quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

sobre A Consciência de Zeno - p2 - de Svevo










Sobre A Consciência de Zeno [La coscienza di Zeno, 1923]
trad. Ivo Barroso [2001]
do autor italiano Italo Svevo [Ettore Schmitz, 1861-1928]


A irônica voz do narrador sempre a se analisar


parte 2


Zeno estava ciente de que sua inatividade, em sua vida ociosa, era responsável pela gradação do tédio, pela busca de aventuras que somente ameaçavam sua paz doméstica. Então aceitou o convite do cunhado Guido para trabalhar em nova casa comercial. Afinal, ele tem seus propósitos, pois “eu ainda não abandonara a esperança de vir a ser um bom negociante” [p. 253], trabalho que não teve sucesso sob a tutela do administrador de sua herança. Então, Zeno tem a oportunidade de parceria com o cunhado, sendo responsável pela parte de contabilidade, enquanto o outro gerencia, com seriedade e visão de futuro. “[Guido] olhava a distância, por cima de minha cabeça, e eu me fiava tanto na seriedade de suas meditações que chegava a voltar-me para ver também o que ele via, ou seja, as operações que deviam trazer-lhe fortuna.” [p. 254] Pois o Guido não quer ser um “comerciante à antiga”, não um “estragado pelos velhos”, mas um pioneiro.


Finalmente, Zeno se ocupa de alguma coisa útil, aprende um ofício, ainda que não lucre tanto no final. “Não há dúvida de que aquele foi, até hoje, o mais longo período em que me dediquei a uma mesma ocupação. Só não me posso gabar disto porque essa minha atividade não produziu frutos nem para mim nem parar Guido, e em comércio – todos sabem – só se pode julgar pelos resultados.” [p. 255] Saberemos como o narrador relembra estes dois anos de atividade comercial, ao lado do cunhado. O que ele vê olhando em retrospectiva? Como se julga? Ao lado do confiante e até arrogante Guido, Zeno se vê como um doente, “e insisto em escrever sobre esses dois anos porque meu apego a ele me parece clara demonstração da minha doença.” [p. 255]


De algum modo, o Zeno-narrador se arrepende de sua dedicação ao escritório do cunhado. “Por quanto tempo entreguei-lhe o sacrifício de minha liberdade e deixei-me arrastar por ele às posições mais odiosas, só para assisti-lo! Uma verdadeira e clara manifestação de doença ou de grande bondade, duas qualidades intimamente relacionadas entre si.” [p. 255] A fixação em sua doença – que é justamente o que o leva a escrever! - leva o narrador a apresentar suas contradições e recaídas, mesmo se mantendo ocupado. Aliás, a nova ocupação gera mais contradições e angústias! Novas escolhas, para o local do escritório, para a mobília, para as tarefas. Enquanto Zeno hesitava, Guido agia. Enquanto o primeiro não sabia, o segundo se posicionava impetuosamente, nem sempre para o lucro. A ação nem sempre é positiva, pode gerar ante o prejuízo. Mas a hesitação também nem sempre é lucrativa. No mais, ao fim da empresa, somente o empregado aprendeu mesmo a agir satisfatoriamente no comércio.

No mundo do comércio, da contabilidade, do Deve e do Haver, dos devedores e dos credores, é preciso agir segundo as regras, onde uns lucram e outros perdem. Quem não se adaptar está fadado à falência. Não há muita filosofia, mas faro comercial. Ver flutuações da Bolsa, perceber como anda a Oferta e a Demanda, estar disposto a investir se arriscando a perder. Enquanto Zeno e Guido se perdiam em discussões, os verdadeiros comerciantes estão agindo e lucrando. O narrador julga o parente para melhor perceber a própria participação na falência da empresa. “Lamento ter que falar tão mal de meu pobre amigo, mas devo ser verídico, inclusive para compreender melhor a mim mesmo. Recordo toda a inteligência que ele empregou para obstruir o nosso modesto escritório com teorias fantásticas, impeditivas de qualquer operação corrente.” [p. 259] e confessa mesmo, consciente de sua inércia: “Minha boa sorte impediu-me de ser arruinado por Guido, mas essa mesma boa sorte me impediu igualmente de tomar uma parte mais ativa em seus negócios.” [p. 259]

Zeno chega mesmo a se comparar a um hesitante Sancho Pança diante de um arrojado e desastrado Don Quixote, a fazer negócios, e enquanto ele se limita a criticar os negócios e registrar nos livros contábeis. Sem grande faro comercial, os dois amigos se deixam à deriva, em aventuras amorosas, ou caçadas, ou pescaria, enquanto sabe-se que é o empregado – o autêntico comerciante! - quem negocia e recebe comissões. Os patrões só não podem mostrar o quanto são diletantes e inexperientes. Não se preocupam tanto com o dinheiro, logo não ganham muito, e chegam até a perder. O empregado negocia, a nova secretária se envolve com o patrão, o escritório segue sem rumo e seriedade.

