora há pouco, perambular a procurar um lugar para dormir.” (“Cet homme, npus le connaisons dejà. C'est le voyager que nous avons vu tout à l'heure errer cherchant un gîte.” III, p. 81) O Monsenhor abriga o andarilho, que finalmente se apresenta, “Eu me chamo Jean Valjean. Sou um forçados nas galés. Passei dezenove anos em trabalhos forçados. Fui liberado depois...” (“Je m'appelle Jean Valjean. Je suis un galérien. J'ai passé dix-neuf ans au bagne. Je suis libré depuis...” pp. 81/82)

Mas o que fez semelhante homem para viver remando durante quase duas décadas? Será um assaltante de estradas? Um assassino? De início o fato não se esclarece, o Narrador deseja mesmo a nossa dúvida enquanto Leitores. O Monsenhor mesmonão se incomoda. Hospitaleiro, convida o viajante a entrar e a se acomodar à mesa de jantar. Jantar humilde, mas digno. Valjean fica perplexo com a cordialidade do Monsenhor, a quem confunde com um 'aubergiste'. Valjean admira-se, pois o religioso não o despreza. Mas aqui o viajante não sabe que está diante de uma 'autoridade da Igreja', um bispo. E quando fala em 'pagamento', o Bispo fala em hospitalidade, “você tem sede e fome, seja bem-vindo”.

Mas o Narrador quer logo elucidar tudo, insere falas anteriores, cartas, notas explicativas. Quem é Jean Valjean? Ele é o pobre que é prontamente punido pelos rigores da lei. Ele é o pobre condenado à pobreza, e quando se rebela, nem que seja roubando um pão, ao morrer de fome, ele é logo enjaulado! Jean Valjean é o homem condenado às galés porque roubou um pão!

Os 'flashbacks' revelam as tragédias na vida de Valjean, suas punições e fugas, e novas punições. Mas estará o Protagonista recuperado após penosa punição? Apesar de todo o sofrimento, o homem ainda é 'tentado' pelo crime. Ainda mais quando percebe os talheres de prata sob a mesa. A prataria e uns candelabros são a única 'vaidade' do Monsenhor, que deseja assim 'honrar o visitante'. Mas Valjean não resiste a cometer um roubo. Noite adentro, ele abre a porta do quarto do bispo, onde contempla o velho a dormir, hesita em golpeá-lo, e acaba por levar a prataria.

No momento do crime, Valjean é golpeado pela culpa, hesita sobre a sua 'falha moral', quando atenta contra a vida do bispo, “Se diria que ele hesitava entre os dois abismos, aquele em que se perde e aquele em que se salva. Parecia estar pronto a quebrar este crânio ou beijar esta mão” (“On eût dit qu'il hésitant entre les deux abîmes, celui où l'on se perd et celui où l'on se sauve. Il semblait prêt à briser ce crâne ou à baiser cette main.” XI, p. 113)

No dia seguinte, é descoberto o roubo da prataria. A criada mostra-se alarmada, “É o homem de ontem a noite que a roubou!”(“C'est homme d'hier soir qui l'a volée!”), “Monsenhor, o homem foi embora! A prataria foi roubada!” (“Monseigneur, l'homme est parti! L'argenterie est volée!”) E logo aparece um grupo a conduzir um vulto cabisbaixo. Ninguém mais que Valjean. “Jean Valjean abre os olhos e olha o venerável bispo com uma expressão de que nenhuma língua humana poderia comunicar.” (“Jean Valjean ouvrit les yeux et regarda le vénérable évêque avec une expression qu'aucune langue humaine ne pourrait rendre.” XII, p. 115)

Mas o Bispo não apenas afirma ter presenteado visitante com a prataria, mas também entrega-lhe dois candelabros de prata (“flambeaux d'argent”). O ex-forçado é golpeado por tamanha bondade, não entende que o Bispo – que Valjean nem sabia ser 'o Bispo' – deseje salvar o resto de 'humanidade' que exista no homem 'humilhado e ofendido'.

“Jean Valjean, meu irmão, não pertenceis mais ao mal, mas ao bem. É a vossa alma que eu vos compro; eu a retiro dos pensamentos sombrios e do espírito de perdição, e eu a entrego a Deus.” (“Jean Valjean, mon frère, vous n'appartenez plus ao mal, mais au bien. C'est votre âme que je vous achète; je la retire aux pensées noites et à l'esprit de perdition, et je la donne à Dieu.” p. 116)

Esta aposta cristã na 'regeneração' de Jean Valjean será válida - e testada – em todo o Romance. Até onde o 'paternalismo' do Bispo terá influenciado as 'virtudes' do ex-forçado? Como poderá o Leitor confiar na 'conversão' do violento prisioneiro em um homem de 'boa vontade'? Afinal, um leitor 'voltaireano' não levria muito à sério esta mensagem 'cristã' de 'deixe o Mal e converta-se ao Bem' (futuramente, um Leitor de Nietzsche até poderia 'saltar' esta parte do livro...)

Na cena seguinte, encontramos Valjean indo embora da cidade, seguindo pelos caminhos, quando encontra um menino pobre, o Petit-Gervais, a pedir uma moeda, mas esta é negada. O protagonista chega até a ser cruel, expulsando a criança. Depois, é golpeado pelo remorso. Há uma luta interior, onde a 'bondade' vem reprovar a crueldade gratuita, “Jean Valjean chora por muito tempo. Chora lágrimas quentes, chora com soluços, com mais abandono que uma mulher, com mais assombro que uma criança.” (“Jean Valjean pleura à chaudes larmes, il pleura à sanglots, avec plus de faiblesse qu'une femme, avec plus d'effroi qu'un enfant.” XIII, p. 124)
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Livro 3 – Ano de 1817

Deixemos Jean Valjean de lado, e encontremos outras personagens. Em plena época de Restauração – após vinte anos de guerras napoleônicas - as ruas de Paris se enchem de jovens esperançosos, que afluem das províncias em busca de trabalho e ascensão social. Muita literatura será feita com estas proezas da 'novas geração', que não sofreu com a Revolução e as guerras. Será a geração retratada por Stendhal, Flaubert, Baudelaire, Balzac, e será os pais daqueles representados em Maupassant e Zola.

Jovens sorridentes, brincalhões não podem deixar de seduzir moças solteiras, moças do povo, humildes e facilmente 'encantadas' com os prazeres da vida na Metrópole. O grupo do jovem Tholomyès chama a atenção de um grupo de jovens criadas, empregadas do comércio ou de casas de família. Esta crônica de seduções serve mais para deixar ao Leitor um grupo da vida parisiense – aos olhos dos miseráveis, aqueles que podem ver o luxo, mas não podem compartilhar do luxo.

O Narrador concentra-se sobre a jovem Fantine – que nomeia este Volume – a protagonista que atrai os olhares de Tholomyès, e é ataída por ele. A beleza modesta de Fantine, com longos cabelos, dentes lustrosos – coisa rara numa época sem serviços odontológicos... - ou seja, uma moça desejável, sem ser mais uma 'cocote' (moça fácil). A pobreza de Fantine é mais um traço do seu 'caráter de vítima'. Se fosse uma filha de burguês, certamente o rapaz não a abandonaria...

De início tudo são encantamentos, mas a realidade pode ser cruel, tudo pode não passar de um 'divertimento' de rapazes. Mas para Fantine aquele homem foi seu primeiro amor, e daquele prazer veio uma consequência que é mais pesada sobre a mulher: a gravidez.

