quarta-feira, 23 de maio de 2012
Meu Cânone Ocidental Volume 3
sexta-feira, 11 de maio de 2012
sobre 'The Catcher in the Rye' - de J. D. Salinger
sobre “The Catcher in the Rye” (1951)
(Bra: “O Apanhador no Campo de Centeio”)
de J. D. Salinger (EUA, 1919-2010)
Literatura dá voz ao desassossego juvenil
O interessante nesta obra de Salinger é a possibilidade de vazão das inquietações juvenis na voz do próprio jovem – com sua ironia, suas gírias, suas tiradas de humor negro, suas hipérboles, suas digressões e contradições, tudo o que está incluindo no 'pacote' adolescência-juventude, segundo já vemos em obras anteriores – mas sem o radicalismo deste “Catcher in the rye”, publicado em 1951, e que logo causou polêmica (assim acontece com toda obra avançada para o seu tempo...) até conquistar o público jovem, em época de contracultura e revolução sexual.
Sabendo do contexto, vamos ao texto. O narrador-protagonista Holden Caulfield se apresenta, mas diferentemente dos heróis protagonistas dos romances clássicos, tipo 'David Coperfield', de Charles Dickens, que se perdem em digressões sobre o passado familiar e contextos históricos, etc. Holden vai direto ao assunto – ele começa seu relato desde a saída do Internato Pencey, no ano anterior.
“Se vocês realmente querem ouvir a respeito disso, a primeira coisa que vocês provavelmente vão querer saber é onde eu nasci e com oque se pareceu a minha péssima infância, e como meus pais se ocupavam e tudo antes que me tivessem, e toda esta bobagem tipo David Copperfield, mas não acho que vou fazer isso, se vocês querem saber a verdade.” (cap. 1)(trad. LdeM)
“If you really want to hear about it, the first thing you’ll probably want to know is where I was born and what my lousy childhood was like, and how my parents were occupied and all before they had me, and all that David Copperfield kind of crap, but I don’t feel like going into it, if you want to know the truth.” (Ch. 1)
Holden não é exatamente um jovem de seu tempo. Ele não se empolga muito com esportes e nada admira na industria cultural, chegando a confessar que detesta cinema. “Detesto cinema como se fosse um veneno.” E que por trabalhar em Hollywood, seu irmão escritor é um 'vendido', numa espécie de prostituição (afinal, somente a literatura é uma arte íntegra, enquanto o cinema, é visto como 'indústria cultural'...) onde a escrita serve aos interesses do sucesso e da vaidade.
O jovem não poupa o antigo colégio – que se vangloriava por criar 'jovens esplêndidos e bem-pensantes' – mas onde tudo não passa de, digamos , uma jogada de marketing, “Eles não moldam coisa-nenhuma em Pencey além do fazem em outro colégio. E eu não conheci ninguém lá que fosse esplêndido e bem-pensante e tudo isso. Talvez uns dois caras. Se muito. E provavelmente eles vieram para o Pencey deste jeito.” (cap. 1) “They don't do any damn more molding at Pencey than they do at any other school. And I didn't know anybody there that was splendid and clear-thinking and all. Maybe two guys. If that many. And they probably came to Pencey that way.” (Ch. 1)
No colégio, cheio de rapazes advindos de famílias de renome-prestígio-riqueza, Holden se sente deslocado. Aliás, acredita que quanto mais filhos de ricaços havia num colégio, maior a possibilidade do colégio ser cheio de cretinos e ávidos-pelo-bem-alheio. Quem tem grana é justamente quem mais grana deseja. “O Pencey estava cheio de vigaristas. A maioria dos caras eram de famílias ricas, mas estava cheio de vigaristas de qualquer modo. Quanto mais caro é uma escola, mais vigaristas ela tem – sem brincadeira.” (“Pencey was full of crooks. Quite a few guys came from these wealthy families, but it was full of crooks anyway. The more expensive a school is, the more crooks it has - I'm not kidding.” Ch. 1)
“A vida é um jogo, rapaz. A vida é um jogo que se joga segundo as regras.”
“Sim, senhor. Eu sei disto, sei como é.”
“Jogo, meu saco. Que jogo. Se você está do lado onde estão os vence-tudo, então é um jogo, tudo bem – vou admitir. Mas se você está do outro lado, onde não há os vence-tudo, então que jogo é este? Nada. Jogo nenhum.” (cap. 2)
“Life is a game, boy. Life is a game that one plays according to the rules."
"Yes, sir. I know it is. I know it."
Game, my ass. Some game. If you get on the side where all the hot-shots are, then it's a game, all right — I'll admit that. But if you get on the other side, where there aren't any hot-shots, then what's a game about it? Nothing. No game.” (Ch. 2)
O jovem não acredita muito neste jogo onde uns ganham e o resto perde. Ele tenta se situar no mundo – onde ele está? Do lado dos ganhadores ou dos perdedores? Depende de como ele se comporta, depende das atitudes diante da situação. Ora ele se sente agindo como mais maduro, adulto, ora faz coisas de criança. Ele tem oficialmente dezessete anos – quando narra – mas sabe que isso de idade é muito relativo,
“Tenho dezessete agora, mas às vezes eu me comporto como se tivesse uns treze. É irônico, pois tenho mais de um metro e oitenta e tenho cabelos grisalhos, se tenho! De um lado da cabeça, mais à direita, está com milhões de cabelos grisalhos. Tenho todos desde que era criança. E ainda me comporto como se ainda tivesse uns doze. Todos dizem isto, ainda mais o meu pai. Em parte é verdade, também, mas não é tudo verdade. As pessoas sempre acham que algo é totalmente verdadeiro.” (Cap. 2)
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“I'm seventeen now, and sometimes I act like I'm about thirteen. It's really ironical, because I'm six foot two and a half and I have gray hair. I really do. The one side of my head — the right side — is full of millions of gray hairs. I've had them ever since I was a kid. And yet I still act sometimes like I was only about twelve. Everybody says that, especially my father. It's partly true, too, but it isn't all true. People always think something's all true.” (Ch. 2)
Realmente Holden mostra-se imaturo em muitas ações, principalmente nos deveres escolares. Somente recebe elogios do professor de Inglês, pois é fato que o jovem aqui gosta de escrever (ele é o narrador-escritor do livro que estamos a ler), gosta de narrar suas impressões sobre os colegas, até minúcias. O que o jovem Holden detesta até ao ódio é o fenômeno social da Hipocrisia. As máscaras sociais que usamos para esconder a distância entre o que se prega e o que se faz, o famoso “faça o que eu digo, não faça o que eu faço”, evidente entre os pais, os professores, os artistas,
Mas Holden não é exatamente o cara mais verídico do mundo. O caso é que ele é deveras imaginativo, aumenta demais as coisas – é bem hiperbólico até ao cômico.
“Sou o maior mentiroso do mundo. É terrível. Se estou no caminho para a loja para comprar uma revista, e alguém me pergunta onde estou indo, sou mentiroso o suficiente para dizer que estou indo até a ópera.” (Cap. 3) (“I'm the most terrific liar you ever saw in your life. It's awful. If I'm on my way to the store to buy a magazine, even, and somebody asks me where I'm going, I'm liable to say I'm going to the opera. It's terrible.” Ch. 3)
É esse excesso de imaginação que liga Holden ao mundo literário que o jovem consome com voracidade. Uma série de referências literárias podem ser rastreadas, além das explicitadas. Certamente a boa influência do irmão escritor (aquele que foi se 'prostituir' em Hollywood...) leva o jovem aos textos de Shakespeare, Dickens, Burns, Maugham, Hardy, Dinesen, Lardner, Fitzgerald, Hemingway, dentre outros. Holden gosta tanto dos livros que acha uma boa ideia conhecer os autores (nem sempre é uma boa ideia, que eu saiba),
“O que me nocauteia é o livro que, quando você está lendo, você gostaria que o autor que escreveu seja um amigo chegado e você pudesse ligar para ele quando ficasse com vontade. O que não acontece muito, no entanto.” (Cap. 3) (“What really knocks me out is a book that, when you're all done reading it, you wish the author that wrote it was a terrific friend of yours and you could call him up on the phone whenever you felt like it. That doesn't happen much, though.” Ch. 3)
O encanto com a arte literária leva Holden a superar seus traumas com a escrita – com o seu relato ele confessa seus erros e desajustes, além de mostrar o quanto o mundo é injusto para com os jovens. Certamente por isso um livro escrito por um adulto para outros adultos tenha feito tanto sucesso entre os jovens. Houve um fenômeno de identificação com a voz do narrador – sua visão de mundo, suas gírias, sua ironia voltada contra pais, professores e os hipócritas.
É sensível a desadaptação de Holden, seu deslocamento em relação aos colegas. Um é descuidado e estúpido, outro é arrogante, pretensioso e bon-vivant, sedutor de donzelas. Uns estudam demais, por vaidade, ou por pressão familiar, enquanto outros se divertem em torturar os alunos indefesos. Holden sente-se covarde diante dos estúpidos, hipócritas, brutos, ladrões, enfim, a escória do mundo. Ele sabe que não pode enfrentá-los, pois são a maioria. Ele é incapaz de atacá-los ou mesmo se defender. É mesmo um 'pacifista'. Daí ele se sentir sempre sozinho.