O contador não concorda com os negócios, ou tem outra visão, mas sempre aceita as decisões do patrão, que, não atento aos próprios negócios, se percebe em prejuízos. Mas o que Zeno poderia ter feito? O impetuoso Guido-Quixote sempre olhava para frente, arrogante, senhor de sua empresa. Que remorsos pode nutrir o narrador? “Não posso ter o menor remorso pelo prejuízo que Guido sofreu com a operação. Se me tivesse ouvido, teria evitado o que ocorreu.” [p. 270] Ao observar o desenvolto e mulherengo Guido, o narrador até se julga inocente, pois ao trair a esposa até sente culpa! Guido, o dissimulado, é incapaz disso. Tem uma mulher em casa, seduz a secretária, passa as noites em pescarias, longe da família. E Guido não valoriza as mulheres, tanto a esposa Ada, que já foi desejada por Zeno, quanto a secretária Carmen, que lembra muito uma submissa Carla, ambas orbitando sua arrogância, a qual desperta sentimentos ambíguos em Zeno, entre a inveja e a reprovação, entre a admiração e o desprezo. Afinal de contas, por mais que Sancho condenasse Quixote, ainda o admira ao segui-lo pelas aventuras! A importância de Guido aqui é no sentido de melhor evidenciar quem é o narrador, um negócio que só traz prejuízo é lembrado, “não só porque coloca em evidência a desmensurada presunção de Guido como também porque projeta sobre mim uma luz sob a qual é difícil distinguir-me.” [p. 284].

Ambíguo diante de Guido, o jovem Zeno percebe-se em competição, em disputa com o parente patrão. Quantas vezes Zeno tem razão, mas o outro não o ouve! Só quando há prejuízo, chega-se à seriedade, chega de conversa fiada e fábulas, é preciso aprender a comercializar. Um aprendizado em vem do prejuízo? “Por isso creio que os seus prejuízos foram sempre relevantes e mínimos os seus lucros. As qualidades de um comerciante não são mais que as consequências de todo o seu organismo, da ponta dos cabelos às unhas dos pés.” [p. 288] Depois dos prejuízos, Guido estava mais atento aos negócios, mais assíduo à rotina do escritório, o que não compensa todos os erros cometidos antes. Guido que vivia uma vida familiar delicada, com o nascimento dos filhos gêmeos, e a doença da esposa, que vai parar em sanatório. Doença que atrai também a curiosidade de Zeno, de modo obsessivo, como mostram os seus sintomas.

Creio que há muitos indivíduos como eu que, em certos períodos de tempo, deixam-se ocupar por ideias que atravancam o cérebro, bloqueando-o para tudo o mais. Mais isto acontece também com a coletividade! Vivemos de Darwin depois de termos vivido de Robespierre e Napoleão, e depois de Liebig e oxalá de Leopardi, quando Bismark não está trovejando sobre o cosmos! [p. 293]

e

A minha enfermidade consistia numa ideia fixa, um sonho, e mesmo um pesadelo. Deve ter-se originado de uma reflexão: sob o nome de perversão queremos significar um desvio da saúde, aquela espécie de saúde que nos acompanhou por um período de nessa vida. [p. 294]


Com a decadência – e depois falência financeira e familiar – de Guido, é a estrela de Zeno que sobe! Ele passa a ser mais estimado pela família, que o respeita e admira. Claro que todos desconhecem a aventura amorosa do patriarca, e que o leva sempre a desafogar sua culpa em confissões, muitas veladas, parciais. Só pra ter uma noite de sono tranquilo. O caso é que ele sabe administrar sua doença, e o outro não. Por mais falso que seja Guido ele é demasiado confiante para se expor. Covarde, hesitante, Zeno sempre faz às ocultas, com máxima prudência. O narrador define Guido como falso e simulador, mas não será ele mesmo mais dissimulado?