No Livro seguinte, a mãe solteira Fantine abandona a vida pariense, e retorna para a província. Na estrada, junto ao povoado de Montfermeil, ela encontra uma taverna, onde se lê numa tabuleta: “Au sergent de Waterloo” (Ao Sargento de Waterloo), e na plaqueta um desenho a lembrar um homem a carregar outro homem, a representar provavelmente uma batalha. Justamente, a Batalha de Waterloo. (Não demoraremos a receber uma aula completa sobre o assunto...)

Diante da taverna, uma mãe cantorolando para as duas filha. A recém-chegada (que é Fantine) carrega a filha nos braços. A dona da taverna chama-se Sra. Thénardier, e as filhas são Éponine e Azelma, nomes com 'ares clássicos'. Já a viajante sabemos ser Fantine, e sua filha chama-se Cosette.

Preocupada com o futuro da criança – uma filha de mãe solteira! - Fantine resolve deixar Cosette sob os cuidados de uma mãe (ao mesno parece...) tão zelosa. O Sr. Thénadier logo aparece – a exigir pagamento. E pagamento adiantado. Logo saberemos quem são estes Thénardier – que vão certamente 'assombrar' o resto da Narrativa.

As descrições do casal Thénardier têm algo de 'naturalismo', lembram (antecipam?) aquelas de Zola (em “Germinal”) ou de Aluisio Azevedo (em “O Cortiço”), “Esta senhora Thénardier era uma mulher ruiva, magra e angulosa; o tipo mulher-de-soldado em toda a sua desventura. E, coisa bizarra, com um ar lânguido que ela devia às leituras de romances.” (“Cette madame Thénardier était une femme rousse, charnue, anguleuse; le type femme-à-soldat dans toute sa disgrâce. Et, chose bizarre, avec un air penché qu'elle devait à des lectures romanesques.” I, p. 162)

“Esse Thénardier, só fosse mesmo de acreditar, tinha sido soldado; sargento, ele dizia; tinha feito provavelmente a campanha de 1815, e havia até mesmo se comportado bravamente, ao que parece. Nós veremos mais tarde o que ele fizera. O emblema de seu albergue era uma alusão a de seus feitos de armas. Ele mesmo o teria pintado, pois ele sabia fazer um pouco de tudo; mal-feito.”
Ce Thénardier, s'il fallait l'en croire, avait été soldat; sergent,disait-il; il avait fait probablement la campagne de 1815, et s'était même comporté assez bravement, à ce qu'il paraît. Nous verrons plus tard ce qu'il en était. L'enseigne de son cabaret était une allusion à l'un de ses faits d'armes. Il l'avait peinte lui-même, car il savait faire un peu de tout; mal.
p. 166

Por uma pagamento adiantado e um valor de mensalidade, o casal de ambiciosos e exploradores assumem a 'guarda' da pequena Cosette, filha de Fantine. A mãe obviamente quer o bem da filha, e imagina que a menina ficará em 'boas mãos'. Mas engana-se totalmente. Os Thénardier vão 'lucrar' com o pagamento, além de se servirem da criança como uma nova 'empregada'.

Assim, Cosette passa a ser maltratada. “A Sra. Thénardier era cruel para com a Cosette, Eponine e Azelma foram cruéis. As crianças, nessa idade, nada mais são do que exemplares da mãe. O formato é menor, só isto.” (“La Thénardier étant méchante pour Cosette, Eponine et Azelma furent méchantes. Les enfants, à cet âge, ne sont que des exemplaires de la mère. Le format est plus petit, voilà tout.” III, p. 168)

Explorada em serviços domésticos ou obrigada a carregar baldes de água, a filha de Fantine então vai crescer também 'humilhada e ofendida'. Será que a miséria vai mesmo passando de geração a geração? Será que o Narrador só tem a mostrar a miséria humana em 'moto-contínuo'? A menina Cosette é reconhecida como “A Cotovia”, mas é uma cotovia que nem cantava.

“Na região era chamada a Cotovia. O povo, que ama as metáforas, era inclinado a nomear com este nome um pequenino ser pouco maior que uma ave, trêmulo, assustado e arrepiado, despertado primeiro a cada manhã na casa ou na vila, sempre na rua ou nos campos antes da aurora. Somente acontecia que a pobre Cotovia não cantava.” (”Dans le pays on l'appelait l'Alouette. Le peuple, qui aime les figures, s'était plu à nommer de ce nom ce petit être pas plus gros qu'un oiseau, tremblant, effarouché et frissonnant, éveillé le premier chaque matin dans la maison et dans le village, toujours dans la rue ou dans les champs avant l'aube. Seulement la pauvre Alouette ne chantait jamais. III, p.169
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continua...
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abr/mai/10
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por Leonardo de Magalhaens
http://leoleituraescrita.blogspot.com/

sábado, 15 de maio de 2010

sobre O Morro dos Ventos Uivantes - 2 de 2



sobre O Morro dos Ventos Uivantes
(Wuthering Heights, 1847)
da autora britânica Emily Brontë (1818-1848)

O Clássico do Amor enquanto Obsessão

2 de 2

Nessa 'segunda parte' - se dividirmos o romance em antes e depois da fuga de Isabella, e os doze anos até a chegada de Linton – podemos notar um 'crescendo' das descrições sombrias, à medida que a história 'se repete'. São descrições de paisagens mescladas com o 'estado de espírito' das personagens, reavivadas pela narrativa da Nelly, que oscila entre o tom saudosista e o trágico. [Este estilo de 'descrição psicológica' será muito usada no século 20, nas obras de Henry James, Marcel Proust, Virgínia Woolf e Clarice Lispector.]

Quando da visita de sua preocupada prima, Linton diz que seu pai (Heathcliff) gostaria mais do filho, caso ele desposasse Catherine, mas a mocinha não acha que o casamento aproxime as pessoas (“And people hate their wives, sometimes.”) e cita o caso de Heathcliff e Isabella,

“Linton negou que as pessoas odeiam as esposas; mas Cathy afirmou que elas faziam isso, e, no que ela sabia, era exemplo a aversão do tio (pai de Linton) pela tia.” e “Seu pai é um homem cruel', respondeu Catherine. 'e você é mau ao ousar repetir o que ele diz. Ele deve ser muito cruel para que a tia Isabella o abandonasse.”

Linton denied that people ever hated their wives; but Cathy affirmed they did, and, in her wisdom, instanced his own father's aversion to her aunt.” p. 203)
e “'Yours [father] is a wicked man', retorted Catherine; 'and you are very naughty to dare to repeat what he says. He must be wicked to have made Aunt Isabella leave him as she did.”
E Linton contra-ataca: “Sua mãe odiava o seu pai:... e ela amava o meu” (“'Your mother hated your father: ... and she loved mine,' added he.”) Aqui Linton mostra saber do idílio entre Catherine e Heathcliff, nas palavras deste último.

Mas logo temos a cena da reconciliação. A saúde dele depende do afeto dela. A simbiose da paixão – que não pode faltar num romance romântico. Furtivamente, Cathy visita Linton à noite. Ela cavalga pelas campinas rumo à Wuthering Heights.