Deslocado no colégio – entre os professores que reprovam, e os colegas que entediam ou atormentam – Holden resolve dar o fora, cair no mundo, dormir num hotel, ver o que há em Nova York, a grande metrópole. A solidão de Holden se dissipará na multidão? É possível que não. Ele a leva consigo. Holden perdeu o universo familiar e não conseguiu substituí-lo. Perdeu um irmãozinho para a morte, perdeu um irmão de talento para a indústria do cinema. Ainda tem um irmãzinha que merece admiração. Ele não leva o pai e a mãe muito à sério, ainda que se entristeça quando imagina a mãe sabendo de mais uma expulsão...
“Meu irmão tinha esta luva de baseball para a mão esquerda. Ele era canhoto. A coisa que era descritiva sobre isto, no entanto, era que ele tinha poemas escritos todos sobre os dedos e a palma e por toda parte. Em tinta verde. Ele escreveu ali para ter algo para ler enquanto estava no campo e ninguém estava com o taco. Ele está morto agora. Ele teve leucemia e morreu quando estávamos no Maine em 18 de julho de 1946. Você teria que ter gostado dele.” (Cap. 5)
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“My brother Allie had this left-handed fielder's mitt. He was left-handed. The thing that was descriptive about it, though, was that he had poems written all over the fingers and the pocket and everywhere. In green ink. He wrote them on it so that he'd have something to read when he was in the field and nobody was up at bat. He's dead now. He got leukemia and died when we were up in Maine, on July 18, 1946. You'd have liked him.” Ch. 5
A perda dos irmãos é uma constante obsessão na fala de Holden, que está convencido que não encontrará amigos à altura. É um luto não concluído – ainda mais que sabemos que o jovem sofreu uma crise, feriu a si mesmo, quase à mutilação, e passou por uma terapia, tudo isso com apenas treze anos.
Ele se lembra de tudo – narra com pormenores um ano depois – e tenta se explicar, justificar. É preciso abandonar outro colégio – outro antro de mediocridade, hipocrisia e lavagem-cerebral. É preciso sair para a vida – a cidade lá fora. Saber como o mundo funciona. Ainda que se tenha que ser a vítima em potencial. O jovem ingênuo e indefeso na cidade grande pronto para uma jornada, uma odisseia de aventuras? Mas em que grau ele é um herói?
Holden é antes um observador, por demais irônico, do que um participante. Ele não consegue interlocutores. Ou acham que ele é criança, ou acham que ele é desequilibrado mental. É sempre tratado com condescendência ou indiferença. É assim com os taxistas, com os atendentes do hotel, com os artistas. Ele vê a vida dos outros, contempla as seduções e perversões alheias, nas quais ele não participa. Os perversos, os tarados, os hipócritas são sempre os outros. Os interesseiros, os sedutores, os mentirosos são sempre os outros.
Mas Holden sabe o quanto é fantasista, mentiroso, fascinado pelas perversões alheias. Pois estas transgressões movem sua escrita, fruto de seu voyeurismo. “Na imaginação, sou talvez o maior perverso sexual que há.” (Cap. 9) É o mesmo incentivo para as escritas 'pervertidas' de Bukowski, Artaud, Burroughs, Henry Miller, dentre outros. Com a diferença que estes participam das orgias que descrevem, enquanto Holden apenas observa. Ele liga para uma garota de programa, mas fica apenas no discurso. Ele é um ser da Escrita e sabe disso.
É assim quando ele liga para a garota de programa, é assim quando ele vai às boates, se embebeda, ousa dançar, ou jogar conversa fora, sempre a analisar e julgar as pessoas ao redor, até quando se envolve em encrencas com um prostituta e um cafetão. Ele é um personagem de si mesmo – ele odeia cinema, mas vive imitando as personagens de filmes, as cenas pastiches da realidade. A cena da luta, do duelo, do herói humilhado pelo bandido, em suma, cenas saídas dos enlatados que esvaziam a sensibilidade. Quando mais encrencado, mas ele representa. Leva um soco e logo imagina que levou um tiro fatal, que o sangra gota a gota. Odeia o cinema, mas é um pobre influenciado.
A questão da sexualidade é uma das mais centrais na adolescência, na juventude. O enamorar-se, o descobrir do corpo desejado, a vontade de ter uma interlocução física e espiritual. A mulher não apenas desejada mas enquanto possibilidade de alcançar o outro –Holden quer uma garota, mas não apenas para o sexo, ele quer gostar de alguém e não apenas deitar-se com alguém. Ao contrário dos outros rapazes que seduzem e pressionam as moças, como se elas fossem meros objetos.
Será Holden um tímido? Ou será um idealista? Talvez um dos últimos românticos. Que deseja ver na mulher mais do que um corpo que se pode usar e depois descartar. Ele respeita as moças ao ponto de não conseguir possuí-las – ele se justifica por ser ainda virgem, quando todos os vigaristas já conseguiram ao menos agarrar uma garota no banco detrás do carro, pois parece que ele sente uma compaixão com a condição feminina, incompreensível para ele (será que ele se sente culpado em ser rapaz, o jovem homem dominador, sedutor? É uma hipótese...)
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“The thing is, most of the time when you're coming pretty close to doing it with a girl — a girl that isn't a prostitute or anything, I mean — she keeps telling you to stop. The trouble with me is, I stop. Most guys don't. I can't help it. You never know whether they really want you to stop, or whether they're just scared as hell, or whether they're just telling you to stop so that if you do go through with it, the blame'll be on you, not them. Anyway, I keep stopping.” Ch. 13
A cena da prostituta ilustra bem esta teoria. Holden aceita a presença da garota de programa, mas acaba por perder qualquer interesse sexual e desejar apenas uma companhia, uma interlocutora. No que é frustrado – a moça só aparece mesmo para fazer o 'serviço', e não é nada sensível. Ao contrário, a mulher não dominada debocha do homem que recusa dominar! Ele não quer usá-la como os demais rapazes – e a moça passa a desprezá-lo. E não hesita em extorquir mais dólares do jovem, mesmo com o recurso da violência, corporificada dolorosamente no murro dado pelo cabineiro-cafetão no hotel (o mesmo 'cheio de pervertidos'). Toda cena é deprimente e é compreensível. Holden mostra o quanto o sexo pode ser vulgar. (Enquanto é justamente esse lado vulgar e cafajeste do sexo é 'fetichizado' pelos 'autores malditos' – basta ler Henry Miller, Bukowski, Burroughs, etc)
O que resta de consolo para Holden? Ele sem família, sem escola, sem colegas, sem amigos, sem uma mocinha amada? Ele será uma espécie de místico? Ou de sacerdote devotado ao celibato? Um tipo de monge sem hábito vagando pelo mundo materialista? Um jovem com vocação para ermitão? Não é o caso. Ele é mais racional do que devocional, e sempre com uma sinceridade impressionante,
“Em primeiro lugar, sou uma espécie de ateu. Eu gosto de Jesus e tal, mas não me importo muito pela maioria dos assuntos da Bíblia. Por exemplo, os Discípulos. Eles enchem o saco, se quer saber a verdade. Eles até foram corretos depois que Jesus morreu e tal, mas enquanto Ele estava vivo, eles eram uns inúteis pra ele. Tudo o que eles fizeram foi deixá-Lo deprimido. Eu gosto de quase todo mundo na Bíblia mais do que dos Discípulos. Se quer mesmo saber a verdade, o cara que eu gosto mais na Bíblia, junto de Jesus, era aquele lunático e tal, que vivia nos túmulos e ficava se cortando com pedras. Eu gosto dele umas dez vezes mais do que dos Discípulos, daquele pobre bastardo.”
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“In the first place, I'm sort of an atheist. I like Jesus and all, but I don't care too much for most of the other stuff in the Bible. Take the Disciples, for instance. They annoy the hell out of me, if you want to know the truth. They were all right after Jesus was dead and all, but while He was alive, they were about as much use to Him as a hole in the head. All they did was keep letting Him down. I like almost anybody in the Bible better than the Disciples. If you want to know the truth, the guy I like best in the Bible, next to Jesus, was that lunatic and all, that lived in the tombs and kept cutting himself with stones. I like him ten times as much as the Disciples, that poor bastard.” Ch. 14
As teorias de Holden sobre as personagens e os episódios bíblicos são confusas e arbitrárias, cheias de caprichos, ele é subjetivo nas apreciações e desprezos. O jovem não aprecia aqueles que todos apreciam, antes prefere os tipos mais controversos. Acha que os discípulos são mais reprováveis do que Judas, o traidor. Afinal, alguém precisaria trair o Cristo para que ele se sacrificasse pela Humanidade e tal. Holden aposta uma grana na teoria de que Cristo não enviaria Judas para o Inferno, antes enviaria os Discípulos. (Uma posição meio defensor de Caim, não? Já vimos algo assim nos Künstlerroman, principalmente “Demian”, de Hesse, e a 'marca na testa', símbolo da rebeldia de Caim. O artista é um rebelde, digamos.)