Mas o Zeno daquela época não se deixava em tais questionamentos morais, pois se entregava ao trabalho, “foi a época de minha vida em que mais trabalhei”, a pensar em sua “reputação comercial”, a concluir o balanço da empresa, que ele sabe estar fadada à falência. Os prejuízos são maiores que os lucros, e Guido não estava disposto a aceitar, muito menos revelar os erros ao próprio pai. Para compensar a ineficiência de Guido, o contador Zeno se entrega ao trabalho, o qual não consegue abandonar, tal um trabalhador forçado. Ainda mais, com a solicitação de Ada, para que cuide de Guido, o músico que agora desafina, ainda em seu auto-engano (uma auto-estima mesmo na derrota...) que pode prejudicar a família.

Guido abaixa a cabeça, a considerar a vida difícil, enquanto Zeno observa tudo, as reviravoltas, as vicissitudes, os auto-enganos, as vaidades fugidias, e acha que a vida é original, estranha, “bastava recordar tudo aquilo que nós, homens, esperamos da vida para a acharmos tão estranha, a ponto de concluirmos que talvez o homem tenha sido posto nela por engano e que de fato não pertença a ela.” [p. 306] Guido não dá muita atenção ao meditativo Zeno, que se lembra das antigas irritações, causadas pelo rival, tão auto-confiante. Por que sente tanta irritação com o outro? Por que queria se livrar dele? É uma questão de ser bom ou mau? Ele é melhor do que Guido, para julgá-lo? Dizer se ele merece viver?

Mas, antes, ele continua a ajudar este 'genal negociante' ! Por que? Por demasiada bondade? “O propósito de bondade é plácido e prático, e eu estava calmo e tranquilo. Curioso! O excesso de bondade me fizera exceder na auto-estima e na crença em meu poder. Que podia fazer por Guido?” [p. 310] Para ajuda Guido, Zeno se entrega a uma tarefa que o consome, que o submete ao tédio, pois o trabalho se torna rotina. Quanto mais ele trabalha para manter a empresa, mais se sacrifica, mais fica ligado ao 'genial negociante' que só coleciona prejuízos! O patrão que nunca presta atenção, que despreza as recomendações, que considera melhores as próprias soluções. Zeno percebia ser uma ilusão a sua determinação de ser útil.

Contudo, Zeno continua, pois é que agrada a agora enferma Ada, cuja gratidão lhe traz saúde. Ser bondoso com a família aumenta sua auto-confiança, sua possibilidade de dormir tranquilo. A saúde estaria acima de tudo. Até ajudar guido em suas manobras com a contabilidade. Será que forjar débitos e créditos é modo de salvar-se da falência? Zeno não acredita, pois o outro também sofre de obsessão. “Confessou-me que aquele pensamento era a sua obsessão. E como poderia ser de outra forma? Com um pouco de azar poderia incorrer direitinho naquela sanção penal e acabar na cadeia!” [p. 324] Assim, o bem-sucedido Guido é uma farsa! Não é bom marido, não é bom negociante, o que é então? O patrão sempre 'aterrorizado' pelos balanços contábeis, eis uma decepção para Zeno, que, no entanto, não o deixa de lado.

Guido até se esforça, trabalha mais, negocia mais, está mais atento, mas o que não impede outros deslizes, principalmente o impulso de jogar na Bolsa de Valores. E Zeno a tentar tranquilizar a esposa do patrão-amigo, a lembrar da nova figura de 'assiduidade e prudência' que atua no escritório. As preocupações de Zeno não sã apenas comerciais, antes existenciais, o drama da velhice (ou senilidade),

Falei longamente da velhice iminente. Não podia ficar um momento tranquilo sem sentir a velhice. A cada circulação de meu sangue alguma coisa se agregava a meus ossos e às minhas veias que significava envelhecer. Cada manhã, ao despertar, o mundo era mais cinza e eu não me dava conta disto, porque tudo mantinha o mesmo tom; nela não havia nenhuma pincelada do dia anterior, pois, se o notasse, a recordação me faria desesperar. [p. 327]

Assim as preocupações de Guido são mais terrenas se comparadas às de Zeno, que achava o patrão um sujeito tão prático. Mas por que jogar na Bolsa de Valores? Não seria melhor se concentrar nos negócios? Em pagar as dívidas? Mas, Guido se mostra mais impulsivo, e contrata corretores para aconselhar sobre altas e baixas das ações. Mas e o risco de se envolver com as altas e baixas? Pode-se ganhar e também perder muito facilmente! Um dos corretores admite que “só as pessoas de senso podiam tratar com ela [a Bolsa]. Havia muito dinheiro espalhado pelo chão da Bolsa, mas não era fácil abaixar-se e apanhá-lo.” [p. 329] quando elogia os investidores de sucesso, que aprendem mais na prática do que na universidade!