Segundo a confusa cronologia, os eventos dos caps. XXIII e XXIV aconteceram um ano antes da chegada do Sr. Lockwood. “Estas coisas aconteceram no último inverno, Sr., disse a Sra. Dean; 'não mais que um ano. No último inverno, eu não pensava que ao fim de outro décimo-segundo mês, eu estaria a relatar a um estranho à família fatos relativos a ela.” (“'These things happened last winter, Sir,' said Mrs. Dean; 'hardly more than a year ago. Last winter, I did not think, at another twelve month's end, I should be amusing a stranger to the family with relating them!'” cap. XXV, p. 216)

O jovem Linton, sempre adoentado, envia uma carta ao tio Edgar (pai de Cathy), a lembrar o quanto faria bem a saúde do rapaz as visitas da jovem Cathy, então com 17 anos.

No cap. XXV, a saúde de Linton é tão frágil quanto a do velho Edgar, “ele [Edgar] não tinha ideia de que [Linton] estava mais doente que ele mesmo; e ninguém, eu acho: nenhum médico visitava Heights, e ninguém viu o Sr. Heathcliff dar notícias da saúde do jovem junto a nós [na Granja]”
he [Edgar] had no idea that the latter [Linton] was failing almost as fast as himself; nor had any one, I believe: no doctor visited the Heights, and no one saw Master Heathcliff to make report of his condition among us.” (p. 219)

A doença, a palidez do jovem Linton – a imagem ultra-romântica, até gótica, vampírica, “Ele estava deitado na relva, a esperar nossa chegada, e não se levantou até nos aproximarmos poucos metros. Então ele caminhou com tons febris e aparência pálida, que eu de imediato exclamei – Como você está doente!”
(“He lay on the heath, awaiting our approach, and did not rise till we came within a few yards. Then he walked so feebly, and looked so pale, that I immediately exclaimed – How ill you do look!” pp. 219/220)

Mas Linton não consegue manter qualquer conversa agradável ou sociável com a Srta. Catherine. Agrava-se o estado de saúde do Sr. Edgar Linton, e a jovem Catherine sofre com a doença do pai. Em outra visita, Heathcliff solicita à Srta Cathy que acompanhe o jovem Linton até Heights (após cenas lamurientas de Linton aos pés da Srta ) Linton é cúmplice do pai parar atrair Cathy e Nelly para o Morro dos Ventos Uivantes...

Heathcliff justifica-se diante de Catherine, “Você imaginaria que sou o próprio demônio, Srta Linton, ao provocar tanto horror. Seja gentil e acompanhe-o até a casa, sim? Ele treme todo só de eu segurá-lo.” (“You would imagine I was the devil himself, Miss Linton, to excite such horror. Be so kind as to walk home with him, will you? He shudders if I touch him.” p. 226)

Cathy e Nelly acompanham o jovem Linton. Quando entram em Heights, Heathcliff prontamente tranca a porta! Heathcliff 'oferece' o filho Linton à Srta, que assusta-se. Heathcliff desabafa, “Como ela se assusta! É estranho o quanto me comove quando algo tem medo de mim! Tivesse eu nascido onde leis são menos severas e os gostos menos delicados, eu ousaria uma lenta vivisecção daqueles dois, como se fosse uma diversão de fim de tarde.” (“How she [Srta. Cathy] does stare! It's odd what a savage feeling I have to anything that seems afraid of me! Had I been born where laws are less strict and tastes less dainty, I should treat myself to a slow vivisection of those two, as an evening's amusement.” cap. XXVII, p. 227) Mas Cathy não demonstra medo, “I'm not afraid of you!”

Heathcliff admira-se com a coragem da jovem Cathy, afinal lembra-se que ela é filha da falecida Cathy, que ele jamais esqueceu...”(ele) lembrou-se pela voz e pelo olhar, da pessoa da qual ela (Cathy) herdou ambos”( “reminded by her voice and glance, of the person from whom she inherited it.”)

Linton explica a ação 'indelicada' do pai Heathcliff, “Papai quer que nos casemos. E ele sabe que seu pai não deixaria que nos casássemos agora; e ele teme a minha morte, se nós esperarmos; então nós vamos nos casar amanhã cedo, e você deve passar a noite aqui; e se você fizer o que ele quer, você poderá voltar para casa no dia seguinte, e levar-me junto de você.”
Papa want us to be married. And he knows your papa wouldn't let us marry now; and he's afraid of my dying, if we wait; so we are to be married in the morning, and you are to stay here all night; and if you do as he wishes, you shall return home next day, and take me with you.” cap. XXVII, p. 229

Cathy preocupa-se com a saúde do pai Edgar, e implora para que Heathcliff não seja tão impulsivo, atraindo o ódio de todos.

Linton revela todo o egoísmo incentivado pelo pai Heathcliff. Trata a esposa Cathy com despeito, e espera a morte do tio Edgar – assim será herdeiro da Granja. Nelly impressiona-se que Linton tenha 'esquecido' a ternura de Cathy”

Nelly retorna à Granja sem a Cathy, agora Sra Linton Heathcliff, e encontra o Sr. Edgar no leito de morte – todo um capítulo tecido por tragédias e pesares, luto e melancolia – de repente, Cathy aparece, fugindo de Heights, para rever o pai em agonia. “O desespero de Catherine foi tão silente quanto a alegria de seu pai.” (“Catherine's despair was as silent as her father's joy.” cap. XXXVIII, p. 237)

Belíssima narrativa com concisão e lirismo. Emily Brontë foi também poeta. “Ele morreu em beatitude, Sr. Lockwood: morreu assim. Beijando a filha, ele murmurou: 'Estou indo para junto dela; e você, minha querida, deverá vir para junto de nós.”
He died blissfully, Mr. Lockwood: he died so. Kissing her cheek, he murmured: 'I am going to her ; and you, darling child, shall come to us!” p. 238 ) aqui sabemos que 'her', ela, siginifica a falecida Catherine, mãe da Cathy que agora chora.

A morte do Sr. Edgar Linton é narrada com o sentimento de perda de uma filha. Mas lembramos que a 'narradora' é a criada Nelly Dean, diante do adoentado Sr. Lockwood, cerca de um ano depois dos acontecimentos. São imagens de luto e depressão: a narrativa de Nelly – em muitos pontos – não parece a fala de uma criada, uma doméstica, numa casa de proprietários. Porém, lembramos que o Narrador – quem escreve [não usando o nome de Emily Brontë ou Ellis Bell] é o Sr. Lockwood, que certamente tem mais 'cultura' para 'florear' a narrativa.

Após o funeral de Edgar Linton. Cathy está na Granja, mas Heathcliff exige que ela volte para Heights. Heathcliff deseja alugar a Granja [e será o Sr. Lockwood, o Narrador, o futuro inquilino] Cathy obedece a ordem de Heathcliff, mas para ficar ao lado de Linton.

Heathcliff confessa a Nelly que ele reabriu o túmulo de Catherine – no momento dos funerais de Edgar. E que ele viu novamente a face dela – após 18 anos! “Eu pensava, e permanecia lá: quando vi novamente a face dela – dela mesma – e ele (o coveiro) teve trabalho para me afastar;” (“I thought, once, I would have stayed there: when I saw her face again – it is hers yet – he had work to stir me;” p. 241) e Nelly se horroriza, “Será mesmo um perverso, Sr. Heathcliff! Exclamei, 'não se envergonha de incomodar os mortos?” (“You were very wicked, Mr. Heathcliff!' I exclamed, 'were you not ashamed to disturb the dead?'”)

Será mesmo que Catherine assombra Heathcliff... ou tudo é uma alucinação na mente do senhorio, dominado por amargura, ressentimento e culpa?