Na literatura é a mesma coisa: Holden gosta daqueles não exatamente 'canônicos'. Na peça shakesperiana “Romeu e Julieta” o mais interessante nem é o trágico par de apaixonados até a morte. Não. É o bufônico coadjuvante Mercutio, ele é o mais interessante, e assim 'rouba a cena'. Assim é preciso que o bardo logo tire Mercutio para a peça atingir o clímax trágico. Holden não se empolga muito nem com Romeu nem com Julieta – ele continua preferindo o Mercutio, que de figurante pode ser içado ao elenco principal. Holden não se importa se nossa sensibilidade é para Romeu ou Julieta,
Eis outra amostra de desencontro, quando Holden vai ao parque, onde as crianças brincam de patinação, e não encontra a irmãzinha Phoebe. Ele não encontra as pessoas que ele quer encontrar, ele não consegue interlocução com as pessoas que ele encontra. Ele não se adapta: tudo está mudando: mas ele quer conservar as coisas que gosta, mas o tempo carrega tudo – as pessoas legais – ficam os cretinos. A imagem do museu é central aqui – lá tudo está parado no tempo. Os eventos se solidificam, engessados em outra temporalidade.
“Mas a melhor coisa naquele museu era que tudo estava sempre onde estava. Ninguém se mexia. Você podia ir até lá cem vezes, e aquele esquimó estaria apenas terminando de pescar aqueles dois peixes, as aves ainda estaria voando para o sul, os cervos ainda estariam bebendo água num buraco, com suas belas galhadas e sua belas pernas finas, e aquela índia com o peito desnudo estaria ainda tecendo a mesma coberta. Ninguém estaria diferente. A única coisa que seria diferente seria você.” Cap. 16
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“The best thing, though, in that museum was that everything always stayed right where it was. Nobody'd move. You could go there a hundred times, and that Eskimo would still be just finished catching those two fish, the birds would still be on their way south, the deers would still be drinking out of that water hole, with their pretty antlers and their pretty, skinny legs, and that squaw with the naked bosom would still be weaving that same blanket. Nobody'd be different. The only thing that would be different would be you.” Ch. 16
Sigamos. Se sinceridade é pecado, então não há dúvidas de que Holden é um pecador. Ele é tão sincero que atenta contra os próprios interesses, não sabendo 'jogar o jogo', sendo facilmente vitimizado – como demonstra o episódio em que leva um soco do cafetão – ou sendo rejeitado. Ele gosta da companhia da amiga Sally mas, ao ser demasiadamente sincero, ele acaba por magoar a mocinha e acabar novamente sozinho.
Aqui Holden dedica um espaço para digressões – ele que adora digressões! - sobre as garotas que tanto o fascinam! As jovens em flor – na imagem proustiana - que atraem olhares e desejos, em sua condição de seres a serem conquistados – no sentido de amadas, não dominadas,
“Um monte de estudantes estavam em casa para as férias, e lá estavam um milhão de garotas sentadas e por ali de pé a espera de seus encontros. Garotas com as pernas cruzadas, garotas com as pernas não cruzadas, garotas com pernas sensacionais, garotas com pernas horríveis, garotas que pareciam garotas e tanto, garotas que pareciam ser umas putas se você as conhecesse. Era realmente algo belo de se ver, se você sabe o que quero dizer. De outro modo, era algo meio depressivo, também, pois você fica pensando que troço será que vai acontecer a todas elas. Quando elas deixarem o colégio, quero dizer. Você imaginaria que a maioria delas se casaria com caras idiotas. Caras que estão sempre falando sobre quantas milhas eles fazem com um galão de gasolina em seus carros fudidos. Caras que passam mal, iguais crianças, quando são derrotados no golfe, ou mesmo num jogo estúpido como o pingue-pongue. Caras que são bem sovinas. Caras que nunca vão ler livros. Caras que são bem chatos.” Cap. 17
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“A lot of schools were home for vacation already, and there were about a million girls sitting and standing around waiting for their dates to show up. Girls with their legs crossed, girls with their legs not crossed, girls with terrific legs, girls with lousy legs, girls that looked like swell girls, girls that looked like they'd be bitches if you knew them. It was really nice sightseeing, if you know what I mean. In a way, it was sort of depressing, too, because you kept wondering what the hell would happen to all of them. When they got out of school and college, I mean. You figured most of them would probably marry dopey guys. Guys that always talk about how many miles they get to a gallon in their goddam cars. Guys that get sore and childish as hell if you beat them at golf, or even just some stupid game like ping-pong. Guys that are very mean. Guys that never read books. Guys that are very boring.” Ch. 17
Aqui Holden explicita seu deslocamento, na crítica aos grupinhos e 'panelinhas' dos colégios (“e todo mundo se mete juntos nestes pequenos grupos sebentos”, “ and everybody sticks together in these dirty little goddam cliques.”), a obrigação do consumismo – quem tem o carro mais potente, o vestido mais da moda, etc - , as vaidades, os exibicionismos – exagerado nos pseudo-artistas, pseudo-heróis, etc – onde as pessoas jogam jogos ilusórios e perdem toda a espontaneidade, sobrando só a hipocrisia (que ele odeia).
Holden quer fugir, quer cair na estrada (lembramos que é a mesma época de 'On the Road' , escrito em 1951, e publicado em 1957, do beatnik Jack Kerouac), e quer a companhia da garota ao seu lado – mas é inútil, ela já é do grupo dos intelectualóides, dos consumistas, dos vaidosos. Ela não quer deixar o conforto para viver uma vida de riscos, porém com sinceridade e ousada liberdade. E quanto mais ele desabafa pior fica o 'clima' entre os jovens - até o previsível rompimento.
A cena no Bar Wicker – no capítulo 19 – também ilustra o distanciamento de Holden para com os 'amigos', aliás, um sujeito pernóstico que o solitário jovem chama para um drink num bar de boêmios perdidos pelo centro da metrópole nova-iorquina. Em busca de diversão os bares amontoam-se de cretinos e esnobes, na visão de Holden, que mal suporta o lugar. Os músicos se exibem para os aplausos, a plateia aplaude freneticamente, mas sem entender o que seja, os garçons servem maquinalmente.
O amigo – um intelectualóide, logo percebemos – mal se interessa pelo que Holden tem a dizer. Antes, o intelectual só conversa o que interessa aos intelectuais. Desde o colégio – ou colégios, pois o jovem protagonista não foi expulso apenas de um colégio – Holden sabe como funcionam os intelectuais com seus discursos e bazófias. “Estes caras intelectuais não gostam de ter uma conversa intelectual com você a menos que eles dominem a coisa toda. Eles sempre querem que você se cale quando eles se calam, e volte para o seu quarto quando eles voltam pros quartos deles.” (Cap. 19) (“These intellectual guys don't like to have an intellectual conversation with you unless they're running the whole thing. They always want you to shut up when they shut up, and go back to your room when they go back to their room.” Ch. 19)
De desilusão em desilusão, desencontro em desencontro, solidão em solidão, Holden encontra-se consigo mesmo e chora. Ignorado e subestimado, o jovem sente-se só num momento de transição – ele abandona as ilusões infantis e se prepara para o 'mundo-cão' dos adultos. É um verdadeiro 'bem-vindo ao mundo adulto', onde o jovem se sente enganado e vitimado. Daí o choro de Holden.
Novamente a imagem da família ressurge. Solto nas ruas de Nova York, pois não desejava ir para casa, Holden percebe que a única pessoa com quem quer mesmo conversar é a irmãzinha Phoebe. Depois da morte de Allie e da mudança de D.B. para Hollywood, em quem mais Holden pode confiar? Quem mais poderá chorar por sua morte, assim como ele chorou a morte do irmãozinho? Ele deixa a solidão da cidade e volta-se para o aconchego do lar – onde entra de forma clandestina: em surdina.
O humor-negro de Holden sempre mostra autoconsciência. Ele ironiza a forma de entrar em casa (“eu devia é ter nascido ladrão”) e pisa macio para não ser descoberto. Entra a irmã e travam um interessante diálogo – parece que o único autêntico em todo o livro. Os pais não estão em casa, assim os irmãos podem até dançar em cima da cama, mas a menina não gosta nada da ideia de Holden ser novamente expulso de um colégio.
Os capítulos finais apresentam diálogos que ajudam o leitor a localizar Holden nos contextos – o familiar, no capítulo 22, com a irmã, e o estudantil-social, no capítulo 24, com professor Antolini – e ir além da narrativa solipsista anterior. É uma possível abertura para o dialogismo aqui. Outras vozes podem surgir, outros discursos além daquele do narrador-protagonista (ainda que apresentados pela escrita dele).