Enquanto Guido está a ganhar, enquanto a família acerita e até apoia, Zeno nada pode fazer para refreá-lo, deve antes até alegrar-se com ele. Mas no jogo há ganhos e há perdas, e na mesma proporção em que se ganha, pode se perder. Guido começa a se desconcentrar dos negócios para se voltar para as flutuações de mercadorias e ações. Enquanto se ganha, todos aprovam, e o jogador continua. Mas ele já não sabe parar – até perder tudo. É uma outra obsessão – troca-se uma obsessão por outra. E Zeno se deixa contaminar pela temporada de ganhos, “acreditei tão firmemente que a sorte estava de seu lado que não levei em conta tantos indícios capazes de me convencerem do contrário.” [p. 334]

Mas não parece que tudo anda bem. Guido faz referências a uso de venenos, demonstra tristeza, frequentemente uma distração. Indícios de que a temporada de ganhos se converteu numa fase de perdas – mas o que sabe Zeno? Ele, assim como outros ao redor, na própria família, é egoísta, não está à altura de compreender o próximo e seus sofrimentos. Zeno é incapaz de compreender e confortar o agora perdedor, “Não consegui dar-lhe nenhum conforto. Na verdade, ofendia-me vê-lo considerar-se o homem mais infeliz do mundo. Não era um exagero de sua parte; era uma deslavada mentira.” [p. 340] Pois não há compaixão, no mundo do 'darwinismo social', onde uns ganham e outros perdem, não há lugar para conforto ou felicidade, apenas competição. “A lei natural não dá direito à felicidade; ao contrário, prescreve a miséria e o sofrimento. […] Para que lamentar-se? No entanto, todos se lamentam. Os que nada tiveram da presa morrem gritando contra a injustiça, e os que tiveram parte dela acham que deviam ter direito a muito mais.” [p. 340] Não há compaixão no domínio da 'lei natural', senhora num mundo de desiguais.

Pior para Guido, que descuidado dos negócios, viu-se levado ao jogo no mercado de ações. Ele não sabe perder, é a sua culpa. “Faltavam-lhe todas as qualidades para conquistar ou simplesmente para manter a riqueza. Vinha do jogo na Bolsa e se lamentava por ter perdido. Não se comportava mesmo como um cavalheiro; causava-me náusea.” [p. 341] E o que faz o protagonista? “Reprovei-o pela fraqueza de agora, precedida por uma presunção que o levara à ruína. Agira por si mesmo sem consultar ninguém.” [p. 342] e pior, pois o “seu prejuízo era sem dúvida nenhuma o resultado de um crime.” [p. 343] E faz tudo para reduzir a culpa, a ponto de oferecer um empréstimo, suficiente para pagar parte das dívidas. Claro, que haverá oscilações entre aceitar ou não a oferta de Zeno, e a família entra na ciranda. O que se pode fazer para salvar a firma e a honra de Guido? Mas ele não entra na linha, não aprende, não espera, quer insistir no risco especulativo, e pretende surpreender a todos com o seu suicídio.

Suicídio mesmo ou uma tentativa? Zeno acredita que Guido não queria se entregar à morte, sendo esta causada por uma série de mal-entendidos e pela demora e ineficiência dos médicos. Enquanto a família começa a aceitar o processo da falência, enquanto Zeno liquida as apostas de Guido na Bolsa (a ponto de reverter os prejuízos...), o perdedor se perde na própria obsessão e anuncia seu suicídio. E realmente encontra a morte. Mas era tão fácil se salvar! Alguns empréstimos e o trabalho árduo! Zeno quer aconselhar apenas: “nada mais de jogo, e sim o trabalho habitual de cada dia!” [p. 352], mas não há tempo, Guido não espera e joga toda a herança, joga a própria vida. E é depois da perda, que Zeno tem consciência da grande participação de Guido em sua história – o que nos revela agora, sendo o narrador.