No cap. XXX Catherine, a jovem, é a enfermeira do adoentado Linton. Temos aqui o relato da criada Zillah para a criada Nelly, que narra para o Sr. Lockwood que escreve para nós, os leitores de um romance de Emily Brontë!

A criada Zillah diz a Nelly, à respeito dos cuidados de Cathy com o marido agonizante, “I fancy he fretted a great deal, and moaned hisseln night and day; and she had precious little rest: one could guess by her white face and heavy eyes.” p. 244)

O desabafo de Cathy para Heathcliff, “I should feel well – but' she continued, with a bitterness she couldn't conceal, 'you have left me so long to struggle against death alone, that I feel and see only death! I feel like death!” p. 245

Heathcliff é o herdeiro de Linton. Na ausência de Cathy, fugida para a Granja, Heathcliff pressionou o filho para escrever o testemunho. “Heathcliff went up at once, to show her Linton's will. He had bequeathed the whole of his, and what had been her movable property to his father...” p. 245/246)

Hareton procura agradar a viúva Catherine. Mas ela o rejeita. E mais: ela rejeita a companhia e a 'cordialidade' de todos em Wuthering Heights.
“O Sr. Hareton, e todos vocês, é bom que saibam que rejeito toda pretensão de gentileza que vocês com hipocrisia oferecem! Desprezo todos, e nada tenho a dizer a vocês!” (“Mr Hareton, and the whole set of you, will be good enough to understand that I reject any pretence at kindness you have the hipocrisy to offer! I despise you, and will have nothing to say to any of you!" pp. 248/249)

O que Nelly quer dizer o tempo todo – e quase se justifica diante do atento Sr. Lockwood é que Heathcliff corporifica a máxima: 'Aquele que foram cruelmente tratados vão tratar os outros com crueldade.' Heathcliff se vinga por toda a rejeição e humilhação sofrida sob a família Earnshaw e o desprezo da família Linton. Afinal, Catherine não havia preferido a comodidade dos Lintons a declarar a paixão por Heathcliff? Assim finda a narrativa da Sra. Dean, “thus ended Mrs. Dean's story.” cap. XXX)

O Sr. Lockwood consternado com a narrativa – que compartilhou conosco – desiste de ser o inquilino, e decide passar seis meses em London. Ele volta a Wuthering Heights e não encontra o senhorio, mas uma amargurada Cathy, em sua difícil convivência com Hareton. Ela que sequer tem livros ou outra distração.

“Nenhum livro!” exclamei, (...) e ela, “Eu estava sempre lendo, quando tinha livros, e o Sr. Heathcliff nunca lê; e ele cismou de destruir os meus livros.”
'No books!' I exclaimed, (...) 'I was always reading, when I had them,' said Catherine, 'and Mr. Heathcliff never reads; so he look it into his head to destroy my books.”

Para uma leitora tal Emily Brontë, alguém ser privado de livros deve ser a suprema crueldade!
O Sr. Lockwood desabafa, “Que vida triste a desta casa”, “How dreary life gets over in that house!” As pessoas ao contrário de serem solidárias, esforçam-se para se arruinarem uma às outras.)

A própria Emily Brontë parece não ter suportado o 'final' trágico do romance que ela escrevia (ou que escrevia a si mesmo! Em que sentido a autora Emily tinha 'controle' sobre a narrativa?) e resolveu colocar 'as coisas nos eixos', com a reconciliação dos jovens Cathy e Earnshaw. Um ano depois, ela está com 18 anos, e ele com 23. Repete-se com Cathy e Hareton o idílio amoroso de Cathy e Heathcliff, o que ele (Heathcliff) não pode impedir – nem tem forças para evitar.

Sabemos de tudo isso – até da morte de Heathcliff – quando do retorno do Sr. Lockwood, em 1802, que reencontra a criada Nelly Dean no Morro dos Ventos Uivantes. É quando Nelly passa a narrar os dias finais de Heathcliff, assombrado pelas visões de Catherine, e sem forças para impedir a aproximação de Cathy (a filha) e Hareton. Ou seja, o carrasco não consegue finalizar a vingança!

A fraqueza de Heathcliff se evidencia quando sofre o desafio de Cathy, “Você não deveria se incomodar quando eu uso um metro quadrado de terra para um jardim, quando você tomou toda a minha terra!”(“You shouldn't grudge a few yards of earth for me to ornament, when you have taken all my land!” p. 265) e a 'defesa' da jovem Cathy é que ela se parece com a mãe, a Catherine, que assombra os pesadelos – dia e noite – de Heathcliff. Pois, Hareton – apesar de sempre humilhado – mantém-se servo fiel do patrão, em quem ele vê uma espécie de 'padrasto' (hareton que já sofrera com o pai, o sempre bêbado Hindley)

Mas Heathcliff confessa que não tem mais 'vontade' de completar a vingança contra os Earnshaw e os Linton. Ao ver Cathy e Hareton juntos ele não ousa a destruição dos últimos descendentes das famílias! E pensamos: será por amor a Catherine ou porque Cathy (filha) e Hareton lembram a ele a sua jovem paixão de outrora? Ele, Heathcliff, desabafa com Nelly, “Hareton parece a personificação da minha juventude” (“Hareton seemed a personification of my youth”, cap. XXXIII, p. 268)

Heathcliff, em seu delírio derradeiro, não deseja nem médico nem padre, espera o próprio 'paraíso'. “no minister need come; nor need anything be said over me – I tell you I have nearly attained my heaven; and that of others is altogether unvalued and uncoveted by me.” p. 276)

Cercado de amargura e solidão, Heathcliff espera o reencontro com sua Catherine – na morte. Heathcliff, herói byroniano por excelência, morre de paixão, ou assombrado por uma paixão antiga, não exatamente de fome, ou exaustão, ou frio. Ele morre por uma impossiblidade de satisfação ao continuar na vida de carências. O corpo rígiso é encontrado diante da janela aberta, e em sua face úmida de orvalho pode se ver um olhar de exaltação, e até um sorriso final.

“O Sr. Heathcliff estava lá – deitado de costas. Os olhos agudos e violentos, me assustei; e parecia que ele sorria.”(“Mr. Heathcliff was there – laid on his back. His eyes met mine so keen and fierce, I started; and then he seemed to smile.” cap. XXXIV, p. 277)

Enterraram Heathcliff ao lado de Catherine Linton que está ao lado de Edgar Linton – um grupo de três túmulos. Uma imagem de um trágico triângulo amoroso. A bela e selvagem Catherine amada pelo refinado Edgar Linton e pelo rústico Heathcliff, um 'filho adotivo'. Enquanto o povo se assombra com fantasmas – espectros vampíricos de Catherine e Heathcliff – o Sr. Lockwood contempla as lápides no cemitério,

“Procurei e logo descobri as três lápides no cemitério: a do meio era cinzenta, e meio desenterrada: a de Edgar Linton se harmonizava com a grama e o musgo, enquanto a de Heathcliff ainda estava sem vegetação. Contemplei a claridade do céu benigno, o farfalhar dos insetos no campo, a ouvir o vento suave soprando na relva, e pensando como poderia se imaginar um sono inquieto para os que dormiam em terra tão tranquila.”