A irmãzinha Phoebe ouve os desabafos de Holden, o aluno expulso e excomungado, e quer saber o que o jovem que ser, o que vai fazer na vida. Afinal do que o amargurado e irônico Holden gosta? Ele que não gosta de intelectuais, advogados, artistas exibicionistas, roteiristas de Hollywood, cientistas que podem criar bombas arrasadoras, pervertidos de hotéis, grupos de sacanas no colégio, etc, do que será que ele gosta? Ele então narra uma imagem muito louca, mas que dá título ao romance.(1)
“Você conhece aquela canção, 'Se alguém encontra alguém vindo através do centeio? … Fico imaginando estes garotos jogando algum jogo num grande campo de centeio e tal. Milhares de pequenos garotos, e ninguém por perto – ninguém de maior, quero dizer – exceto eu. E eu fico na borda de um louco dum abismo. O que eu tenho que fazer, eu tenho que apanhar cada um se eles chegam na borda do abismo – quero dizer se eles estão correndo e não veem onde estão indo eu tenho que chegar de algum lugar e apanhá-los. Eis tudo o que farei o dia todo. Apenas ser o apanhador no campo de centeio e tal. Sei que é meio maluco, mas eis a única coisa que eu realmente gostaria de ser. Sei que é meio doido.” (Cap. 22)
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“You know that song, ’If a body catch a body comin’ through the rye’? ... I keep picturing all these little kids playing some game in this big field of rye and all. Thousands of little kids, and nobody’s around – nobody big, I mean – except me. And I’m standing on the edge of some crazy cliff. What I have to do, I have to catch everybody if they start to go over the cliff – I mean if they’re running and they don’t look where they’re going I have to come out from somewhere and catch them. That’s all I’d do all day. I’d just be the catcher in the rye and all. I know it’s crazy, but that’s the only thing I’d really like to be. I know it’s crazy.” Ch. 22
Antes de sair para visitar o prof. Antolini – em plena madrugada! - Holden novamente cede ao choro, junto à irmãzinha Phoebe, que fica até assustada. Holden mostra-se realmente emotivo depois de tudo o que suportou no fim de semana mais inesperado e revelador de sua vida até ali. Aliás, revelador é o tom que move o diálogo com o professor. Diante do jovem atormentado, o adulto tenta aplicar suas lições de didática e humanismo. Algo de psicanalítico aqui. Citação de autor psicanalista, inclusive.
(É irônico se lembrarmos que aquele amigo chato, lá no Bar Wicker, o filho de psicanalista que sugere ao inquieto Holden uma boa conversa ao estilo freudiano. Que psicanálise poderá 'curar' Holden? Antes, não seria 'encaixá-lo' na realidade doentia? A psicanálise não devia antes 'curar' a sociedade de cretinos? )
O professor tenta entender o contexto de Holden, sua percepção de mundo eu consequente sentir-se deslocado. Holden é um tipo de pessoa que cai no fundo do poço e precisa saber se levantar. A maioria simplesmente não cai – vai se encostando nos lugares-comuns da existência. (Aliás, eis um tema constante na literatura existencialista, a la Sartre, Camus, Beauvoir...) O professor tenta tranquilizar o jovem, a lembra que o jovem não está sozinho – outros já se sentiram como ele e escreveram sobre isso. Como romper a mediocridade e a hipocrisia?
“Você descobrirá que não é a primeira pessoa a ficar confusa e assustada e mesmo doente com o comportamento humano. De modo algum você está sozinho neste placar, e se sentirá excitado e estimulado ao saber. Muitos, muitos homens tiveram problemas morais e espirituais iguais a você agora. Felizmente, alguns deles guardaram registros de seus problemas. Você aprenderá com eles – se você quiser. Assim, algum dia, se você tiver algo a oferecer, alguém aprenderá algo com você. É um belo arranjo recíproco. E não é educação escolar. É História. É poesia.” Cap. 24
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“You’ll find that you’re not the first person who was ever confused and frightened and even sickened by human behavior. You’re by no means alone on that score, you’ll be excited and stimulated to know. Many, many men have been just as troubled morally and spiritually as you are right now. Happily, some of them kept records of their troubles. You'll learn from them – if you want. Just as someday, if you have something to offer, someone will learn something from you. It's a beautiful reciprocal arrangement. And it isn’t education. It’s history. It’s poetry.” Ch. 24
Podemos ver e vislumbrar uma série de escritores com seus registros de crises, a compor uma série de livros que vão integrar o acervo mundial da literatura confessional, existencialista, vertida em prosa e poesia, a conectar os leitores – futuros autores – numa teia de apoio e intertextualidade. A comunhão literária que tanto defendemos aqui – neste MEU CÂNONE OCIDENTAL – e outros ensaios.
Uma literatura enquanto expressão e denúncia, enquanto compartilhamento de impressões sobre o mundo. Não apenas uma literatura que fala de literatura. Os excessos de metalinguagem, metapoemas, metatextos, mostram isso – o esvaziamento da literatura enquanto depoimento, troca de sensações e vivências.
O que o professor deseja dizer é que não basta Holden cultivar o desassossego, mas ele deve reelaborar a inquietação em escrita, em comunicação, e superar tudo de uma forma criativa – é preciso sofrer e transcender o sofrer para desenvolver a capacidade criadora – eis o que faz o Artista, o criador de textos, poemas, músicas, imagens.
Pena que o episódio se encerre de forma tão brusca e inesperada, num anticlímax. Não sabemos se Holden imaginou tudo ou é verdade. O professor, com admiração, debruçado sobre o jovem ? Um afeto paternal ou um indício de pedofilia? Será o filosófico professor Antolini um pervertido? (O caso é que Holden odeia os pervertidos. E é compreensível que o jovem se afaste até do simpático professor.)
É o final da narrativa. O momento mais depressivo na vida do protagonista-narrador. Ele sabe disso – mesmo um ano depois (quando finalmente escreve). Holden novamente em suas andanças e devaneios, a ponto de se perder em digressões – ele que aprecia tanto as digressões! É o mesmo desconforto, o mesmo sentir sozinho, que encontramos no narrador-protagonista de “On the Road”, o Sal Paradise, alter-ego do autor Kerouac, logo no início do livro e que leva o jovem escritor a começar suas perambulações by carona pelos Estados Unidos. Holden imagina-se viajando para o oeste norte-americano através de caronas, tal como fazia Kerouac na mesma época.
O jovem acredita que não há lugar seguro e pacífico no mundo. Sempre alguém vai escrever um xingamento debaixo do nariz de outro alguém, sempre alguém vai atirar pedras. Nem depois de morto, o sujeito tem paz, podem pichar sua lápide. “Eis o problema todo. Você nunca via encontrar um lugar legal e calmo, porque não existe isso.” (Cap. 25)(“That's the whole trouble. You can't ever find a place that's nice and peaceful, because there isn't any.” Ch. 25)
Mas no final ele prova que estava errado – não vale a pena ser tão negativo e niilista. Algo vai acontecer – algo simples e familiar que vai provar o quanto Holden ainda tem alguém em quem pensar, em quem abrigar sua afeição. O final é simples, singelo e destoa do livro inteiro – quem lê vai entender. Não vamos revelar aqui. Apenas que Holden não foi para o oeste com o pé na estrada a pedir carona.
O final? O final é o próprio livro que acabamos de ler. Ele escreve. Ele narra suas aventuras e desventuras. Pensa melhor sobre o que vivenciou e confidencia seu testemunho. (Pois ao autor Salinger importa o sincero depoimento da literatura, não a exibição autoral, daí sua dedicação em escrever e não aparecer na mídia...) Ao narrar tudo o jovem Holden até sente saudades. Até dos cretinos, até do soco, até do desmaio. Tudo faz parte do desassossego e do aprendizado. E quanto a nós? O que podemos fazer além de ler e tentar compreender? A Escrita é mesmo uma mensagem numa garrafa jogada ao mar das possibilidades.
Leonardo de Magalhaens
http://leoliteraturaescrita.blogspot.com
nota:
(1) Através do campo de centeio, expressão do poema de Robert Burns [1759-1796]
“Comin' Thro' The Rye”
http://allpoetry.com/poem/8439179-Comin_Thro_The_Rye-by-Robert_Burns
http://en.wikipedia.org/wiki/Comin%27_Thro%27_the_Rye
Comin thro' the rye, poor body,
Comin thro' the rye,
She draigl't a' her petticoatie,
Comin thro' the rye!
Gin a body meet a body
Comin thro' the rye,
Gin a body kiss a body,
Need a body cry?
(“Vindo através do centeio, pobre alguém, / Vindo através do centeio, / Ela molhou a anágua, / Vindo através do centeio! // Se alguém encontra alguém / Vindo através do centeio, / Se alguém beija alguém, / precisa alguém gritar?” trad. LdeM)
…
mais info sobre “Catcher in the Rye” em:
summary
http://www.free-book-summary.com/the-catcher-in-the-rye.html
http://www.sparknotes.com/lit/catcher/
Wikiquote
http://en.wikiquote.org/wiki/The_Catcher_in_the_Rye
first edition photos
http://www.fedpo.com/BookDetail.php?bk=213
videos sobre
http://www.youtube.com/watch?v=TNKRhHPmDUY
http://www.youtube.com/watch?v=r1SCbHtskfQ
Filme inspirado em “Catcher”
Chasing Holden / 2003
http://www.imdb.com/title/tt0217319/
http://www.youtube.com/watch?v=zH8SLHWXavo&feature=related
Vídeo com cena baseada no romance :
'If a body catch a body'
http://www.youtube.com/watch?v=UjNeom_q5sQ&feature=related
segunda-feira, 16 de abril de 2012
sobre 'Retrato do Artista quando Jovem' - de James Joyce

Sobre o romance “Retrato do Artista quando Jovem”
(A Portrait of the Artist as a Young Man, 1914)
do escritor irlandês James Joyce (1882-1941)
As dores de formação do jovem artista
O “Retrato do Artista quando Jovem” (nos capítulos 1 a 3) e “Catcher in the rye” têm em comum com “Meninos da Rua Paulo” e “O Ateneu”, e também “Jovem Törless”, a descrição dos ambientes escolares, as turmas de estudantes, as amizades e hostilidades, com o foco nos protagonistas.