Guido, depois de nosso convívio, tornara-se para mim personagem de grande importância. Enquanto vivo, eu o via sob uma certa luz que iluminava a parte mais longa de meus dias. Morrendo, aquela luz se modificava, como se tivesse passado de súbito através de um prisma. Era exatamente isto que me perturbava. [p. 356]

Então Zeno culpa a família pela morte do perdedor, “Ele morrera por um delito cometido por eles, pois jogara na Bolsa com o consentimento de todos. Na hora de pagar, deixaram-no sozinho. E ele apressou-se em pagar.” [p. 357] Nada mais pode ser feito. Resta sepultar o perdedor e proclamar sua honra. Para isso é preciso diminuir os prejuízos e pagar as dívidas. Zeno se ocupa da parte prática – e se surpreende com tal atitude. “Sentia necessidade de trabalhar, trabalhar mesmo em proveito de meu pobre amigo morto, mas não sabia fazer mais do que sonhar.” [p. 358] Ele sabe colher as admirações da família, ainda que a outrora escolhida não acredite que algum dia Zeno tenha gostado mesmo do falecido. Afinal, não eram rivais?

Não teria Zeno se interessado mais pela Bolsa do que pelo funeral, e confessa, e é recriminado por isso. É prova de que ele não gostava do falastrão perdedor? Agora, enquanto escreve, mais consciente, o narrador Zeno tece suas considerações, “Comparava-me com o pobre Guido e elevava-me, elevava-me bem alto com a minha vitória na mesma luta em que ele perecera. […] Era certo que, quanto mais nos afastássemos da catástrofe, o céu azul se tornaria enfadonho se não voltasse a obscurecer no devido tempo. Esta, porém, era a previsão da experiência e eu não a recordei; ocorre-me só agora enquanto escrevo.” [p. 362] Zeno sobrevive a Guido, e é então o vencedor? Sua função agora é preservar a honra do falecido? É amparar a família? Ou revelar que Guido poderia ter se salvado? Que ele não queria realmente morrer? Mas a viúva só sabe culpar Zeno, pois ela garante que ele nunca gostou do falecido. Zeno, o narrador, acha que não tem culpa, “mas sei que não me julgou com justiça. Sem dúvida, não tenho do que me penitenciar por não ter querido bem a Guido.” [p. 370] O narrador mesmo se julga moralmente e se absolve. Tudo para garantir uma boa noite de sono.

Para controlar sua consciência e conseguir dormir, Zeno se entrega aos meios de terapia, ao escrutínio da psicanálise, a escrita de seus devaneios e detalhes de outrora. Mas pode confiar no médico? Pode acreditar na teoria freudiana? Ela não está sempre sendo irônico consigo mesmo, então como pode levar à sério algo fora de si mesmo? Como pode aceitar uma teoria com suas fórmulas? Pode aceitar que deseja a mãe e odeia o pai? Que tem um mundo onírico labiríntico e não desvelado? Pode ele conhecer a si mesmo, encontrar-se, enquanto escreve seus relatos?

Empregarei o tempo que me resta livre para escrever. Por isso escreverei sinceramente a história de minha cura.” [p. 372] Está revelada a motivação de sua escrita, e a razão de ser do livro que temos em mãos. Sua narrativa nasce da consciência que tem sobre si mesmo – e a busca de autoconhecimento. Sabe mais sobre si mesmo quando se observa a agir junto aos outros: junto ao pai, junto à noiva, ao lado da esposa, na cama da amante, na empresa do cunhado. Todos são figurantes em sua vida, mas que permitem que entenda melhor seu protagonismo.

Além disso, ele tem consciência de sua doença. Uma doença que habita o corpo e a mente, que transborda dos nervos para os músculos, da vontade para as câimbras. Mas não é uma doença que o analista vá explicar. Não é um complexo com raízes na mitologia grega, de Édipo matando o pai e possuindo a mãe. Não é uma doença catalogada num manual de psicanálise,

A melhor prova de que eu não tinha aquela doença decorre do fato de não estar curado. Esta prova convenceria inclusive o doutor. Ele não precisa preocupar-se: suas palavras não conseguiram conspurcar a recordação da minha juventude. Cerro os olhos e vejo imediatamente, puro, infantil, ingênuo, o amor por minha mãe, e meu respeito e grande afeto por meu pai. [p. 372]