I sought, and soon discovered, the three headstones on the slope next the
moor: the middle one grey, and half buried in the heath; Edgar Linton's
only harmonized by the turf and moss creeping up its foot; Heathcliff's
still bare.
I lingered round them, under that benign sky: watched the moths
fluttering among the heath and harebells, listened to the soft wind
breathing through the grass, and wondered how any one could ever imagine
unquiet slumbers for the sleepers in that quiet earth.”
p. 279

A narração dos capítulos finais (XXX a XXXIV) seguem uma cronologia ora progressiva ora retrocessos (flashbacks), onde as várias vozes narrativas se encontram, a criada Zillah, a criada Nelly, o próprio Sr. Lockwood. São estruturas de 'encaixe' onde uma voz se refere à outra. As estruturas são basicamente: Lockwood narra; Lockwood narra o que Nelly narrou a ele, e Nelly narra o que Zillah narrou a ela, Nelly. .... Para diferenciá-las, muitas vezes, a Autora recorreu ao uso de falas populares – isto é, o uso de dialeto provincial, quando a personagem é camponês, p.ex., a criada Zillah, o criado Joseph. Muitas vezes é ilegível para nós que conhecemos apenas o english padrão...

Principalmente as narrativas em digressões e justificações de Nelly sobre os atos finais de Heathcliff (caps XXXIII e XXXIV) com sensíveis tons ultra-românticos e até góticos, não são enquadradas exatamente no 'estilo' de uma doméstica. São 'recriações' do Narrador Sr. Lockwood. Este processo vem lembrar por, digamos, paralelismo, o Narrador típico dos contos do autor norte-americano Edgar Allan Poe, que publicou seus contos de terror em 1840, portanto pouco antes da obra de Emily Brontë. O narrador mais cria suspense, mais se explica/se justifica, se dispersa, do que propriamente narra/descreve. Ele arrasta a narrativa, tece comentários, descreve o ambiente, as influências sobre as personagens, se perde em digressões, apenas para criar um efeito sobre o Leitor – insegurança, suspense, medo, terror.

jan – mar/10
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sexta-feira, 7 de maio de 2010

sobre 'O Morro dos Ventos Uivantes' - 1 de 2







sobre O Morro dos Ventos Uivantes
(Wuthering Heights, 1847)
da autora britânica Emily Brontë (1818-1848)

O Clássico do Amor enquanto Obsessão

1 de 2

O Clássico enquanto realidade concentrada em si-mesma tem como característica um certo mundo limitado, com personagens emaranhadas em egoísmos, caídas nas masmorras do solipsismo, sem comunicação possível, às voltas com problemas íntimas, mais do que problemas 'sociais'. Ainda que toda psicologia seja social (o indivíduo vive num coletivo) o Clássico do Romantismo é tão 'psicologista' que faz o/a Leitor/a esquecer o 'mundo lá fora', a não ser quando realmente essencial para a trama.


A ênfase no psiquismo das Personagens tem tanta importância que o social e o descritivo se encontram condicionados aos 'estados de espírito' (ou digamos, humour) das pessoas em conflitos, num ponto de partida que levará aos romances psicológicos do século 20, tais como aqueles de Henry James, Knut Hamsun, Marcel Proust, Virginia Woolf, ou Clarice Lispector. A percepção de que não havia realmente um indivíduo (ou seja indivisível) mas uma 'pluralidade' de reações e até personalidades que se manifestavam numa única pessoa.

Também pode-se fazer uma leitura 'moral' dos romances clássicos do século 19, onde as histórias de excessos, ambição, paixões, adultério, etc, sempre acabam em tragédia. Assim, há toda uma 'moral da história', onde o leitor – e principalmente, a leitora – é aconselhado/a a ser honesto/a, moderado/a, discreto/a, resignado/a, fiel, etc., senão poderá sofrer um fim trágico igual ao do ambicioso Julien Sorel, do vingativo Heathcliff, da infiel Madame Bovary, da apaixonada Anna Karenina, do megalomaníaco Raskolnikov, etc., que viveram 'fora das regras' e pagaram por este 'desvio' com a própria vida.

Pagar com a própria vida é uma 'imagem' forte. Algo de sacrifício por amor – ou por vício. Algo de redenção – morrer em lugar do(s) outro(s). Algo de perder-se em busca de um além (da vida, da realidade, etc). Sofrer de amor e morrer. A paixão avassalacora que ousa contra tudo e incendeia-se, a consumir-se nas próprias chamas. As imagens fortes, os amores pungentes, as personagens passionais – tudo o que se espera de uma obra romântica, ao estilo de Lord Byron: amores não correspondidos, casais obrigados a se separarem, famílias rivais. Ingredientes disponíveis desde “Tristan e Isolda” ou “Romeu e Julieta”.

As imagens em Wuthering Heights são fortes, pungentes, carregadas de uma atmosfera romântica gótica, trêmula sob os ventos uivantes que assombram os recém-chegados. Ou o recém-chegado, o Sr. Lockwood, o novo inquilino. A narração em 1a pessoa, feita pelo Sr. Lockwood, ressalta este efeito. O vento uivante a sacudir as janelas, o clamor da ventania a invadir a casa antiga, no alto do monte. As dimensões das colinas e campinas, a atmosfera em turbulências a humilhar a presença humana. Há um mundo lá fora, com certeza. Mas as descrições são psciológicas – refletem as angústias pessoais, subjetivas.

Sr. Lockwood explica o adjetivo “wuthering” no nome da residência do Sr. Heathcliff, “'soprante'/'uivante' sendo um significativo adjetivo provinciano, a descrever o tumulto atmosférico que nesta estação se apresenta como um tempo tempestuoso.” (“'wuthering' being a significant provincial adjective, descriptive of the atmospheric tumult to which its station is exposed in stormy weather.” cap. I, p. 20)

A descrição minuciosa do casarão de Wuthering Heights cria a atmosfera e o cenário onde ocorreu todo o drama. “Ocorreu”, pois a narrativa aborda um passado que condiciona o sofrimento presente das personagens. Estas têm descrições do caráter e do físico, mente e corpo, de forma direta, como seres num palco. Depois as ações mostrarão que não são exatamente o que parecem – ou demasiadamente o que parecem.

Por exemplo, a descrição física do Sr. Heathcliff : “Ele é um cigano de pele escura na aparência, com modos e vestes de um fidalgo: isto é, tão fidalgo quanto são os muitos proprietários rurais: antes um desleixado, talvez, ainda que não levando a mal a sua negligência, pois ele é uma figura altiva e de boa aparência; e um tanto sombrio.” (“He is a dark-skinned gipsy in aspect, in dress and manners a gentleman: that is, as much a gentleman as many a country squire: rather slovenly, perhaps, yet not looking amiss with his negligence, because he has an erect and handsome figure; and rather morose.” p. 21)

Adjetivos são importantes, aqui. 'slovenly': desleixado, relaxado ; 'morose': deprimente, sombrio ; assim o novo inquilino observa o senhorio da propriedade rural. Ao seu lado, o servo Joseph, um 'cão de guarda' fiel, é 'hale and sinewy', isto é, robusto e vigoroso, e 'well braced', de braços fortes.