“Artista quando Jovem” (capítulos 4 e 5) compartilha com “Tonio Kroeger” a característica de um Künstlerroman – ao abordar a formação do jovem artista. Acompanhamos o artista dentro do mundo, o artista em conflito com o mundo. Vemos como sua autoconsciência pode levar a um egocentrismo. Desde cedo o jovem enfrenta os grupos de jovens – eis o indivíduo contra o coletivo. Antes, um gênio entre os medíocres?
A ideia de singularidade, de excentricidade, de indivíduo contra o mundo que o cerca, encontra-se presente nos livros sobre as expectativas e frustrações juvenis, e mostra-se mais trabalhada em romances do estilo psicologista, ou existencialista, tais como “Notas do Subsolo” (Dostoiévski), “A Náusea” (Sartre) ou “Fome” (Hamsun) - temas de próximos ensaios (aqui em Meu Cânone Ocidental).
O autor James Joyce saiu da Irlanda, mas a Irlanda não saiu dele. As provas são as belas obras “Retrato do Artista quando Jovem” e “Ulisses”, que foram escritas no Continente (isto é, a Europa) mas localizadas espacial e sentimentalmente na Irlanda, nas ruas de Dublin, nas praias, nas torres Martelo que lembravam a colonização inglesa.
Numa época de nacionalismo irlandês contra a dominação inglesa, o autor volta-se para o interior das personagens, sondar a vida psíquica do protagonista pareceria meio deslocado, mas foi isso mesmo que James Joyce fez. O mundo exterior ali está – mas filtrado pela sensibilidade juvenil do protagonista Stephen Dedalus, alter ego do autor.
Um mundo de família, de tradições arraigadas, de religiosidade quase fanática, num país que vive em conflitos religiosos (católicos e protestantes mantem suas querelas ), qual a posição do protagonista? Melhor: qual a localização de Stephen Dedalus no mundo? Quem é ele em relação à família? Em relação à escola? Em relação a onipresença de Deus? São as primeiras indagações do menino que se torna jovem. Um despertar de pensamento metafísico?
“Ele abriu o livro de geografia para estudar a lição; mas ele não conseguia aprender os nomes de lugares na América. Ainda eram todos lugares diferentes com nomes diferentes. Estavam todos em diferentes países e os países estavam em continentes e os continentes estavam no mundo e o mundo no universo.
Ele passou a página do livro de geografia e leu o que ele tinha escrito lá: ele mesmo, seu nome e onde ele estava.
Stephen Dedalus / Classe básica / Colégio do Bosque de Clongowes /
Sallins / Condado de Kildare / Irlanda / Europa / Mundo / Universo
[…] Então ele leu a página de alto a baixo até voltar ao próprio nome. Eis o que ele era: e ele leu a página até embaixo novamente. O que havia depois do universo?
Nada. Mas haveria algo ao redor do universo a mostrar onde ele acabava antes do nada começar?
Não poderia ser uma parede; mas poderia ser uma linha fina, bem fina, lá ao redor de tudo. E era muito grande pensar a respeito de tudo e todo lugar. Apenas Deus podia fazer isso. Ele tentou pensar que grande pensamento deveria ser; mas ele podia apenas pensar sobre Deus. Deus era o nome de Deus, assim como o nome dele era Stephen. Dieu era Deus em francês, e era também o nome de Deus; e quando alguém Rezava para Deus e dizia Dieu então Deus sabia logo que era uma pessoa francesa que estava rezando. Mas, apesar de haver diferentes nomes para Deus em todas as diferentes línguas no mundo e Deus entendia o que todas as pessoas que rezavam diziam nas suas diferentes linguagens, ainda assim Deus permanecia sempre o mesmo Deus e o nome real de Deus era Deus.
E isto o deixou muito cansado ao pensar deste modo. Fez com a cabeça parecesse enorme. Ele voltou a página e olhou fatigado ao campo verde ao redor no meio dos nuvens castanhas.” (trad. LdeM)
“He opened the geography to study the lesson; but he could not learn the names of places in America. Still they were all different places that had different names. They were all in different countries and the countries were in continents and the continents were in the world and the world was in the universe.
He turned to the flyleaf of the geography and read what he had written there: himself, his name and where he was.
Stephen Dedalus
Class of Elements
Clongowes Wood College
Sallins
County Kildare
Ireland
Europe
The World
The Universe
[...] Then he read the flyleaf from the bottom to the top till he came to his own name. That was he: and he read down the page again. What was after the universe?
Nothing. But was there anything round the universe to show where it stopped before the nothing place began?
It could not be a wall; but there could be a thin thin line there all round everything. It was very big to think about everything and everywhere. Only God could do that. He tried to think what a big thought that must be; but he could only think of God. God was God's name just as his name was Stephen. DIEU was the French for God and that was God's name too; and when anyone prayed to God and said DIEU then God knew at once that it was a French person that was praying. But, though there were different names for God in all the different languages in the world and God understood what all the people who prayed said in their different languages, still God remained always the same God and God's real name was God.
It made him very tired to think that way. It made him feel his head very big. He turned over the flyleaf and looked wearily at the green round earth in the middle of the maroon clouds.
fonte das citações:
livro no Project Gutenberg
http://www.gutenberg.org/files/4217/4217-h/4217-h.htm
Acompanhamos as cenas da infância, da pré-adolescência do protagonista, que vai amadurecendo – enquanto isso a linguagem da narração também se transmuta, passa do simples, infantil ao complexo, na medida na qual o livro progride. A vida interior, a percepção íntima, tem uma singular relevância sobre o mundo exterior – aspecto que será essencial nas narrativas de Marcel Proust, Virginia Woolf e Clarice Lispector, como sabemos.
O jovem Stephen começa a experimentar a culpa, daí o medo, o terror diante das tantas punições pregadas pela religião (aqui trata-se do catolicismo rigoroso dos jesuítas). A divindade surge como um ser que observa, proibi e puni os impuros pecadores. O jovem sente saudades do lar, tem medo de morrer sozinho, longe da família. Ele recorre ao afeto de mãe, ele querer voltar ao lar. Um lar idealizado pela distância. O mesmo fenômeno que percebemos nas desventuras do jovem Törless (da novela de R. Musil)
link para ensaio sobre “Jovem Törless”
http://meucanoneocidental.blogspot.com.br/2012/03/sobre-o-jovem-torless-de-r-musil.html
Deslocado meio aos colegas, alunos muitas vezes rudes e violentos, o jovem teme morrer no internato, no rigor religioso dos jesuítas, ele imagina a própria morte, a tristeza de ser velado meio aos estranhos. É um jovem que toma consciência da própria finitude.
Outra consciência surge: a de classe. Ao conviver com colegas provenientes de várias classes, Stephen percebe que algumas famílias são mais prósperas do que outras, tem interesses diversos – sejam econômicos ou políticos – que sua família não está incluída entre as mais ricas. Stephen se compara com os colegas, e assim percebe a própria condição.
“Por que ele não queria dizer? O pai dele, que tinha cavalos de corrida, devia ser um magistrado assim como o pai de Saurin e o pai de Roche Nojento. Ele pensava sobre o seu próprio pai, de como ele cantava canções enquanto sua mãe tocava e de como ele sempre dava um xelim quando ele pedia seis pences e sentia muito pois ele não era um magistrado igual aos pais dos outros garotos.”
“Why did he not tell it? His father, who kept the racehorses, must be a magistrate too like Saurin's father and Nasty Roche's father. He thought of his own father, of how he sang songs while his mother played and of how he always gave him a shilling when he asked for sixpence and he felt sorry for him that he was not a magistrate like the other boys' fathers. “
As condições econômicas da família de Stephen são apresentadas ao longo da narrativa –e continua na 'sequência', o romance denso “Ulisses” - para apresentarem um recorte dentro da pirâmide social, ou a pobreza enquanto outra limitação para o protagonista (assim encontramos tal limitação nos protagonistas de “Crime e Castigo” e “Fome”, obras lidas nos próximos artigos) já às voltas com sua introspecção, deslocamento, solidão, percepção religiosa.
Os conflitos de religião, de política, envolvendo padres e nacionalistas, estão sempre presentes na vida de Stephen, desde as primeiras cenas domésticas. Protestantes nacionalistas se aliam com maiorias católicas para garantirem os acordos com os dominadores ingleses. Facções de nacionalistas preferem a luta armada, planejam atentados. Assim a luta de Charles Parnell, de Michael Collins, de Éamon de Valera, dos Fenianos, do Exército Republicano Irlandês (o IRA). Encontramos eventos mencionados durante a narrativa, em discussões em ceias familiares, em falas de adultos ao redor do jovem protagonista, mas sem um foco, tão somente pano-de-fundo.