Mas o quanto a sua escrita é autêntica enquanto autoconhecimento? Não haverá um empecilho na própria linguagem? “Uma confissão escrita é sempre mentirosa. Mentimos em cada palavra toscana que dizemos. Podemos falar com naturalidade das coisas para as quais temos frases prontas, mas evitamos tudo quanto nos obrigue a recorrer ao dicionário!” [p. 373] pois “quem me forneceria o verdadeiro vocabulário? “ [p. 382] Zeno não se sente confortável diante da figura do médico, que com suas análises, em muitas suspeitas e só a pensar na cura. Mas como controlar imagens do passado que carregam emoções quando se presentificam através da memória?

Retorno a tempo de minha longa viagem e me encontro seguro aqui, adulto, velho. Mas devo confessá-lo: por um instante sofri com a ameaça da punição e logo após lamentei não ter podido assistir ao gesto de proteção que sem dúvida terá partido de minha mãe. Quem pode deter essas imagens quando começam a fugir através de um tempo que jamais foi tão semelhante ao espaço? Tal era o conceito que dele tinha, quando acreditava na autenticidade daquelas imagens! Agora, infelizmente (oh! Quanto o lamento!), não creio mais nelas e sei que não eram as imagens que fugiam, mas os meus olhos enevoados, abertos de novo para o verdadeiro espaço em que não há lugar para fantasmas. [p. 377]

O médico acha que Zeno sofre de remorsos e quer logo uma cura: que ele aceite ser inocente e comum que se tenha desejo pela mãe e hostilidade contra o pai. Que Zeno aceite tranquilo a cura do freudismo: lembrar, assumir e se libertar. Mas não é tão fácil assim. “Que mal me podiam causar? Um dia, disse-me que eu não passava de um convalescente que ainda não se acostumara a viver sem febre. Pois bem: haveria de me acostumar.” [p. 378] Certamente as obsessões do protagonista com as imagens oníricas muito se aproximam de suas obsessões com o fumo ou com o bem-estar doméstico. Ele poderia muito bem se intoxicar de vida onírica quanto de nicotina.

Zeno precisa de obsessão e de ódio, vive de rivalidade. “Há muita gente neste mundo que não consegue viver sem um afeto; eu, ao contrário, segundo ele, perdia o equilíbrio emocional se me faltava uma razão de ódio.” [p. 381] E com que rivaliza agora? Com o médico! “Acabei por me sentir muito cansado da luta que era obrigado a manter com o médico a quem pagava.” [p. 383] O narrador não quer ser arrastado por uma “charlatanice”, precisa encontrar doenças reais, como bom hipocondríaco, com câimbras, bronquite, coisas palpáveis, visíveis, curáveis. Doenças que podem ser medidas e diagnosticadas, pois “não há lugar para simulações”, não são analisadas por subjetividades que interpretam e distorcem. Por isso, o narrador prefere as doenças reais, as físicas, mais simples. Então dispensa as 'imaginárias', que se livrar de sonhos e lembranças.

Enquanto a guerra se alastra pela Europa – estamos em 1915, em plena Grande Guerra, depois chamada Primeira Guerra Mundial [1914-1948] – Zeno viaja com a família para uma cidade provinciana, Lucinico, próxima a fronteira da Itália com o Império Austro-Húngaro, que se estendia até ao Mar Adriático, incluindo Trieste. Lá Zeno encontra sossego e recolhimento e pode pensar na vida que levou, e na consciência de ter convivido com sua doença, a qual acerita. “Foi um verdadeiro recolhimento o meu, um dos raros instantes que a vida avara nos concede, de grande e verdadeira objetividade em que finalmente cessamos de nos crer e de nos sentir vítimas. Em meio àquele verde, ressaltado tão deliciosamente pelos reflexos do sol, eu soube sorrir à vida e até à minha doença. […] E revendo a minha vida e também a minha doença, eu as amei e compreendi!” [p. 387]