A solidão é um 'lugar comum' no ambiente soturno, o próprio narrador (Sr. Lockwood) confessa-se um 'retraído', “Eu confesso com vergonha – retraído friamente em mim-mesmo, tal um caracol; a cada olhar afastado com frieza e mais distante; (...) Por tal curiosa virada de ânimo eu ganhei a reputação de insensível; quão imerecido, em solidão eu posso apreciar.”(“I confess it with shame – shrank icily into myself, like a snail; at every glance retired colder and farther; (...) By this curious turn of disposition I have gained the reputations of deliberate heartlessness; how undeserved, I alone can appreciate” cap. I, p. 21)

O modo de Narrativa não é um detalhe numa Obra deste porte. No modo onisciente, de 3a pessoa, o Narrador saberia demais, e despertaria pouca 'simpatia'. Não que o/a Leitor/a deva 'gostar' do Narrador, mas ter uma relação de 'crença' que não seja apenas condescendência. A Narrativa em 1a pessoa, quando a Voz sofre também nas tessituras do enredo, cria uma 'empatia' maior. Esta Narração em 1a pessoa destaca-se nos exemplos 'góticos' de “Frankenstein”, “Dracula”, e nos contos de E A Poe. (Em breve, um ensaio sobre cada obra...)

A reclusão do Sr. Heathcliff mantida pelos cães nada amistosos, “Não sabemos como receber visitantes”, ele diz. Realmente Heathcliff tem 'cara de poucos amigos' e dá uma lição de misantropia no recluso inquilino. O Sr. Lockwood tece comparações entre ele mesmo e o Sr. Heathcliff quanto ao quesito 'misantropia',”Estou perplexo em quão sociável eu venho me sentir em comparação com ele.” (“It is astonishing how sociable I feel myself compared with him.” cap. I, p. 23)

A Narração – que além de Lockwood – tem outras 'vozes' apresenta outros recursos. Descrições subjetivas, fala rural, imprecações. A fala rústica de Joseph, o criado, vem representar o 'dialeto rural' inglês do século 19. Onde 'nobbut' é 'nobody' ; 'niver mend' é 'nevermind'... Muitas vezes difícil e incompreensível para leitores do english padrão.

Lockwood, logo na primeira visita, encontra a beleza reprimida e o jovem humilhado: Cathy 'the little witch' e Hareton Earnshaw. Ela não é a filha do proprietário, e muito menos ele, Hareton, que não quer ser tratado como se fosse um criado. Estas estranhas personagens vai despertar a curiosidade do novo inquilino e gerar a narrativa – quando ele, Lockwood ouvir os eventos narrados por Nelly, ou que Nelly ouviu narrados por outros criados. É um jogo de 'vozes narrativas' um tanto confuso. E não há Narrador onisciente. Mesmo o Sr. Lockwood se deixa envolver, não se pode confiar nele.

É a própria narração – enroscada na subjetividade – que gera a 'atmosfera gótica', quando Lockwood adentra o casarão e, abrigado no quarto, descobre (entre os livros de Catherine) as notas de diário, com descrição narrativa de cenas do cotidiano. O diário é também uma 'narrativa em 1a pessoa' – e com os mesmos efeitos dos contos de Poe – o que vem gerar os pesadelos depois narrados,

“O que mais poderia ter causado a mim tão terrível noite? Não me lembro de outra que sirva de comparação desde que eu fui capaz de sofrer.”(“What else could it be that made me pass such a terrible night? I don't remember another that I can at all compare with it since I was capable of suffering.” cap. III, p. 34)

O pesadelo de Lockwood com o fantasma de Cathy – o grito atrai a presença soturna do Sr. Heathcliff, “Quem mostrou ao Sr. este quarto?” e o inquilino precisa enfrentar o insociável Sr. Heathcliff irritado com o 'hóspede' (cap. III, p. 39)

Em epigramas, reconhece o Sr. Lockwood, que “um homem sensível deveria encontrar companhia suficiente consigo mesmo” (“A sensible man ought to find sufficient company in himself”)

“Quão variáveis somos!” desabafa o recluso Sr.Lockwood, determinado a evitar o contato social, mas a tentar conversação com a criada, Ellen Dean, que mora há 18 anos na Granja Cruz dos Tordos (Thrushcross Grange) Por qual motivo terá Heathcliff alugado a Granja e decidido morar na Colina dos Morros Uivantes (Wuthering Heights), que é consideravelmente inferior quanto a comodidade?

Mas a criada Nelly, ou Sra. Dean, aconselha o Sr. Lockwood a ficar longe do Sr. Heathcliff, “Áspero igual lâmina de serrote, e duro igual pedra de amolar! O melhor é não lidar com ele.” (“Rough as a saw-edge, and hard as whinstone! The less you meddle with him the better” cap. IV, p. 43)

Podemos comparar a voz narrativa de Lockwood com a moça preceptora no clássico sombrio de Henry James, “The Turn of the Screw” (A Volta do Parafuso), que leva o enredo para o subjetivismo, onde tudo pode não passar de uma ilusão, uma alucinação. A figura de Heathcliff existe para o/a Leitor/a apenas nas falas de Nelly (e de depois carta de Isabella, falas da criada Zillah) e na escrita do Sr. Lockwood. Há todo um filtro de 'subjetividade'.

Desde o início, a chegada de Heathcliff causa desequilíbrio na família Earnshaw – os filhos Hindley (14 a) e Cathy (10 a) passam a disputar o afeto dos pais.

Com a morte do Sr. Earnshaw, Hindley – que sempre odiou Heathcliff – passa a humilhar o 'filho adotivo' explicitamente, o que gera todo o rancor de Heathcliff, que vai crescer com dureza de coração e profunda amargura, “ele cresceu amargurado a remoer as injúrias” (“he grew bitter with brooding over these injuries” p. 46) Assim Heathcliff não era grato ao pai adotivo, era um menino insensível, “he was not insolent tho his benefactor, he was simply insensible.” (p. 47)

Quando Nelly descreve a menina Cathy, curiosa quanto ao novo menino na família, os adjetivos apresentam uma criança inquieta, em travessuras, falando, cantando, praguejando, mas com olhos acessos, sorriso amável, ágil e desafiadora. E muito afeiçoada a Heathcliff. (“She was much too fond of Heathcliff. The greatest punishment we could invent for her was to keep her separate from him: yet she got chided more than any of us on his account.” cap. V, p. 49)

No cap. VI quando o Sr. Earnshaw morre (dois ? três? anos após a adoção de Heathcliff) o jovem Hindley (18 a ?) volta para casa, com uma 'esposa', Frances (união que o pai certamente não teria aprovado...) Jovem, complexada, cheia de temores. Percebe-se que Nelly não se simpatiza com a recém-chegada. “Nós, em geral, não toleramos estranhos aqui, a menos que eles nos tolerem primeiro.” (“We don't in general take to foreigness here, Mr. Lockwood, unless they take to us first.” cap. VI, p. 51)

Hindley não hesita em rebaixar Heathcliff à serviçal. E Heathcliff tolera tudo, pois tem Cathy ao seu lado. Prometem ser obstinados e selvagens. Sofrem, mas se consolam juntos. (“Heathcliff bore his degradation pretty well at first, because Cathy taught him what she learnt, and worked or played with him in the fields. They both promised fair to grow up as rude as savages;” cap. VI, p. 52)

Surge a primeira referência à Thrushcross Grange, Granja Cruz dos Tordos, a residência dos Linton (a mesma mansão alugada ao Sr. Lockwood, a ouvir a narração de Nelly) É ali que Cathy e Heathcliff encontram os irmãos Edgar e Isabella. Crianças comportadas e mimadas, totalmente diversos dos 'rústicos' habitantes do Morro dos Ventos Uivantes. Heathcliff admira o estilo de vida menos opressivo dos Linton. Mas não significa que sinta inveja dos Linton!