As cenas de família se alternam – muitas vezes – com cenas de família, na oscilação do jovem entre os papeis de 'filho' e 'aluno', sempre na dependência dos pais ou dos professores, devendo sempre obediência no processo que chamamos de 'educação', mas revela-se 'domesticação'. Punições físicas que humilham os alunos, eis uma violência que não faltava.
“Foi errado; foi injusto e cruel; e, enquanto ele se sentava no refeitório, ele sofria, tempo após tempo, na lembrança, a mesma humilhação até que ele começasse a se perguntar se não devia haver realmente algo em sua face que fazia com que ele parecesse um enganador e ele gostaria de ter um espelho para ver. Mas não podia ser; e foi injusto e cruel e errado.” (“It was wrong; it was unfair and cruel; and, as he sat in the refectory, he suffered time after time in memory the same humiliation until he began to wonder whether it might not really be that there was something in his face which made him look like a schemer and he wished he had a little mirror to see. But there could not be; and it was unjust and cruel and unfair.” )
A onipresença da religião, na família, no colégio dos jesuítas, acaba por criar uma sobreexcitação religiosa no jovem Stephen, que sente a opressão do poder divino, do olhar divino, da vigilância sobre os 'pecados'. Em arrepios ele passa a noite a espera da punição divina. Ainda que venha a sofrer apenas com a palmatória de um tutor sádico, na sala de aula. Humilhação que ele supera ao se explicar com o diretor e conseguir a compreensão deste.
Neste episódio já podemos compreender a severidade e até sadismo do colégio religioso, sempre pronto para reprimir os impulsos – ditos 'pecaminosos' – dos jovens. Uma cultura de repressão que cria neuroses. Nenhum novidade. Aqui temos o testemunho – no início do século 20, daquilo que incomodava pensadores como Sigmund Freud, Wilhelm Reich e Erich Fromm.
No Capítulo 2 voltam as cenas familiares, os parentes, as menções aos fatos políticos da conturbada Irlanda do início do século 20, tudo se junta as vivências do resto da infância, quando despertam as interrogações e interesses dos adolescentes. Os passeios, os vultos das cidades grandes, os primeiros desassossegos. O narrador adentra os movimentos íntimos do protagonista (num olhar de sondagem interior que encontramos na obra de Virginia Woolf e Clarice Lispector),
“Ele saiu uma vez ou duas com sua mãe para visitar os parentes: e apesar de eles passarem por joviais fileiras de lojas iluminadas e enfeitadas para o Natal, seu modo de amargurado silêncio não o deixava. As causas de sua amargura eram muitas, remotas e próximas. Ele estava irritado consigo mesmo por ser jovem e presa de inquietos impulsos fúteis, irritado também com a mudança da sorte que estava remoldando o mundo ao redor dele numa visão de vileza e insinceridade. No entanto a sua ira nada deixava à visão. Ele relatava com paciência o que ele via, destacando-se disto e provando seu gosto mortificando em segredo.”
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“He went once or twice with his mother to visit their relatives: and though they passed a jovial array of shops lit up and adorned for Christmas his mood of embittered silence did not leave him. The causes of his embitterment were many, remote and near. He was angry with himself for being young and the prey of restless foolish impulses, angry also with the change of fortune which was reshaping the world about him into a vision of squalor and insincerity. Yet his anger lent nothing to the vision. He chronicled with patience what he saw, detaching himself from it and tasting its mortifying flavour in secret.”
Na mesma época o jovem Stephen conhece o primeiro amor, a imagem da amada garota que não sai da cabeça, o impulso de adoração masculina diante da donzela eleita. As cenas mais prosaicas se tornam as mais líricas. Um encontro na rua, um aceno, um adeus, uma viagem no bonde (tram),
“Seu coração dançava com os movimentos dela tal qual uma boia na maré. Ele ouvia o que os olhos dela lhe diziam lá de sob o capuz e sabia que em algum obscuro passado, se na vida ou num sonho, ele tinha ouvido esta estória antes. Ele via os ímpetos da vaidade dela, com seu vestido fino e faixa e longas meias pretas, e sabia que ele tinha se rendido a elas umas mil vezes. Contudo uma voz íntima falava acima do ruído do coração dançante, a perguntar-lhe se ele levaria a dádiva dela a qual ele teria apenas de estender a mão.”
“His heart danced upon her movements like a cork upon a tide. He heard what her eyes said to him from beneath their cowl and knew that in some dim past, whether in life or revery, he had heard their tale before. He saw her urge her vanities, her fine dress and sash and long black stockings, and knew that he had yielded to them a thousand times. Yet a voice within him spoke above the noise of his dancing heart, asking him would he take her gift to which he had only to stretch out his hand.”
Também as leituras se revelam aos olhos do jovem, que precisa defender seus gostos estéticos diante dos outros jovens, outros grupos, que demonstram força, mas não exatamente inteligente, quando se esforçam para agradar professores e cânones. Stephen é um aluno aplicado, é um 'bom moço', mas não segue as regras dos cânones. Tem seus autores prediletos, tem suas próprias ideias sobre a arte. Claro, tudo como uma 'angústia de influência' (ver H. Bloom) por culpa de tantas leituras,
“Ele tinha emergido de um encanto de delírio de dois anos para encontrar-se no meio de um novo cenário, cada evento e figura do que o afetava intimamente, desanimava-o ou iludia e, se iludindo ou desanimando, enchia-o sempre com desassossego e pensamentos amargos. Todo o ócio que a vida escolar deixava para ele foi passada na companhia de escritores subversivos cujas ironias e violência de discurso deixaram um fermento em seu cérebro antes de passarem para os seus próprios escritos imaturos.”
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“He had emerged from a two years' spell of revery to find himself in the midst of a new scene, every event and figure of which affected him intimately, disheartened him or allured and, whether alluring or disheartening, filled him always with unrest and bitter thoughts. All the leisure which his school life left him was passed in the company of subversive writers whose jibes and violence of speech set up a ferment in his brain before they passed out of it into his crude writings.”
Lendo os autores considerados 'subversivos', ou 'imorais' (dentre eles os bardos românticos Lord Byron e Shelley), o jovem Stephen começa a desafiar os cânones - e ser olhado como exótico, independente, arrogante - em desacordo com os colegas, em conflitos, em humilhações, numa gradação que atinge o ápice no final da narrativa, quando ele enfim busca o exílio, indo para o continente (o mesmo fez o autor James Joyce, como sabemos).
“A questão de honra, aqui levantada era, como todas as questões semelhantes, trivial para ele. Enquanto sua mente tinha perseguido estes intangíveis fantasmas e voltando-se na irresolução de tal perseguição ele tinha ouvido sobre ele as constantes vozes de seu pai e de seus professores, incitando-o a ser um cavalheiro acima de todas as coisas e incitando-o a ser um bom católico acima de todas as coisas. Estas vozes chegavam agora como sons vazios aos seus ouvidos.”
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“The question of honour here raised was, like all such questions, trivial to him. While his mind had been pursuing its intangible phantoms and turning in irresolution from such pursuit he had heard about him the constant voices of his father and of his masters, urging him to be a gentleman above all things and urging him to be a good catholic above all things. These voices had now come to be hollow-sounding in his ears.”
No entanto, o jovem Stephen tenta ser um bom aluno, um filho obediente, deseja ordem em sua vida provinciana, de estudante aplicado, para assim domar seus instintos – de luxúria? De subversão? De arrogância artística? - para ser aceito e respeitado. Mas em vão! O jovem não pode se adaptar, 'fazer tudo certo', seguir o senso comum, agradar a todos, sem sentir-se deslocado – com os outros e consigo mesmo.
“Quão tolo tinha sido seu propósito! Ele tentara construir um dique de ordem e elegância contra a sórdida maré da vida fora dele e represar, através de regras de conduta e interesse ativo e novas relações filiais, a poderosa recorrência de marés dentro dele. Inútil. Tanto de fora quanto de dentro as águas tinham fluido sobre as barreiras: suas marés começaram uma vez mais a empurrar furiosamente sobre a mole rachada.
Ele via claramente seu tão fútil isolamento. Ele não tinha dado nem um passo para mais perto das vidas das quais ele procurara se aproximar nem transpôs a inquieta vergonha e rancor que o tinha separado de sua mãe e irmão e irmã. Ele sentia que ele era dificilmente do mesmo sangue deles mas permanecendo para eles mais como num místico parentesco de adoção, filho adotado e irmão adotado.”
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“How foolish his aim had been! He had tried to build a break-water of order and elegance against the sordid tide of life without him and to dam up, by rules of conduct and active interest and new filial relations, the powerful recurrence of the tides within him. Useless. From without as from within the waters had flowed over his barriers: their tides began once more to jostle fiercely above the crumbled mole.
He saw clearly too his own futile isolation. He had not gone one step nearer the lives he had sought to approach nor bridged the restless shame and rancour that had divided him from mother and brother and sister. He felt that he was hardly of the one blood with them but stood to them rather in the mystical kinship of fosterage, fosterchild and fosterbrother.”