Então Zeno anda pelo campo, interagindo com os camponeses, ainda mais as jovens filhas dos camponeses, as quais não hesita em cortejar, mesmo em sua maturidade. Enquanto isso a guerra avança, pois é justamente em 1915 que as tropas italianas entram em confronto com as tropas austro-húngaras, e o horror da luta bélica não é mais uma história que se ouve, ou se lê nos jornais, mas passa a fazer parte da vida. Tropas inimigas acabam de cercar a cidadezinha! E como poderá Zeno reencontrar sua família? “A guerra apoderou-se de mim, sacudiu-me como um trapo, privou-me de uma só vez de toda a minha família e até de meu administrador. De um dia para o outro, eu era um homem totalmente diferente, ou, para ser mais exato, todas as minhas vinte e quatro horas foram inteiramente diversas.” [p. 390] Então finalmente a guerra o atingira, e durante um mês sequer tivera notícias da família. Agora, quando escreve, ele se percebe mais aliviado, após o transtorno inesperado. “Hoje, que me sinto bem mais calmo, trouxe comigo para o escritório este manuscrito, que pode ajudar-me a passar o tempo sem fim.” [p. 391]

Em meio a guerra – que o encontrou de um 'modo violento' – Zeno, nosso narrador, encontra a sua paz! “Parece-me que só agora estou definitivamente desligado tanto de minha saúde quanto de minha doença.” [p. 391] Ele que enfrentara um dia de violência e fome, entende que muitos ainda perecerão sem nada saber, sem qualquer consciência. Ele tem seu excesso de consciência, que mesmo quando tranquiliza os próximos, se sente culpado. Devia antes anunciar que o horror da guerra se aproximava? “Depois, isso pesou-me na consciência. No horrendo temporal que desabou, provavelmente todas aquelas pessoas que eu tranquilizara pereceram.” [p. 397]

Um ano depois, em março de 1916, temos a última anotação de Zeno, que enviará seus manuscritos ao médico – que então vai disponibilizar para nós, os leitores, como o Doutor S. declara logo no Prefácio, “publico-as por vingança e espero que o autor se aborreça.” [p. 7] – que terá noção do quanto Zeno despreza o tratamento. Afinal, é um homem saudável, ocupado com seus negócios comerciais, enfim curado! “Estou curado! Além de não querer submeter-me à psicanálise, também não tenho necessidade dela.” [p. 400] Ele está agora convisto da sua saúde, como antes tinha obsessão pela doença. Zeno que prosperou e venceu, a concretizar seus negócios, onde Guido, o negociante genial, perdera, e sente que o sucesso é fruto da vida saudável. A vida que tem algo da enfermidade, mas sem cura, “a vida é sempre mortal. Não admite tratamento.” [p. 402]

Afinal, é a civilização que se manifesta doente, envolvida em guerras e massacres, a poluir o planeta, quando somente deseja o lucro. Zeno Corsini encontra sua saúde no mundo dos negócios, acomodado cidadão de um mundo em conflito, a observar o mundo doente, que ainda acredita no mito do progresso. Uma civilização de artificialismos que espera suplantar a 'lei do mais forte', mas que só consegue se impor pela violência, pela intervenção em nome da democracia e do desenvolvimentismo, nivelando povos inteiros pelos critérios da globalização, que se iniciara com o imperialismo do século 19, que teve como consequências as Guerras Mundiais do século 20. Canhões, trincheiras, gases tóxicos, tanques blindados, campos de extermínio, mísseis balísticos, bombas atômicas, eis a escalada da agressão de uma civilização deveras adoentada. Talvez finalmente assim o homem, o parasita, o doente, se elimine da face do planeta.

Assim, a noção de doença e saúde é mais do que física ou imaginária, é uma questão de contexto, pois um homem saudável pode adoecer numa civilização doente, absorver a doença, a sentir-se culpado, enquanto um homem doente pode contaminar toda uma vida social, todo um sistema político. Uma pessoa pode se manter lúcida num campo de concentração, enquanto outra enlouquece num bunker. A vida burguesa age no romance de Italo Svevo como uma forma de sufocar a doença, ou de idealizar uma saúde, numa vida de prosperidade, mas que acaba por criar mais doenças, em repressão, em resignação, enquanto fermenta o retorno do recalcado em inesperados sintomas. Saques, violações, extermínios. Então sobra apenas uma consciência ora aguçada e ora nublada que se volta sobre si mesma, com ironia ou amargura, mas incapaz de abarcar a totalidade, assim como o narrador que somente consegue ser parcial, ou mesmo inautêntico, mesmo quando se dispõe a narrar a própria vida.


fonte: SVEVO, Italo. A Consciência de Zeno. Trad. Ivo Barroso. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001



jan/14


Leonardo de Magalhaens






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