Os Lintons se assustam ao reconhecerem Cathy correndo pelos campos em companhia de um 'cigano'. Acolhem a moça, mas expulsam o 'adotado'. O mundo dos 'bem nascidos' a excluir, a segregar – e depois sofrerá as consequências! Quem pratica violência se arrisca a sofrer violência.

Com o tempo, Cathy a conviver mais com os Lintons, numa atmosfera mais 'refinada' do que aquela de Wuthering Heights, seu modo de viver se modifica. Cathy aceita a paixão de Edgar Linton e assim magoa o irascível Heathcliff. Mas Cathy não sabe ser feliz: teme a felicidade! Imagina-se 'feliz' com Edgar – vida cômoda, normal, etc – e teme justamente esta vida! Cathy quer o romantismo selvagem dos ventos uivantes.

Para Cathy o inquieto Heathcliff é sua 'alma gêmea' – a parte indomada que poderá trair o marido. Mas ao ouvir – de forma sorrateira – a conversa de Cathy e Nelly, na qual se decide pelo casamento com Edgar, o atordoado Heathcliff imediatamente abandona Wuthering Heights.

No cap. X o Sr. Lockwood está doente, e chama Nelly para continuar a triste história da família de Wuthering Heights. A narrativa prossegue, com um tom ressentido por parte da criada. “Bem, nessa travessia contamos é conosco mesmos. Os bons e generosos são apenas mais egoístas que os que dominam.” (“Well, we must be for ourselves in the long run; the mild and generous are only more justly selfish than the domineering;” p. 89) Mesmo os 'mocinhos' são difíceis de admirar. Nelly descreve o egoísmo da vida íntima de Catherine e Edgar. [Assim são os gentleman! Vinte e quatro horas observados e invejados por seus serviçais!]

Heathcliff retorna depois de 3 anos. Distinto e civilizado – e de tal forma que até surpreende o 'gentleman' Linton. Heathcliff retorna, aluga um quarto em Wuthering Heights, empresta dinheiro a Hindley (cada vez mais arruinado) e continua a visitar Catherine. Ao mesmo tempo, Isabella, a irmão de Edgar, sente-se atraída pelo excêntrico visitante. Catherine avisa à Isabella, e pede ajuda a Nelly, “Diga a ela o que Heathcliff é: uma criatura não regenerada, sem fineza, sem educação: um ermo árido de ervas daninhas e pedrs cortantes.”(“Tell her what Heathcliff is: an unreclaimed creature, without refinement, without cultivation: an arid wilderness of furze and whinstone.” cap. X, p. 97) Sabendo da paixão de Isabella, o ambicioso Heathcliff já arquiteta planos para seduzir a herdeira dos Linton, enquanto Nelly desconfia e pressente o 'pesadelo': a vingança do humilhado 'filho adotivo'.

A Narrativa de Wuthering Heights mostra uma variedade interessante de 'mise en scene', onde temos a Voz Narrativa do Sr. Lockewood a reproduzir a Voz narrativa de Nelly Dean, que por sua vez reproduz as Vozes narrativas de Cathy, Heathcliff e Isabella. Não temos um Narrador 'confiável', que tudo sabe, mas 'testemunhas oculares' (tanto Nelly quanto Isabela) que são registradas pelas notas do Sr, Lockwood, o 'Narrador-mor'.

Então, se temos uma carta de Isabella, o esquema básico seria: a carta dentro da narrativa de Nelly, por sua vez dentro da narrativa/escrita do Sr. Lockwood. Não temos a carta de Isabella diante dos olhos, mas o relato de um relato, o que o Sr. Lockwood lembra do que Nelly lembra da carta lida.

Nelly lembra que a 'estória' é longa (p. 139) E é triste, “My history is dree”, ao que Lockwood responde, “Dree, and dreary!”

No cap. XIV Heathcliff ironiza a paixão/idealização de Isabella, que fugiu com ele, “Isabella tinha a louca ideia de que eu era herói de romance ('hero of romance', p. 135) A Srta. Isabella não quer acreditar que Heathcliff seja 'mau' e vingativo como todos afirmam. E se revolta contra os conselhos de Nelly. “Quanta maldade sua em querer me convencer de que não há felicidade no mundo!” (“What malevolence you must have to wish to convince me that there is no happiness in the world!” cap. X, p. 99) [O que a leitura não causava de dano às pobres mocinhas do século 19! Hoje em dia são os filmes piegas, os romances apimentados e as novelas globais!]

Depois da fuga, Isabella percebe o quanto foi enganado pelo 'heróico' Heathcliff. E escreve uma longa carta para a Srta. Dean. Quanta diferença no 'tom', nada mais de desafio, apenas lamúrias.
“Será o Sr. Heathcliff um homem? Se sim, ele é louco? E se não, ele é um demônio? Eu não direi as razões das perguntas; mas, eu te imploro para que explique, se puder, com o que eu casei (...)”
Is Mr. Heathcliff a man? If so, is he mad? And if not, is he a devil? I shan't tell my reasons for making this inquiry; but, I beseech you to explain, if you can, what I have married (...)” cap. XIII, p. 124)

Isabella realmente não acreditava na maldade de Heathcliff, visto que ela se deixou levar por uma 'idealização' do 'mocinho' – então, depois das expectativas frustradas, ela se arrepende de haver fugido com o 'vilão'. O próprio Heathcliff não hesita em ironizar a 'mocinha ingênua', “Ela me imaginava como um herói de romance”, só não diz quais romances. Ele seria facilmente identificado com um personagem byroniano, muitas vezes 'anti-herói', tal um Don Juan...

“Ela abandonou a todos devido a um ilusão,” ele respondeu; “de imaginar em mim um herói de romance, e esperar ilimitadas indulgências de minha devoção de cavalheiro.”
She abandoned them under a delusion,” he answered; “picturing in me a hero of romance, and expecting unlimited indulgences from my chivalrous devotion.” (cap. XIV, p. 135)

Interessante que o simples fato de surgir este 'hero of romance' na fala de Heathcliff explicita a presença da Metalinguagem. Afinal, estamos lendo um Romance onde Heathcliff é o (anti)herói! A leitura de outros romances influenciam as personagens de um romance – que o/a Leitor/a precisa julgar 'reais', esquecer que não passam de 'heróis de romance'! Um romance criado a partir das leituras de romances? Certamente, visto a precocidade da Autora Emily Brontë, que certamente não teve experiência de vida para 'vivenciar' ou 'presenciar' eventos semelhantes, para registrar ou se inspirar.

As tragédias se sucedem, com as brigas de Heathcliff e Edgar por causa de Cathy e Isabella, depois, já adoentada, Catherine recebe a notícia da 'fuga' de Isabella com o Sr. Heathcliff (muito interessado na herança da Miss Linton...) Mas a 'fuga' dura muito pouco. Heathcliff – dois meses depois – volta à Wuthering Heights – e deseja rever Catherine. Ele não hesita em pressionar a criada Nelly (a mesma que narra tudo ao Sr. Lockwood) para que ela possa 'facilitar o acesso' à mansão dos Lintons.