Imerso na vida religiosa, o protagonista passa por um momento de doutrinação, medo, confissão, penitência, considerações dobre a vocação – para a ordem dos jesuítas? Para o panteão da Arte? O capítulo 3 e metade do capítulo 4 tematizam este hesitar entre a vida religiosa e a vida artística, onde a tentação, o medo e a percepção de artista.
Stephen desvia-se dos apelos sensuais das mulheres nas ruas, desvia-se dos desejos que estão dentro, não fora, busca se distanciar apenas para se punir mais. Pois ele vai 'pecar' e depois se martirizar. Pois para o subversivo o pecar é uma forma de vitalidade. Mas ele vai temer as chamas do inferno e buscar perdão.
O jovem artista se oferece para cargos de exemplo, de devoção, onde busca disciplina, pois sabe o quanto está à deriva consigo mesmo e no meio dos outros. Ele está numa espécie de rede de um círculo vicioso. Peca para pedir perdão, e pecar novamente. A religião cria pecados apenas para oferecer absolvições inúteis.
Não vamos nos deter no longo capítulo onde um sacerdote jesuíta descreve as agruras e torturas do Inferno cristão, do Inferno que causa terror para encher os templos. Adora-se a Deus mais por medo do que por amor à divindade. Nenhuma novidade neste raciocínio. Basta ver o quanto as pessoas buscam a vida religiosa após décadas de vida luxuriosa.
O importante é que vemos a oscilação de Stephen, o quanto ele se aproxima da vida religiosa meio aos jesuítas, a ponto de ser convidado a ingressar na severa Ordem de Inácio. Mas o jovem artista não se imagina seguindo tudo um ritual apenas por medo do fogo do Inferno. Por mais que ele chore de arrependimento, ele sabe que vai pecar novamente. Se é que existe pecado, afinal ele segue sua vitalidade, ele aborrece as repressões, ele pode até confessar, mas é um infiel, devoto apenas da própria arte.
Em todo este capítulo, presenciamos a luta de Stephen no embate entre o corpo e o espírito – para usar a imagem cristã – onde os instintos do corpo são considerados como motivadores dos pecados. O mundo ideal cristão é o da repressão dos sentidos, do amordaçamento das sensações. Não se pode sentir, não se pode entregar ao poder sexual, mas manter abstinências, fazer jejuns, mortificar a carne. Mas para Stephen será impossível abafar as pulsões de sua sensibilidade juvenil.
Stephen é seduzido pelo poder da vida sacerdotal, o poder que os religiosos saem ter sobre os pobres leigos pecadores. É a dominação religiosa que fascina o jovem, mas ele não quer pagar o preço. Ele desdenha a classe sacerdotal, o fazer parte de uma classe de 'santarrões', desdenha os 'conhecimentos secretos' que dão poder aos iniciados na seita. Ele será apenas um neófito que prefere seguir seus impulsos estéticos. O jovem desiste de ser o Reverendo Stephen Dedalus, S. J.
Assim Stephen volta-se para o seio familiar, para a pobreza dos irmãos, para a vida limitada na ilha chamada irlanda, para o nacionalismo que divide os cidadãos, para o olhar sobre a sedutora Europa, ali ao lado, mas distante. Meditando, ao longo da praia, observando o cotidiano prosaico a sus frente, mas em indagações líricas sobre o hoje e o futuro, sua vida jovem enquanto promessa de conquistas – mas também possibilidades de derrotas.
Momentos de epifanias – de deslumbramentos intuitivos – quando tudo se desenrola diante dos seus olhos e nos redemoinhos de sua percepção, tudo isso é o Eu juvenil de Stephen, que a narração tenta captar, como será característico nas prosas poéticas de Virginia Woolf e Clarice Lispector.
Epifanias que exigem uma prosa praticamente poética para permitir o desabafo de percepções em sinestesias, em imagens de um poema simbolista. Podemos rastrear aqui influência no título do primeiro livro de uma das grandes escritoras do século 20, a sensacional Clarice Lispector, “Perto do Coração Selvagem” (1943), cuja epígrafe foi extraída do trecho abaixo ,
“Onde estava sua infância agora? Onde estava a alma que suspendera de volta do destino dela, para remoer sozinha sobre a vergonha de suas feridas e em sua morada de impureza e subterfúgio para reinar em roídas mortalhas e coroas-de-flores que murchavam ao simples toque? Ou onde ele estava?
Ele estava sozinho. Ele estava desatento, feliz e próximo do selvagem coração da vida. Ele estava só e jovem e voluntarioso e de coração selvagem, sozinho no meio dum deserto de ar selvagem e águas salobras e a colheita marítima de conchas e emaranhado e em luz solar veladas cinzentas e vestidas de luz, vestidas de alegria as figuras de crianças e de moças e vozes infantis e femininas no ar.”
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“Where was his boyhood now? Where was the soul that had hung back from her destiny, to brood alone upon the shame of her wounds and in her house of squalor and subterfuge to queen it in faded cerements and in wreaths that withered at the touch? Or where was he?
He was alone. He was unheeded, happy and near to the wild heart of life. He was alone and young and wilful and wildhearted, alone amid a waste of wild air and brackish waters and the sea-harvest of shells and tangle and veiled grey sunlight and gayclad lightclad figures of children and girls and voices childish and girlish in the air.”
No capítulo final, finalmente observamos o desabrochar do artista. Tudo antes foi um preâmbulo, um prólogo para o artista quando jovem. Stephen é um jovem apaixonado pela arte, pelas sensações, pelo belo sexo. De volta ao mundo familiar, após ter abandonado o colégio jesuíta, o jovem espera o ingresso no mundo acadêmico, para estudar Humanidades na universidade, e conviver com outra mentes ávidas.
Filosofia, História, religião, tudo é reevocado, relido e digerido em longas discussões. Se ele, o artista quando jovem, conhece os pensadores religiosos será apenas para aplicar a escolástica numa teoria própria sobre o fazer artístico. Saberá se localizar, saberá definir coisas que são nebulosas para outros. O contato com outros jovens dá ao artista uma percepção de sua identidade e visão estética, entre eruditos, pedantes, nacionalistas, bons moços, rebeldes sem causa.
Stephen precisa conviver entre vários colegas, com estilos , com discursos, com tendências políticas e ideológicas diversas. Para garantir sua individualidade, seu eu integral – ou se esforçar para esta proeza – ele ou vai se isolar, ou vai dialogar com todos. Em sua posição de individualismo, Stephen ouve de um colega envolvido em causas políticas, em debates sempre fervorosos, prontos a decidirem o futuro da sociedade,
“-Dedalus, você é um cara antissocial, envolvido em você mesmo. Eu não. Sou um democrata e vou trabalhar e agir em prol da liberdade social e da igualdade entre as classes e sexos nos Estados Unidos da Europa do futuro.
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—Dedalus, you're an antisocial being, wrapped up in yourself. I'm not. I'm a democrat and I'll work and act for social liberty and equality among all classes and sexes in the United States of the Europe of the future.
O diálogo com o deão, um religioso inglês, permite a Stephen a percepção dos limites da linguagem. Podem as palavras representarem o mundo? Pode ele empregar plenamente o idioma inglês? Ou será sempre uma língua invasora? Mesmo para ele que não fala o gaélico – antiga língua celta – sufocada pela hegemonia dos anglo-saxões. Uma possibilidade é que ele se apodere desta fala estrangeira e a molde aos seus interesses estéticos (assim será quando James Joyce, o autor, fazer um verdadeiro atentado com a língua inglesa nas futuras obras “Ulisses” e “Finnegans Wake”).
“-Estou certo de que não puderia acender uma lareira.
-Você é um artista, não é, Sr. Dedalus? Disse o deão, olhando para cima e piscando seus olhos pálidos. O objetivo do artista é a criação da beleza. O que seja a beleza é outra questão.”
“—I am sure I could not light a fire.
—You are an artist, are you not, Mr Dedalus? said the dean, glancing up and blinking his pale eyes. The object of the artist is the creation of the beautiful. What the beautiful is is another question.”
O estudante e o deão discutem sobre Arte, em metafísicas meio escolásticas, mas o jovem não entende as palavras mais prosaicas proferidas pelo inglês, o que seria 'funnel' (funil) para um , o quer seria 'tundish' (gargalo) para o outro? Percebem que usam nomes diversos para o mesmo objeto? Entendem-se em plena repetição de Babel?
“A linguagem que falamos é dele antes de ser minha. Quão diferentes as palavras lar, Cristo, Cerveja, Mestre soam nos seus lábios e nos meus! Eu não posso falar ou escrever estas palavras sem um desassossego de ânimo. Sua linguagem, tão familiar e tão estrangeira, será sempre para mim uma fala adquirida. Eu não fiz nem aceitei estas palavras. Minha voz as mantêm entre estanques. Minha alma atormenta-se na sombra de sua linguagem.”
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“—The language in which we are speaking is his before it is mine. How different are the words HOME, CHRIST, ALE, MASTER, on his lips and on mine! I cannot speak or write these words without unrest of spirit. His language, so familiar and so foreign, will always be for me an acquired speech. I have not made or accepted its words. My voice holds them at bay. My soul frets in the shadow of his language.”