Impulsivo, Heathcliff invade os aposentos de Cathy, e enfrenta os ressentimentos dela. Heathcliff insiste que ela 'se matou' ao desprezar o 'amor' que prometiam eternamente um ao outro.
Ouvindo semelhante sucessão de tragédias, o Sr. Lockwood se impressiona com a longa e sofrida narrativa da decadência das famílias Earnshaw e Linton. Ellen diz que a história é 'dree', i.e., terrível, desoladora, tenebrosa, e o Sr. Lockwood concorda, “Tenebrosa, e assustadora!”
My history is dree, as we say, and will serve to while away another morning.”
Dree, and dreary! I reflected as the good woman descended to receive the doctor; and not exactly of the kind which I should have chose to amuse me.” (cap. XIV, p. 139)

O Sr. Lockwood pode até achar a história 'nada divertida', mas não hesita em escrevê-la, a partir das narrativas de Elle – é uma narrativa sempre dentro da outra, e tudo sob o pseudônimo 'Ellis Bell', usado pela Autora Emily Brontë.

Ainda mergulhada na demência, Cathy vem a morrer, o que precipita o irascível Heathcliff num furor apaixonado contra o céu e a terra. É a invocação ultra-romântica e gótica do Amante que perde o ser amado – e até deseja que a morta venha assombrar sua morada, o Morro dos Ventos Uivantes. (A partir do ultra-romantismo, do 'sentimento gótico' seguiu-se a estruturação do Romance de Terror, segundo ainda veremos)

Mas ele sabe que pouco antes de morrer Cathy dera à luz a menina Catherine (a mesma que o Sr. Lockwood encontra nas primeiras cenas do romance)

Isabella não acredita que os mortos voltam do túmulo. Senão Cathy poderia testemunhar a trágica cena da luta entre Heathcliff e Hindley, “É bom que as pessoas realmente não se levantam de seus túmulos, ou, na noite passada, ela [Cathy] teria testemunhado um cena repulsiva!” (“It's well people don1t really rise from their graves, or, last night, she might have witnessed a repulsive scene!” (cap. XVII, p. 158)

As personagens se percebem numa rede trágica tecida desde a chegada de Heathcliff.
"At the Grange, every one knows your sister would have been living now
had it not been for Mr. Heathcliff. After all, it is preferable to be
hated than loved by him. When I recollect how happy we were--how happy
Catherine was before he came--I'm fit to curse the day
." (cap. XVII, p. 159)

Assim, Isabella desabafa ao Sr. Hindley Earnshaw, e em seguida é expulsa pelo irado Heathcliff, “Suma da minha frente!” (“Get up, and begone out of my sight!”) Então, Isabella acaba por fugir rumo a Granja da Cruz dos Tordos, onde Nelly a recebe, a ouvir toda a narrativa que acabamos de ler. A Sra. Dean se assusta com a tentativa frustrada de Hindley de assassinar Heathcliff.

Isabella não permanece na Granja, pois ainda teme uma visita de Heathcliff. Então ela resolve se mudar para o sul, próximo a London, onde vai nascer o filho, chamado de Linton. Sabemos depois que Isabella morre quando o filho já é um rapaz de 12 anos.

Após a morte de Hindly Earnshaw, aos 27 anos, devido a bebida e a amargura, Heathcliff vinga-se sobre o orfão Hareton, filho de Hindley e Frances, o último dos Earnshaw. No final do cap. XVII, o advogado do Sr. Linton declara, “Hareton seria pouco mais que um mendigo.” (“Hareton would be found little else than a beggar.” p. 163)

Enquanto isso, na Granja (Thrushcross Grange) passam-se doze anos sem sobressaltos – Edgar Linton cuida da filha Catherine, a única a trazer um raio de sol à casa desolada (“She was the most winning thing that ever brought sunshine into a desolate house.” cap. XVIII, p. 165) Isabella escreve a Edgar Linton, a solicitar que o irmão cuide do menino Linton, também filho de Heathcliff.

Quando Edgar vai visitar a irmã Isabella, numa visita que dura três semanas, a menina Catherine ultrapassa os limites da Granja e vai até o Morro dos Ventos Uivantes. E a mocinha conhce Hareton, então com dezoito anos. Ele detesta ser tratado como se fosse um servo, ou criado, tendo crescido tão ressentido quanto Heathcliff cresceu! Não que o rapaz sofresse maus tratos fisicamente, mas era tratado como um doméstico, não sabendo ler nem escrever. Enquanto, na Granja dos Lintons, Catherine era sempre mimada e adulada, jamais estaria preparada para o rancor de Hareton. Ela se ofende com a grosseria do rapaz – que dizem ser primo dela. Mas, a pedido de Ellen, ela nada comenta com o pai Edgar.
Mas, o 'mal está feito'. Heathcliff fica sabendo que o filho será trazido para a casa dos Lintons. Assim, o anti-herói não demora em exigir a guarda do menino, que não viverá no luxo dos Lintons, mas na aspereza do turbulento casarão no alto do Morro. Heathcliff se refere ao filho como a uma coisa, da qual ele tem a posse. “Ele é propriedade minha.” Enquanto, Linton, então com treze anos, sequer sabia algo sobre o pai. “Minha mãe nunca me disse que eu tinha pai.”

“É pior do que eu esperava”, diz Heathcliff ao notar o quanto o rapaz é franzino e tímido, tal qual a mãe Isabella. Será desprezado na vida rude no Morro dos Ventos Uivantes. Mas Heathcliff promete a Ellen que o rapaz Linton será o herdeiro da fazenda. “Além do mais, ele é meu, e eu quero o triunfo de ver meu descendente legítimo dono desta propriedade” (“Besides, he's mine, and I want the triumph of seeing my descendent fairly lord of their estates.” cap. XX, p. 180)

Enquanto Hareton cresce ressentido e ignorante, Linton fica mais doentio, irritável, egoísta. (“I divined from this account, that utter lack of sympathy had rendered young Heathcliff selfish and disagreeable, if he were not so originally.” cap. XXI, p. 182) Por outro lado, Heathcliff tem interesse em que a jovem Cathy (então com dezesseis anos) tenha contato com o seu filho Linton. Planeja um casamento entre os primos. “Meu plano é tão honesto quanto possível. Vou revelar-te tudo, ele disse. Os dois primos devem se apaixonar, e se casarem. Estou agindo com generosidade para com o teu patrão [Edgar]: a filha dele não teria esperanças, e segundo meu desejo ela seria co-herdeira com Linton.”

'My design is as honest as possible. I'll inform you of its whole
scope,' he said. 'That the two cousins may fall in love, and get
married. I'm acting generously to your master: his young chit has no
expectations, and should she second my wishes she'll be provided for at
once as joint successor with Linton
.' (cap. XXI, p. 185)

Notamos logo um contraste – e também a jovem Cathy – onde Hareton é forte, robusto, saudável – e ignorante; enquanto Linton é educado, mas é doentio, fraco, mimado. Temos uma repetição: no início tínhamos Catherine entre o educado Edgar e o rústico Heathcliff. Agora temos Cathy, a filha, entre Linton e Hareton.

Edgar explica à filha Cathy os planos ambiciosos de Heathcliff. Ela parece não acreditar (tal qual a ingênua Isabella!) Ela se impressiona com o desejo de vingança do novo proprietário de Wuthering Heights. Contudo, Cathy envia carta a Linton – e inicia-se a correspondância. A distância – a proibição de se verem – aumenta a afeição entre os primos. Cathy já diz que 'ama' o primo.

Com a interrupção da correspondência, agora é Linton quem está 'morrendo' de paixão. Heathcliff acusa a mocinha (Cathy) de brincar com o coração de Linton.

Continua...

jan – mar/10
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