Desconfiado dos nacionalismos, dos fanatismos, das ideologias ditas humanistas e humanitárias ao redor, partilhadas pelos colegas em maior ou menor grau, Stephen desenvolve um forte individualismo, que o faz ser rotulado de pouco altruísta, egocêntrico, até reacionário. Para os colegas nacionalistas, o jovem artista é um não-patriota, e é justamente quando o artista irlandês (que logo se auto-exilaria na Europa) declara o que pensa da Irlanda, tradicionalista católica, diante de um estudante feniano (fianna, nacionalista irlandês),
“Stephen, seguindo seu próprio pensar, ficou silencioso por um momento.
-A alma nasceu, ele disse vagamente, primeiro naqueles momentos de que te disse. Foi um lento e obscuro nascer, mais misterioso que o nascer do corpo. Quando a alma de um homem nasce neste país existem redes que pairam sobre ela para a arrastarem de volta do voo. Você fala comigo sobre nacionalidade, idioma, religião, eu tento voar para além destas redes.
Davin remexeu as cinzas de seu cachimbo.
-É profundo demais pra mim, Stevie, ele disse. Mas o pais de um homem vem primeiro, a Irlanda primeiro, Stevie. Você pode ser um poeta ou um místico, depois.
-Você sabe o que a Irlanda realmente é? Perguntou Stephen com fria violência. A Irlanda é uma porca velha que devora sua prole.”
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“Stephen, following his own thought, was silent for an instant.
—The soul is born, he said vaguely, first in those moments I told you of. It has a slow and dark birth, more mysterious than the birth of the body. When the soul of a man is born in this country there are nets flung at it to hold it back from flight. You talk to me of nationality, language, religion. I shall try to fly by those nets.
Davin knocked the ashes from his pipe.
—Too deep for me, Stevie, he said. But a man's country comes first. Ireland first, Stevie. You can be a poet or a mystic after.
—Do you know what Ireland is? asked Stephen with cold violence. Ireland is the old sow that eats her farrow.”
Realmente, muitos poetas irlandês tentaram transcender a condição de irlandeses e alcançarem o mundo (e primeiramente a Europa), mas poucos conseguiram, com as exceções do próprio Joyce, do poeta Yeats, do dramaturgo B. Shaw, e do pupilo de J Joyce, o dramaturgo-romancista S. Beckett (autor da peça bizarra 'Esperando Godot'). Tanto Yeats quanto Beckett foram laureados com o Nobel de Literatura.
Após o desabafo antinacionalista, o protagonista se entrega as teorizações sobre arte e estéticas, que iniciara pouco antes com o deão dos estudos – junto a lareira – sobre o que seria a preensão estética, o papel do artista, como criar piedade e terror através da obra artística, como funcionam os mecanismos da 'emoção trágica', da busca da beleza.
Para Stephen Dedalus, a Arte não apenas excita os ânimos, mas faz o ser se 'deter' e meditar, não deve apenas causar desejo ou repulsa, mas prender a atenção ao ponto de pararmos para apreciar. A obra de arte, aquela que o protagonista defende, deve ter coesão, coerência interna, simetria.
Derivando de um certo pensamento escolástico, e meio platônico, Stephen defende um parentesco entre a beleza e a verdade (enquanto outros defendem que a arte é ficção, é imaginação, é um tipo de 'mentira' que faz enxergar a verdade...), mas depois mostra que várias percepções estéticas são possíveis - cada povo tem suas percepções sobre o que é julgado belo ou feio, assim como cada época tem seus critérios de julgamento estético. A ideia platônica de que existe o Belo e o Feio, como formas fixas, eternas, é abalada pelo relativismo (e o desconstrutivismo de meados do século 20). o que desperta a sensibilidade de uma pessoa pode passar inteiramente indiferente para outra.
Stephen demostra um farto conhecimento de clássicos gregos – Platão, Aristóteles – e de escolásticos – principalmente Tomás de Aquino – sobre os critérios de Beleza, de Arte, de percepção estética.
“Eu traduzo assim: Três coisas são necessárias para a Beleza, a Inteireza, a harmonia e a Radiância. Estas correspondem às fases da apreensão?” (“I translate it so: THREE THINGS ARE NEEDED FOR BEAUTY, WHOLENESS, HARMONY, AND RADIANCE. Do these correspond to the phases of apprehension?” )
A Beleza é vista toda de uma vez, sua apreensão é imediata e total, de modo unitário; segundo ponto, as suas partes, podem ser múltiplas, variadas, mas se harmonizam, se correspondem, contem certa simetria de formas; em terceiro, ilumina a percepção, causa o êxtase do prazer estético, o encantamento.
A Arte – e Stephen fala mais sobre isto – tem suas formas, seus gêneros. E os três principais são aqueles que conhecemos por Lírico, Épico e Dramático.
E as próprias indagações de Stephen estão entre o lírico e o prosaico, o sério e o cômico, o sacro e profano, sobre o que seria obra de arte e o que não-é-arte.
Mas a parte mais prática de toda esta teorização pode ser acompanhada quando o encontramos – como bons voyeurs que somos – Stephen a compor um poema inspirado em seus sentimentos pela sua donzela amada – nada como uma boa musa para inspirar o poeta! Os versos são criados e percebemos toda a formulação estética que condensa as redes de significações - e inspirações, influências, referências - que movem a criação poética.
O estilo textual aqui, do autor J. Joyce aproxima-se muito daquele da autora Virginia Woolf – assim como percebemos no episódio 13 de “Ulisses” com a prosa lírica que acompanha a donzela Nausícaa corporificada numa mocinha na praia de Dublin. É um lirismo que depois se perde num estilo-estilos de paródias e pastiches e ironias, como abemos.
Link para o episodio 13 de Ulisses na Wikisource
http://en.wikisource.org/wiki/Ulysses_%28novel%29/Chapter_13
A imagem da 'musa' inspiradora é melhor compreendida com a reevocação de um trecho lá do capítulo 2, quando Stephen segue no bonde (tram) com a mocinha que passará a visitar seus sonhos ora eróticos ora de amor platônico.
Estamos no preâmbulo do auto-exílio de Stephen, em sua partida pelo continente europeu, para deixar os ares provincianos da ilha irlandesa, sob jugo inglês. O jovem artista aspira conhecer Paris, perambular por Roma, vero Mar Mediterrâneo, ou seja, fazer a tour pela Europa que encantava tanto os poetas românticos britânicos no início do século 19 e os escritores da chamada 'lost generation' norte-americana no início do século 20.
Os sentimentos de melancolia do protagonistas são apresentados com bemas narrações líricas cheias de sensações pictóricas, como se antes de viajar ele já sentisse uma saudade da pátria, num aceno de despedida. Stephen revê, à distância, e depois até troca palavras, com a sua 'musa', e a imagem dela é carregada de um lirismo adolescente.
Adentrando a intimidade de Stephen sabemos que o jovem artista duvida da fé católica, perde a fé no cristianismo – que fora tão rígido com ele no colégio jesuíta –, num duvidar que tanto amargura a mãe que creditava no espírito piedoso do filho. Stephen não deseja viver como um hipócrita, por isso não representa o 'bom católico' diante dos parentes. Ele nem se sente merecedor de piedade, ou afeto. Ele não se julga merecedor do amor da mocinha, a sua 'musa'.
Desde a obra de Dostoievski percebemos que o narrador não mais pretende 'esgotar' a personagem, explicá-la totalmente, sendo mais fácil a personagem falar de si mesma diretamente ao leitor – através de cartas, anotações, fala para outra personagem. O diário de Stephen, nas páginas finais do romance, mostra que o narrador entrega a narrativa ao protagonista (a voz em 1ª pessoa). Stephen se despede da Irlanda, se evade da narrativa. O leitor folheia o diário e se despede do protagonista.
Recebemos o discurso do jovem Stephen, a fala sem intermediários, sem um narrador onisciente. No romance “Ulisses” , principalmente no episódio 3 (ou Proteus) , é a própria 'fala' mental, ou 'monólogo interior', que derrama-se na página. Como se o leitor pudesse 'ler' mente, os labirintos mentais do protagonista. Então o narrador se ausenta.
Ou o narrador é o próprio protagonista. Assim é no próximo (e último) livro que vamos ler – e comentar – para esta série onde a Literatura tematiza os jovens e seus conflitos. O jovem Holden Caulfield narra seus dramas e suas encrencas para o leitor que se emociona e se escandaliza com sua fala juvenil, irônica, amarga, cheia de gírias e ditos niilistas. É dado ao jovem a voz na literatura, com o ousadia de J. D. Salinger em “The Catcher in the rye” (1951, no Brasil, “O Apanhador no Campo de Centeio”).
abr/12
Leonardo de Magalhaens
http://leoliteraturaescrita.blogspot.com
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mais sobre Retrato do Artista quando Jovem
info
http://en.wikipedia.org/wiki/A_Portrait_of_the_Artist_as_a_Young_Man
http://www.sparknotes.com/lit/portraitartist/
livro no Project Gutenberg
http://www.gutenberg.org/files/4217/4217-h/4217-h.htm
filmes
A Portrait of the Artist as a Young Man (1977)
http://www.youtube.com/watch?v=lsrWOYhT1sI
